Cultura
No esconderijo do algoritmo
Um estudo se debruça sobre a presença de obras brasileiras no Top 10 para mostrar por que a regulação importa
O governo Lula se aproxima do fim sem que a principal demanda do setor audiovisual, a regulação dos serviços de streaming, tenha sido atendida. Embora, em 2025, dois Projetos de Lei (PLs) sobre o tema tenham avançado no Congresso Nacional, a lei não saiu.
Entre os princípios do aguardado marco regulatório para o vídeo por demanda estão a cobrança de um tributo já recolhido por outros agentes do setor e exigências relativas à presença de conteúdo brasileiro nas plataformas.
Além de prever um mínimo de obras de produção independente brasileira nos catálogos, os PLs estabelecem o princípio da proeminência, que obriga as plataformas a deixar as obras visíveis, protegendo-as do que os produtores chamam de “esconderijo algorítmico”.
Um estudo publicado na segunda-feira 27, O que o Brasil Assiste: Análise Tomun do Mercado Audiovisual 2023-2024, nos ajuda a espiar esse esconderijo. Realizado por duas empresas privadas, com recursos da Lei Paulo Gustavo, o estudo mistura temas e metodologias, às vezes de forma inconsistente, mas traz insights sobre a relação da produção brasileira com o público.
A análise se apoia no Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda, documento que, desde 2023, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) lança anualmente. Como as plataformas ainda não foram enquadradas em uma legislação específica, seus dados não são públicos. Por isso, a agência contrata um serviço privado para o monitoramento.
O último Panorama abarcou 106 plataformas que, juntas, ofertam 138 mil títulos. Dentre eles, apenas 5,3% são brasileiros. Quando se fecha o foco sobre as empresas estrangeiras, o porcentual encolhe: a Disney+ oferta 1,3% de obras brasileiras; a HBO Max, 2%; a Netflix, 2,8%; e a Amazon Prime, 3,1%.
Que informação a O que o Brasil Assiste acrescenta ao levantamento da Ancine? Que essas obras, além de tudo, são pouco vistas. Durante dois anos, os autores do estudo analisaram diariamente os rankings públicos do Top 10 de Amazon Prime Video, Apple TV+, Disney+, Globoplay, HBO Max, Netflix e Paramount+.
Eles mediram a visibilidade a partir de uma pontuação que leva em conta a classificação no Top 10 e o tempo de presença na lista. Excluindo-se o Globoplay – onde o Top 10 é majoritariamente brasileiro –, a presença de obras nacionais nos rankings foi de 6% em 2023 e 4,9% em 2024.
O número de títulos que alcança uma grande audiência nas plataformas só tem diminuído
Em 2023, 91 dos 1.549 longas-metragens que passaram pelo Top 10 eram brasileiros; em 2024, foram 48 em um total de 1.183. Ou seja, houve, de forma geral, uma diminuição de 23,6% no número de títulos que chegam ao ranking; e, no caso dos filmes brasileiros, a queda foi de 47,2%.
A despeito de ofertar muita coisa, o streaming tem uma audiência concentrada em cada vez menos títulos – como acontece nas salas de cinema. Lê-se, na análise, que, nesse contexto, “o conteúdo cuja presença já é minoritária tende a ser penalizado com maior intensidade”.
Cabe observar que os resultados são afetados por reconfigurações do próprio mercado. Uma delas foi a retirada de produções brasileiras do catálogo da Paramount+, algo relacionado a um movimento internacional da empresa.
Outro levantamento diz respeito ao gênero, que os autores definiram a partir de critérios próprios. Se, na sala de cinema, a aventura responde por 69,4% dos ingressos vendidos, no Top 10 do streaming ela responde por 38,4%. No streaming, quem cresce é o suspense: 33,8% dos pontos contra 21,8% da bilheteria.
Cruzando esses números com os da Ancine, os autores afirmam: os gêneros que vão melhor em cada janela são, justamente, aqueles nos quais a produção brasileira é escassa.
O estudo chama a atenção ainda para o terror que, embora bastante procurado, não é tão dependente de marcas prévias para fazer sucesso. Os autores defendem que, por escapar da lógica das franquias, o gênero poderia ser mais explorado pelo cinema brasileiro – onde o drama domina.
A comédia, como era de se esperar, se mostrou, entre os brasileiros, predominante no Top 10. Coube, porém, a dois true crimes da Prime Video, A Menina que Matou os Pais: a Confissão e Maníaco do Parque, a maior pontuação tanto em 2023 quanto em 2024. No esconderijo, no fim, não há tanta surpresa assim. •
Nova queda, e um platô
O mercado se estabiliza em patamar inferior àquele do período anterior à pandemia
O relatório mais recente da Ancine mostra que, depois de quatro anos de crescimento, as vendas de ingressos voltaram a cair. O Agente Secreto foi o único brasileiro a ultrapassar 1 milhão – Imagem: CinemaScópio
Em seu relatório anual, publicado em junho, a Ancine mostrou que, depois de quatro anos seguidos de crescimento, o mercado de salas de cinema caiu em 2025. Na renda, a retração foi de 11,4%. A partir desse dado, a agência constata que, a exemplo do que tem acontecido em outros países, o mercado brasileiro parece ter se estabilizado em um novo patamar – mais baixo que o do período pré-pandêmico.
A média da frequência geral nos cinemas, nos últimos três anos, corresponde a cerca de 70% do que foi no período entre 2017 e 2019.
De 2024 para 2025, também o público dos filmes brasileiros caiu – indo de 12,6 milhões para 11,1 milhões de espectadores. O único título lançado em 2025 a superar a marca de 1 milhão de espectadores foi O Agente Secreto.
Um dado curioso é que foram exibidos, nas salas de cinema, 1.010 filmes de longa-metragem – dos quais 431 lançamentos. É um pouco como se o mercado exibidor tentasse oferecer um catálogo mais vasto, espelhando o streaming. Em ambos os lugares, muito se oferta, mas pouco do que se oferta é visto.
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘No esconderijo do algoritmo’
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