Política
Brincando com fogo
O incêndio em trens expõe o fiasco das privatizações a toque de caixa feitas por Tarcísio de Freitas
O vagão de um trem em chamas em São Paulo, na quinta-feira 23, escancarou o desastre das privatizações a toque de caixa do governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos. A Artesp, agência reguladora do setor, determinou, no mesmo dia, que as três linhas recém-privatizadas voltassem ao controle da CPTM, empresa pública de transporte preterida na prestação do serviço, por 90 dias. Para os ferroviários, a decisão expõe a fragilidade das concessões. A estabilidade temporária, alertam, deve servir apenas para maquiar o problema no período eleitoral, sem garantia de emprego dos operadores ao fim do prazo. Por isso, declararam estado de greve.
A Trivia Trens venceu o certame das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, além do Expresso Aeroporto, em março de 2025. Teve mais de um ano para se preparar e assumir o comando do sistema em 21 de julho. Durante os três dias da nova administração, os passageiros sofreram diariamente com falhas graves, até culminar na catástrofe do incêndio em um dos vagões da linha 12-Safira. Em 34 anos, algo assim nunca havia acontecido.
Na terça 28, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito civil para investigar as falhas da empresa. A Artesp e a Secretaria de Transportes Metropolitanos também serão alvo de investigação. Em nota, a agência reguladora informou que, no contrato com a Trivia Trens, “a transição operacional está determinada em etapas que, ao não serem plenamente atendidas, garantem segurança jurídica para o retorno da operação conjunta”. Ou seja, a CPTM fica à disposição para socorrer a empresa.
A Artesp determinou que a estatal CPTM reassuma as linhas privatizadas por ao menos 90 dias
Para o deputado estadual Emídio de Souza, do PT, a volta da CPTM “é o melhor sinal de que o governo deveria reverter esse contrato”. O parlamentar indaga: se a empresa não conseguiu se preparar ao longo de um ano, por que agora, em três meses, seria diferente? “A Artesp também se omitiu: deveria estar presente em todo o período de transição”, denuncia.
A Trivia Trens, que pertence à Comporte Participações, da família fundadora da empresa aérea Gol, foi criada para participar desse certame. Herdou 95 trens da frota da CPTM e deverá adquirir apenas 15 novos trens ao longo dos 25 anos de concessão. O conglomerado também detém a Tic Trens, responsável pela operação da Linha 7-Rubi da CPTM e pela futura construção do Trem Intercidades para Campinas. No primeiro semestre deste ano, a Linha 7 registrou 21 falhas. Isso representa um aumento de 600% em relação ao mesmo período do ano passado, quando ainda pertencia à CPTM.
O ex-deputado estadual Simão Pedro, do PT, alerta que todas as concessões nessa área resultaram na piora do serviço. “A Via Mobilidade, por exemplo, não fez os investimentos previstos em contrato e optou por levar multas, porque é mais vantajoso para ela. A partir disso, começou uma série de problemas de operação”, denuncia. A concessionária administra as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda da CPTM e a linha 5-Lilás do Metrô. Além de descarrilamentos constantes, em maio de 2025, um passageiro morreu na Linha 5 ao ficar preso entre as portas do trem e da plataforma. Só após o grave acidente a empresa instalou barreiras de proteção.
Para Simão Pedro, esse histórico demonstra como as privatizações são um “negócio da China” para as empresas privadas: “recebem a estrutura pronta, com investimento do Estado, e cabe a elas apenas obter o lucro das operações”. Ele acrescenta que a concessão do serviço de abastecimento de água e tratamento de esgoto, realizada pela privatizada Sabesp, tem “apresentado resultados muito ruins” em pouco tempo.
A pé. Até o momento, a Trivia só deu uma repaginada no visual dos trens. As falhas obrigaram usuários a caminhar pelos trilhos – Imagem: Redes Sociais e Redes Sociais/Guga Bonfate
De janeiro até agora, foram registrados diversos acidentes. Um deles ocorreu em março, em Mairiporã (SP), quando o rompimento de um reservatório de água causou uma morte, deixou sete feridos e destruiu casas. Em maio, no bairro paulistano do Jaguaré, uma explosão de gás matou um morador e danificou dezenas de imóveis. O ex-parlamentar lamenta que esse seja o resultado “de uma política radical de privatizações que despreza a experiência dos trabalhadores das estatais e tem como único objetivo garantir lucro das empresas em detrimento do interesse público”.
Na noite da sexta 24, os ferroviários fizeram uma assembleia no Sindicato Central do Brasil, que representa os operadores das linhas 11, 12 e 13. A única linha que permanece pública é a 10-Turquesa, cuja entidade representativa é o Sindicato dos Ferroviários de São Paulo. O clima entre os servidores é de revolta, porque eles se sentem usados pelo governo agora, para serem “descartados” depois das eleições. Com a privatização, 491 trabalhadores perderam seus postos de trabalho. Como ingressaram na CPTM por concurso público, não podem ser demitidos. Receberam, porém, proposta de corte de 80% dos salários e suspensão dos contratos.
A assembleia definiu que a prioridade é garantir a manutenção dos empregos por meio da transferência para outras empresas públicas. Caso o governo não aceite, a resposta será a paralisação das atividades nas linhas 11, 12 e 13, a partir de 4 de agosto, por tempo indeterminado. “Greve é a última ferramenta de pressão, mas já estamos há mais de um ano nessa negociação. Parece não haver outra saída”, afirma o diretor do Sindicato Central do Brasil, Ronaldo Domingues Leite. O presidente do Sindicato dos Metroviários e Metroviárias, Dagnaldo Gonçalves Pereira, afirmou que a categoria é solidária à greve dos colegas ferroviários.
Para impedir as demissões, o deputado estadual Guilherme Cortez, do PSOL, protocolou no ano passado um projeto de lei com o objetivo de garantir a transferência interna dos funcionários. A proposta foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa em dezembro e, agora, está em debate na Comissão de Administração Pública. “São trabalhadores concursados, qualificados e prestam um serviço de qualidade. São eles que vão socorrer o transporte público diante das falhas da Trivia Trens. É fundamental garantir esses empregos”, afirma Cortez.
Ferroviários ameaçam deflagrar greve se não houver garantia de emprego após eles socorrerem o sistema
O presidente do Sindicato dos Engenheiros, Murilo Pinheiro, explica que o trabalho dos funcionários dos trens e do metrô é extremamente específico e que a experiência acumulada ao longo dos anos é o maior patrimônio dessas empresas. Por isso, a transferência para o setor privado sempre será arriscada, uma vez que os salários são menores, os funcionários têm menos tempo de experiência e a rotatividade é alta. “Antes da privatização, a empresa operava perfeitamente. Essa sequência de falhas só aconteceu por falta de qualificação técnica.”
Engenheiro aposentado do Metrô, Julio Carlos Morandi concluiu recentemente uma tese de doutorado em Administração de Empresas na Universidade da Beira Interior, em Portugal, na qual estudou os sistemas de transporte sobre trilhos do mundo todo e chegou à conclusão de que o modelo público é o único viável. O especialista identificou 186 empresas ferroviárias e obteve dados de 68 delas para uma análise aprofundada.
“Em 89% dos casos, as empresas são estatais ou operadas em modelos de negócios mistos, nos quais o Estado detém mais de 85% da sociedade”, observa Morandi. Segundo ele, o maior patrimônio desses sistemas é o capital intelectual. “Nenhuma empresa privada tem condições de manter um corpo técnico tão qualificado porque a receita das tarifas não é capaz de gerar lucros tão significativos para reter esse pessoal”, explica.
Em nota, a Trivia Trens afirmou que as causas do incêndio “seguem sob apuração técnica com total profundidade e transparência, e a concessionária colabora de forma irrestrita com a perícia e com as autoridades competentes para esclarecimento dos fatos”. Procurada pela reportagem para saber se há possibilidade de cancelamento do contrato, a Secretaria de Parcerias e Investimentos do Estado não respondeu. •
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Brincando com fogo’
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