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Pela Curva do S

Trinta anos depois, perguntas sem resposta ainda circundam o massacre de Eldorado do Carajás

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Memória. Caixões dos sem-terra mortos pela polícia em Marabá em abril de 1996. A escola Oziel Alves Pereira leva o nome de uma liderança do MST assassinada – Imagem: Fernando Marinho/Repórter Brasul e José Roberto Ripper/Imagens Humanas
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Pouco mais de duas semanas após o massacre de Eldorado do Carajás, em 17 de abril de 1996, um gerente de fazenda desembarcou em Brasília sob proteção da Polícia Federal. Dizia carregar uma informação que, se confirmada, mudaria o rumo da investigação. Tratava-se de Ricardo Marcondes de Oliveira, então com 30 anos. Em depoimentos à PF, ao Ministério Público e à Justiça, ele relatou a organização de proprietários rurais da região para arrecadar dinheiro destinado a financiar a operação policial que, há três décadas, terminou com 19 trabalhadores sem-terra mortos na Curva do S, na Rodovia PA-150, no sudeste do Pará. Outros dois morreram posteriormente, em decorrência dos ferimentos.

O plano teria surgido poucos dias antes do massacre. O valor giraria em torno de 85 mil reais, cerca de meio milhão em valores atualizados, e seria repassado ao comando do 4º Batalhão da Polícia Militar. Segundo Oliveira, “dez integrantes do MST deveriam morrer” durante a operação. O relato foi anexado aos autos, mas acabou descartado. Essa “vaquinha” é uma das pontas soltas do Massacre de Eldorado do Carajás, ainda cercado de perguntas três décadas depois. A ­Repórter Brasil­ ouviu personagens ligados à chacina e analisou milhares de páginas dos autos judiciais do caso. Além do rateio, permanecem sem resposta o telefonema de um suposto funcionário da então estatal Vale para a empresa responsável por transportar parte da tropa e as pressões de fazendeiros antes da operação.

Em dissertação defendida em 2016 na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, o advogado José Batista, da Comissão Pastoral da Terra, contextualiza o massacre como parte de uma mudança na dinâmica dos conflitos fundiários no Pará. As ocupações passaram a mobilizar grandes acampamentos em áreas pressionadas pela expansão da mineração e pela valorização das terras no entorno de Carajás. Em uma região marcada pela Guerrilha do Araguaia e pela repressão militar no campo, essas ocupações passaram a ser tratadas como uma ameaça política.

Os autos do processo têm lacunas sobre o financiamento da operação, a logística policial e a pressão dos fazendeiros da região

Semanas antes do massacre, Oliveira havia assumido a administração da Fazenda São Carlos, em Xinguara (PA), área marcada por conflitos por terra e atuação de pistoleiros. Segundo seu relato, ele foi procurado pelo proprietário da Fazenda Macaxeira para participar da “vaquinha” destinada a encerrar o bloqueio do MST na PA-150. O gerente afirmou ter recusado a proposta.

As famílias acampadas reivindicavam a desapropriação da área havia meses e marchavam em direção a Belém para pressionar o governo estadual e o Incra, órgão federal responsável pelo assentamento de famílias sem-terra. A denúncia teve repercussão imediata. Em 4 de maio de 1996, a Folha de S.Paulo noticiou que a Polícia Federal já reunia os nomes de cerca de 20 fazendeiros suspeitos de participar da arrecadação. O relato também levou o ministro extraordinário de Política Fundiária, Raul Jungmann, a suspender a compra da Fazenda Macaxeira pelo Incra.

O coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira Oliveira foram condenados por homicídio pela condução da operação policial. Os dois comandavam as tropas responsáveis pelo avanço sobre os trabalhadores na PA-150. Nenhum dos outros 153 policiais presentes na ação foi sentenciado. A denúncia sobre outros possíveis envolvidos nunca foi comprovada nos autos.

Após a tragédia. O assentamento 17 de Abril abriga sobreviventes do massacre. E o lago hoje usado para lazer onde foi detectada contaminação por chumbo – Imagem: Fernando Marinho/Repórter Brasil

Após denunciar a “vaquinha” dos fazendeiros, Oliveira relatou ameaças feitas por um homem armado. Dias depois, já em Marabá, disse ter visto o mesmo homem ao lado de outro indivíduo, tido como um pistoleiro ligado a proprietários de terra da região e vestido com farda­ da Polícia Militar no dia do massacre.

A versão entrou nos autos do processo judicial. O gerente foi ouvido em Brasília, Belém e no sudeste do Pará. Em acareação formal, o proprietário da Fazenda Macaxeira, apontado por Oliveira como autor da sugestão de uma ação conjunta para desobstruir a rodovia, negou integralmente as acusações e qualquer proposta de arrecadação. Oliveira manteve sua versão. Para a Folha de S. Paulo, em novembro de 1996, o proprietário da Fazenda Macaxeira afirmou ter sido vítima de um “massacre moral”. Procurado pela Repórter Brasil, não respondeu.

Ao cabo, a investigação se voltou contra o denunciante. A Polícia Civil apontou contradições em seus relatos, inclusive sobre o período em que trabalhou na região, e reuniu informações sobre processos por estelionato, sequestro e cárcere privado aos quais ele respondia em Goiás. Antes da conclusão das investigações, Oliveira fugiu do programa de proteção da PF.

Após denunciar um rateio entre fazendeiros para custear a operação policial, o gerente de fazenda sofreu ameaças e acabou indiciado por falso testemunho

A denúncia teve ampla repercussão, incluindo uma exaustiva investigação do Correio Braziliense, primeiro veículo a entrevistar o denunciante. Posteriormente, o episódio voltou a ser citado em outros trabalhos, entre eles a dissertação do advogado José Batista, da CPT, e o livro-reportagem O Massacre: Eldorado do Carajás – Uma História de Impunidade (Ed. Record, 2019), de Eric Nepomuceno.

Sem provas materiais que confirmassem a denúncia, a Polícia Civil indiciou Oliveira por falso testemunho. O Ministério Público solicitou novas diligências. Trinta anos depois, a apuração sobre a “vaquinha” segue sem um desfecho conclusivo: nem a acusação foi comprovada, nem os cerca de 20 nomes reunidos pela Polícia Federal resultaram em qualquer indiciamento. Procurado repetidas vezes por meio de contatos de uma empresa a ele vinculada, Oliveira não respondeu aos pedidos de entrevista até a publicação desta reportagem.

Na manhã de 17 de abril de 1996, parte da tropa da Polícia Militar enviada à Curva do S embarcou em ônibus da Transbrasiliana, empresa responsável pelo transporte rodoviário na região. O uso de veículos civis para o deslocamento de policiais não era incomum. Um episódio ocorrido na véspera do massacre, no entanto, chamou a atenção dos investigadores.

Personagens. Gouveia, Oliveira e Moreira, parte de uma história inconclusa – Imagem: Fernando Marinho/Repórter Brasil

Em depoimento prestado em 23 de abril daquele ano, o gerente da Transbrasiliana, Gumercindo José Marra de Castro, relatou ter recebido, na véspera do massacre, um telefonema de um homem que se apresentou como funcionário da então estatal Companhia Vale do Rio Doce. Identificado apenas como “James”, o interlocutor teria solicitado dois ônibus para o 4º Batalhão da PM, em Marabá.

De acordo com o relato, os veículos chegaram a ser mobilizados, mas retornaram à garagem da empresa sem serem utilizados. No dia seguinte, já com a operação em andamento, a Polícia Militar requisitou formalmente dois ônibus da mesma empresa. Os veículos foram usados para transportar a tropa até a Curva do S, e o pagamento pelo serviço, segundo documentos do processo, foi feito pela corporação. James, o suposto funcionário da Vale, nunca foi identificado. Nos autos, não há registro de diligências para apurar a autoria do telefonema. Procurado em Marabá, Castro respondeu, por mensagem, que já havia dito tudo em seu depoimento oficial e que, em razão de problemas de saúde, não se recordava de outros detalhes.

A dúvida também aparece nos depoimentos do tenente-coronel Manoel Mendes de Melo, então subcomandante do 4º Batalhão. Ouvido pela Polícia Civil poucos dias após o massacre, ele atribuiu a cessão dos ônibus à Vale. Dias depois, em novo depoimento, voltou a mencionar o transporte, mas sem especificar quem o havia fornecido. Mais de um ano depois, já na fase judicial do processo, apresentou outro relato: disse não saber quem havia disponibilizado os veículos e afirmou que o pagamento fora feito pela própria Polícia Militar, com base em informação que, segundo ele, recebera posteriormente do coronel Mário Colares Pantoja. Como justificativa para as versões divergentes, afirmou que a Vale disponibilizava com frequência veículos para o transporte de tropas na região.

Outra dúvida nos autos do processo é se a Vale cedeu ou não ônibus para as tropas da PM

Questionado em juízo, Castro também mencionou essa prática. Segundo ele, a estatal costumava requisitar veículos da Transbrasiliana para o transporte de policiais. Como exemplo, citou a operação Serra Leste, na qual mais de 60 ônibus teriam sido colocados à disposição da Polícia Militar.

A Vale afirmou à reportagem que “não teve qualquer relação com o chamado ‘Massacre de Eldorado do Carajás’”. A empresa foi citada no inquérito, mas não chegou a ser indiciada. Procurada novamente para responder a perguntas específicas sobre o telefonema de “James”, a origem dos ônibus, os convênios com a PM e os conflitos anteriores com o MST, optou por não se manifestar.

A Serra Leste fica ao lado de Serra Pelada, a mítica jazida de ouro explorada durante a ditadura, a cerca de 50 quilômetros da Curva do S. Em 1996, quatro anos após o fim oficial do garimpo, trabalhadores ainda reivindicavam direitos sobre as áreas exploradas, enquanto a Vale avançava com projetos minerais na região. Trinta anos depois, a antiga cava deu lugar a um lago usado para passeios de jet-ski. Na vila, ex-garimpeiros passam as tardes relembrando a corrida do ouro. O fim da atividade deixou milhares de homens sem trabalho fixo e sem outra profissão.

Para não esquecer. No assentamento 17 de Abril, as paredes mantêm vivas as lembranças da chacina na Curva do S – Imagem: Fernando Marinho/Repórter Brasil

Em 1983, o repórter Ricardo Kotscho encontrou em Serra Pelada uma cratera aberta por milhares de homens trabalhando manualmente dentro da lama. Viu filas de carregadores subindo encostas escorregadias com sacos de cascalho nas costas. Conhecidos como “formigas”, os diaristas transportavam cerca de 30 quilos por vez entre o fundo da cava e os depósitos de rejeito, por uma escada imensa apelidada de “Adeus, mamãe”. A reportagem, publicada pela Folha de S.Paulo, mais tarde deu origem ao livro Serra Pelada – Uma Ferida Aberta na Selva (Ed. Brasiliense, 1984). No garimpo, conviviam donos de barranco, intermediários, comerciantes, policiais, agentes federais e milhares de homens submetidos a um trabalho braçal extremo.

No texto, Kotscho também registrou a disputa política em torno da cava. De um lado, estava a Docegeo, subsidiária da Vale­, que detinha os direitos sobre a jazida. De outro, o governo federal, que via o garimpo como uma forma de absorver parte da tensão social no sul do Pará, região marcada por conflitos fundiários, migração desordenada e forte presença militar. Quando o Estado passou a intervir diretamente no garimpo, a PF cercou a área, órgãos federais começaram a operar dentro da cava e o major Sebastião Curió assumiu o controle político do local. “Nada se resolvia sem sua palavra”, escreveu Kotscho. Antes de comandar Serra Pelada, Curió havia atuado na repressão à Guerrilha do Araguaia como agente do Centro de Informações do Exército. A operação militar terminou com desaparecimentos, execuções e ocultação de corpos de guerrilheiros e camponeses no sul do Pará.

Treze anos depois, quando trabalhadores sem-terra bloquearam a PA-150 na Curva do S, Serra Pelada já não representava a promessa de enriquecimento rápido, mas ainda reunia milhares de homens sem trabalho fixo. Ao lado do antigo garimpo, a Vale avançava com projetos de exploração em Serra Leste. Luiz Lima de Oliveira, ex-garimpeiro de Serra Pelada e atual dirigente do MST na região, atribui ao fim da atividade o ingresso de parte dos trabalhadores na luta pela terra. “Quando o garimpo acabou, ficou uma multidão de gente sem rumo. Nós tínhamos passado a vida ali dentro, sem estudo, sem outra profissão”, lembra. Ele ingressou no MST em 1995, em meio às disputas por áreas que também sofriam a pressão da expansão mineral.

Diego Diehl, professor e pesquisador da UnB, propõe uma “comissão da verdade” para investigar o massacre

“A terra virou o grande ativo econômico da região”, observa Pablo Neri, dirigente estadual do MST. Filho de militantes que participaram da marcha de 1996, ele cresceu em Palmares 2, assentamento na região de Carajás. “Quem luta por terra aqui acaba entrando em conflito com a mineração”, diz. Na avaliação de Batista, da CPT, a disputa fundiária não se explicava apenas pela concentração de terras. A implantação dos projetos minerais da Vale valorizou as áreas no entorno das minas e atraiu fazendeiros e investidores interessados na especulação imobiliária.

Em fevereiro de 1996, garimpeiros impediram a entrada de funcionários da Vale em uma área onde a empresa teria identificado uma nova jazida. Uma semana após o massacre, cerca de mil garimpeiros ocuparam o local de pesquisa mineral, paralisaram sondas e bloquearam as atividades. Em outubro, uma operação da PF e do Exército abriu caminho para a retomada dos trabalhos da empresa. “A polícia sempre agia como se fossem funcionários da empresa, para defender os interesses da mineradora de forma intransigente”, afirma Batista, em entrevista à Repórter Brasil. Segundo ele, as ações do MST passaram a ser tratadas prioritariamente como caso de polícia, e não como expressão de um conflito agrário.

Documentos do próprio inquérito registram conflitos anteriores. Em junho de 1994, cerca de 2 mil famílias do MST ocuparam parte da concessão da Vale na Serra dos Carajás para pressionar pela destinação de terras a assentamentos. Três dias depois, mais de 50 policiais, com apoio da segurança patrimonial da empresa, realizaram a retirada dos ocupantes. Meses mais tarde, outra ação policial contra trabalhadores na região terminou com agressões e detenções. Segundo representação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, a mineradora mantinha convênio com a Polícia Militar do Pará e custeava parte das despesas do destacamento de Parauapebas. Entre 1995 e 1996, a empresa repassou cerca de 641 mil dólares à unidade policial que atuava na região de Carajás.

Nos dias anteriores ao massacre, a ­PA-150 permaneceu bloqueada por militantes do MST durante quase duas semanas. A interdição ocorria na Curva do S, trecho estratégico para o escoamento da produção no sudeste do Pará. Produtores rurais, comerciantes e empresários pressionavam o governo por uma solução rápida. Em pesquisa baseada em documentos do período, Batista descreve reuniões de fazendeiros e debates sobre estratégias para enfrentar o movimento.

Em 14 de março de 1996, cerca de 50 fazendeiros da região assinaram a Carta de Marabá. O documento criticava a postura do governo diante dos trabalhadores acampados e cobrava uma intervenção para retirar o MST das áreas ocupadas. No mesmo dia, o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Pará anunciou a ida de representantes dos fazendeiros a Belém para exigir uma resposta mais enérgica. A reunião com o então governador Almir Gabriel (PSDB) ocorreu no fim de março. Segundo a pesquisa de Batista, os pecuaristas ameaçaram pegar em armas caso o Estado não contivesse as ações do MST. Após o encontro com os ruralistas, o governo interrompeu os canais de negociação com os sem-terra.

Dentro da PM, um ambiente de repressão planejada também tomava forma. Em março de 1996, o serviço reservado da corporação produziu um relatório. O documento descrevia a situação como de “iminência de guerra civil”, defendia o uso de “táticas militares” e considerava insuficientes os procedimentos policiais de rotina em eventuais enfrentamentos. Outro relatório do serviço reservado, revelado pelo Jornal do Brasil após o massacre, apontava três trabalhadores sem-terra como responsáveis pela morte de um capitão: Oziel Alves Pereira, Raimundo Lopes Pereira e Manuel Gomes de Souza. Os três estão entre os 19 mortos na Curva do S. Sob pressão da imprensa, a PM também admitiu a presença de dois policiais infiltrados no movimento entre os detidos levados da estrada para o quartel.

Na véspera do massacre, representantes do MST conversaram com autoridades sobre a possibilidade de levar os trabalhadores até Marabá. A proposta incluía ônibus, alimentação e uma mesa de negociação com o governo. Segundo Batista, após a manutenção do bloqueio, a interlocução com o movimento foi encerrada. A ordem passou a ser a desobstrução da rodovia “a qualquer custo”, expressão atribuída ao coronel Pantoja na ação penal.

Antes de seguir para a Curva do S, Pantoja descartou qualquer meio pacífico de dissuasão. De acordo com os autos, ele orientou o major Oliveira a avançar ao ouvir os primeiros tiros “do lado de Marabá”: os disparos seriam o sinal combinado para o início da operação. Na tropa de Parauapebas, o arsenal foi distribuído sem o registro de cautela necessário para vincular cada projétil à arma e ao policial responsável. A falha impediu a identificação individual dos autores dos disparos. A PM foi procurada para comentar a logística, a presença de agentes infiltrados e o planejamento da operação, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Para Diego Diehl, professor da UnB e pesquisador sobre a memória dos massacres no campo, o caso estabeleceu responsabilidades individuais, mas não reconstruiu completamente o episódio. “O caso do Massacre de Eldorado do Carajás precisa de uma comissão da verdade”, afirma. A proposta seria revisar documentos, ouvir novamente testemunhas e reunir informações dispersas pelas investigações.

A Curva do S continua sendo um lugar de passagem. O trecho da PA-150 fica a cerca de 100 quilômetros de Marabá, nas proximidades de Eldorado do Carajás. Caminhões cruzam a estrada esburacada o tempo todo. À margem da rodovia, um grande posto de combustível funciona dia e noite. No meio da tarde, o restaurante é quente, tomado por moscas e música alta.

Às vésperas dos 30 anos do massacre de Eldorado do Carajás, jovens do MST montavam um acampamento ao lado da estrada, pintavam um muro e organizavam atividades culturais enquanto aguardavam uma marcha até a Curva do S. Uma pequena construção vermelha abriga o memorial. Nas paredes, fotografias de Sebastião Salgado dividem espaço com bandeiras e homenagens aos mortos.

Na manhã de 17 de abril de 1996, a polícia chegou pelos dois lados da estrada. Primeiro, lançou bombas de gás e disparou balas de borracha. Depois, vieram os tiros com munição real. “Aí apareceu sangue”, diz Haroldo de Jesus Oliveira, então com 17 anos. Quando os disparos começaram, muitos trabalhadores tentaram se proteger na mata.

Raimundo dos Santos Gouveia também correu. Ao recordar a fuga, descreve a tentativa de proteger a família. “Agarrei um dos meus filhos, minha mulher, o outro, e nós caímos pro mato”, diz. De dentro da vegetação, ouviu os gritos. “O povo gritava ‘não me mata, não me mata’, e eles atirando.”

José Carlos Moreira tinha 18 anos quando foi atingido no olho direito na Curva do S. “O policial apontou na minha cara. Na testa, para matar”, lembra. A bala nunca foi retirada. Hoje, aos 48 anos, convive com dores, faz hemodiálise três vezes por semana e não consegue trabalhar. Ainda assim, não guarda mágoa de quem atirou: “Se eu encontrasse o policial, eu chamava ele pra comer uma galinha caipira mais eu. Porque pelo menos ele me deixou vivo”.

No assentamento 17 de Abril, criado na antiga Fazenda Macaxeira, a memória do massacre está presente nas pinturas e nos nomes das ruas. Casas de alvenaria substituíram os barracos de lona. O maior orgulho da comunidade é a Escola Oziel Alves Pereira, batizada em homenagem a uma das principais lideranças jovens do MST mortas na Curva do S. Segundo testemunhas e investigações da época, Oziel foi morto depois de já estar rendido e sob controle policial.

Parte dos sobreviventes da Curva do S vive hoje no assentamento. Gouveia mora ali desde a criação da comunidade. Em 1996, integrava a coordenação do movimento e participou das negociações com a Polícia Militar na véspera da operação. Ele recorda aquela conversa como a última chance de evitar o confronto. “A gente achou que ia ter um encaminhamento”, diz. A proposta previa a saída dos trabalhadores da rodovia e a viagem até Marabá para negociar com o governo do estado, com transporte e alimentação garantidos. No dia seguinte, nada disso aconteceu. “A gente estava esperando os ônibus”, recorda.

Pablo Neri cresceu ouvindo essa história. O pai participou da marcha interrompida na Curva do S e passou a receber amea­ças depois da chacina. “A gente cresceu entendendo que essa violência nunca tinha acabado”, diz. Hoje, aos 31 anos, integra a coordenação estadual do MST.

“O massacre não terminou. Ele começou no dia 17 de abril e vem matando gente até hoje”, diz Márcio Lima, um dos coordenadores do bloqueio na Curva do S. Segundo ele, dezenas de sobreviventes ainda seguem sem acompanhamento médico adequado. No assentamento, a história continua sendo contada por quem estava lá. Nos autos, parte das perguntas permanece sem resposta. •


* Daniel Camargos é repórter especial da Repórter Brasil. No site reporterbrasil.org.br pode ser lida a integra desta reportagem.

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pela Curva do S’

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