Cultura
O que pode uma menina?
Rodado em Guaribas, cidade-piloto do Bolsa Família, e protagonizado por crianças, A Fabulosa Máquina do Tempo é um registro da ampliação do direito de sonhar
O principal acerto de A Fabulosa Máquina do Tempo talvez seja sua entrega ao brincar. E, por consequência, ao sonhar.
“Quando a gente sonha, dá pra voltar no tempo (…) Dá pra brincar com quem cresceu e não brinca mais”, diz uma das meninas que protagonizam o documentário rodado em Guaribas, no sertão piauiense.
A diretora do filme, Eliza Capai, chegou à cidade em 2013 movida por um livro sobre o Bolsa Família que despertou nela o desejo de entender de que forma o auxílio vinha mudando as relações de gênero nas pequenas cidades. Uma bolsa da Agência Pública possibilitou sua viagem à cidade-piloto do programa.
De lá para cá, Eliza, que é formada em jornalismo, consolidou sua carreira no cinema, tendo dirigido documentários como Espero Tua (Re)volta (2019) e Incompatível com a Vida (2023), além da série Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime (2021), da Netflix.
Foi com o olhar de cineasta mais treinado que, em 2021, ela voltou a Guaribas. Em entrevistas, Eliza tem dito que, ao reencontrar a cidade e seus habitantes, se sentiu como quem entra numa máquina do tempo. As mulheres que conhecera em 2013 tinham agora filhas. E essas filhas não eram o que as mães foram um dia.
São essas meninas que, por meio de brincadeiras, conversas e encenações, assumem a condução do filme.
Com elas, as regras de gênero que um dia regeram o cotidiano – “o menino vai beber cachaça e a menina fica em casa organizando as coisas” – viram coisa sem pé nem cabeça. E as possibilidades de futuro são tantas quantas as que a caixa d’água transformada em máquina do tempo pode forjar.
Elas podem ser cineastas, médicas, esposas. No filme, brincam de ser tudo isso. São significativos os momentos em que as meninas entrevistam as mães. Nessas sequências, quem surge inibido é o adulto.
Exibido na abertura da Mostra Generation Kplus da Berlinale, no início do ano, e selecionado para o É Tudo Verdade, A Fabulosa Máquina do Tempo chegou às salas de cinema na quinta-feira carregado de prêmios recebidos em festivais dentro e fora do Brasil.
O filme é a terceira parceria de Eliza com Mariana Genescá, produtora voltada aos documentários de impacto social. São projetos que, mais do que o circuito tradicional de salas, miram a circulação por outros ambientes e buscam, sobretudo, estimular o debate, reflexão e, quem sabe, ampliar o horizonte dos sonhos. •
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O que pode uma menina?’
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