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A pintura como divã

O Mundo de Ponta-Cabeça evoca os mestres holandeses para falar sobre o significado da arte e o poder da beleza

A pintura como divã
A pintura como divã
Luz e sombra. À esquerda, visitantes olham A Ronda Noturna, de Rembrandt, que ficou abrigado em uma caverna, a 33 metros abaixo do solo, durante a ocupação nazista. No quadro Aula de Anatomia do Dr. Deyman o pintor retrata a dissecação do cadáver de um homem executado por invadir uma loja de tecidos – Imagem: Acervo/Rijksmuseum
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Em julho de 1945, apenas dois meses após o fim da ocupação alemã na Holanda nos estertores da Segunda Guerra Mundial, 175 pinturas de mestres holandeses do século XVII, que haviam passado os anos do conflito protegidas em bunkers, foram apresentadas em uma grande exposição no Rijksmuseum­, o museu nacional de arte da Holanda, em Amsterdam.

Quadros de Rembrandt, Vermeer, Frans Hals, Fabritius e Eckhout saíram de esconderijos fortificados direto para a exposição, que ficou conhecida como Reunião de Mestres.

O quadro A Ronda Noturna, de Rembrandt­, por exemplo, de 3,63 metros de altura por 4,37 metros de largura, ficou abrigado em uma caverna dentro de uma pedreira em Maastricht, no sul da Holanda, a 33 metros abaixo do solo.

O expediente é bastante revelador da devoção, do comprometimento dos holandeses com as obras-primas de seus pintores clássicos e do temor de que a fúria nazista destruísse parte da cultura do país.

Foram esses grandes artistas holandeses – cujas obras reunidas levaram 165 mil pessoas ao museu em um momento em que a Holanda não tinha sequer comida suficiente para toda a população – que inspiraram o escritor Benjamim­ Moser a construir a narrativa de O Mundo de Ponta-Cabeça, misto de história cultural e autobiografia.

Recém-chegado à Holanda em 2002, o norte-americano Moser, que morava em Nova York, mergulhou na arte dos mestres holandeses para tentar compreender o país diante de um sentimento muito seu: o de não pertencimento. O próprio título do livro remete a essa sensação de, ao abraçar uma cultura estranha, ver seu mundo “de ponta-cabeça”.

Estranho no ninho. O norte-americano Moser mistura história cultural e autobiografia – Imagem: Rob Hubers

O que Moser nos conta é que em um momento de “incertezas na vida em uma nova terra”, visitar os mestres nos museus lhe trouxe conforto. A partir dessa constatação, ele empreende uma reflexão sobre o significado da arte e do poder da beleza diante do que ele considera ter sido um dos momentos mais esplendorosos da história da arte e da humanidade.

A “Era de Ouro” nas artes holandesas não nasceu por acaso. Ela aconteceu em um momento em que o país vivia um período de riqueza e prosperidade comercial, tolerância religiosa, maior independência política, maior liberdade para as mulheres e consolidação de uma classe média sedenta por conhecimento e arte. Todo esse ambiente era propício para a apreciação da arte e da beleza.

Mais conhecido no Brasil por Clarice, uma Biografia, sobre Clarice Lispector, Moser ganhou o Prêmio Pulitzer de biografia com Sontag: Sua Vida e Obra.

Agora, com a mesma escrita sensível do livro sobre a escritora brasileira, ele conecta as próprias experiências como escritor às descobertas que fez ao mergulhar na vida e na obra dos mestres holandeses. Como indica o subtítulo – Encontro com Mestres Holandeses –, O Mundo de Ponta-Cabeça é mais um ensaio pessoal do que um trabalho histórico.

Tal característica fez, inclusive, com que alguns críticos torcessem o nariz para o livro, apontando descrições vagas e lacunas históricas. Acontece que Moser, claramente, não pretendeu fazer uma enciclopédia didática, e sim uma reflexão sobre arte, beleza e pertencimento.

O autor começa sua história por ­Rembrandt que, ao trocar temas sublimes, religiosos e clássicos por outros, humanos e mais sombrios e corriqueiros, personificava, de acordo com sua interpretação, a “inversão holandesa” – outra referência ao mundo de ponta-cabeça.

O Mundo de Ponta-Cabeça. Benjamim Moser. Tradução: Denise Bottmann. Companhia das Letras (384 págs., 129,90 reais)

Para o escritor, nenhum outro pintor da “Era de Ouro” executou tantas cenas de assassinatos, crueldades, torturas, estupros, traições, maldições e mortes como Rembrandt. Ou seja, ele encarou as fragilidades humanas sem ilusões.

Desde sua primeira pintura assinada, O Apedrejamento de Santo Estêvão, de 1625, aos 19 anos, Rembrandt retratava a crueldade. Nesse quadro, a cena mostrada é a de uma multidão apedrejando o primeiro mártir cristão.

Alguns anos depois, ele pintaria A Aula de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, em que retrata o cadáver de Aris Kindt, condenado e executado por roubo à mão armada, cercado por oito homens – possivelmente médicos – que observam com curiosidade e espanto a dissecação do morto.

Rembrandt voltaria ao tema 24 anos depois, em Aula de Anatomia do Dr. Deyman, que retrata a dissecação do cadáver de um homem executado por invadir uma loja de tecidos. Para Moser, os pés enegrecidos do cadáver parecem pular para fora do quadro e exalar um cheiro pútrido.

Os quadros de Rembrandt são, em sua maioria, escuros, cheios de sombras, algo que leva Moser a afirmar que a visão de mundo de Rembrandt é uma eterna luta entre luz e sombra, entre o bem e o mal, onde apenas ocasionalmente o bem triunfa.

Ecos. Vista de Delft, de Vermeer, é reverenciado no livro Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. O Pintassilgo, de Fabritius, um pintor menos conhecido, está no centro da narrativa do livro homônimo de Donna Tartt – Imagem: Johannes Vermeer/Museu de Mauritshuis e Arquivo Banco Mundial

Mesmo em seus autorretratos – são cerca de 80, cobrindo desde sua adolescência até a velhice – há um certo espectro fantasmagórico, avalia Moser. Ele pondera, no entanto, que nem tudo pode ser visto por um prisma negativo: “A luz não pode existir sem a escuridão, nem a virtude sem o pecado”.

Se Rembrandt está envolto na escuridão, Johannes Vermeer abraça a luz. Para Moser, a luz nos quadros de Vermeer é o que organiza o mundo, dá forma ao silêncio e cria uma ética de observação. A luz não é apenas técnica, é filosófica, diz ele, que acredita que Vermeer pinta o que está diante de nós, mas que raramente vemos.

Alguns exemplos disso são um grupo de mulheres lendo cartas, o geógrafo manejando seu compasso ou a mulher pesando pérolas. Todos esses personagens aparecem confinados a um pequeno cômodo iluminado pela luz que atravessa uma grande janela.

Moser nota que, em Vermeer, a ação é mínima ou inexistente e os quadros são uma meditação sobre interioridade, sobre a segurança e o silêncio do ambiente doméstico.

Morto aos 43 anos, Vermeer deixou 35 telas, entre elas a célebre Moça com Brinco de Pérola e Vista de Delft, tela que retrata a cidade natal do pintor. Essa obra de dimensões reduzidas foi considerada pelo escritor francês Marcel Proust como a melhor pintura do mundo.

Ao pintar o Brasil, durante a dominação holandesa no Nordeste, Eckhout usou sua arte como instrumento de poder

Em seu romance Em Busca do Tempo Perdido, o personagem Bergotte vai ver a Vista de Delft, o quadro “mais vibrante e mais diferente de tudo o que conhecia”, em uma exposição. E morre diante de tanta beleza.

Moser também se dedica a pintores menos conhecidos, como Carel Fabritius, uma grande promessa que não se concretizou. Morreu aos 32 anos em uma explosão do paiol de pólvora em Delft, onde foi morar depois do segundo casamento.

Embora tenha sido aluno de ­Rembrandt, seu uso da luz, no entendimento de Moser, ia em direção a ­Vermeer. Por isso, o autor o define como o elo perdido entre Rembrandt (16 anos mais velho) e Vermeer (dez anos mais novo).

Entre suas poucas obras conhecidas, está O Pintassilgo, que retrata o pássaro acorrentado que, para Moser, é uma metáfora da própria vida do artista: beleza presa, potencial contido, destino cruel. “Qualquer descrição dessa pintura sempre será insuficiente”, escreve.

Esse quadro, séculos depois, serviria de inspiração para a escritora ­Donna Tartt­, num livro homônimo, O ­Pintassilgo, que ganhou o Pulitzer em 2014.

Ritual indígena. A Dança dos Tapuias, de Eckhout, ilustrou muitos livros de história do Brasil – Imagem: Albert Eckhout/Museu Nacional da Dinamarca

Para os brasileiros, o capítulo sobre Albert Eckhout joga luz sobre a presença dos artistas durante a dominação holandesa no Nordeste. De qualidade quase antropológica, Eckhout acompanhou Maurício de Nassau e retratou a fauna, a flora e as pessoas locais, em uma mistura de curiosidade científica e exotismo colonial.

Durante muitos anos, A Dança dos Tapuias, em que Eckhout retrata um ritual­ indígena, ilustrou livros de história do Brasil. Para Moser, Eckhout é o pintor que tenta compreender, em suas pinturas, um país que não é o seu, usando sua arte como exercícios de tradução cultural e, ao mesmo tempo, como instrumentos de poder.

Ao longo da obra, Moser retrata 18 pintores que o ajudaram a compreender que a vida é feita de contradições, imperfeições e escolhas difíceis. Olhar profundamente para essas obras, parece nos dizer ele, pode nos ajudar a entender como viver, como criar e como nos situarmos em um mundo que, muitas vezes, parece “de ponta-cabeça”. •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A pintura como divã’

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