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O preço da inação

Não fazer nada custa mais do que tentar e falhar, diz o ativista Thiago Ávila sobre a limpeza étnica em Gaza

O preço da inação
O preço da inação
Persistência. Ávila coodernou oito missões a Gaza e uma a Cuba. Agora, se aventura na campanha a deputado. “Precisamos derrotar o bolsonarismo” – Imagem: Esra Hocioglu/Anadolu/AFP e Yassine Mahjoub/AFP
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Aos 39 anos, Thiago Ávila viveu muitas aventuras ao lado de ativistas do mundo para levar ajuda humanitária à população de ­Gaza. Depois de mais de dois anos e meio de bombardeios por Israel, as cidades do enclave palestino foram destruídas e o povo vive em tendas sem água potável nem hospitais. Israel matou mais de 200 mil palestinos e deixou milhares de mutilados, entre eles 10 mil crianças. As flotilhas de Gaza, que o brasileiro e leitor de Marx integrou, foram organizadas para socorrer quem morre de doenças, fome e sede. Os ativistas de junho foram presos ilegalmente em águas internacionais e levados a Israel. Muitos foram torturados, como Ávila. “As torturas foram tantas que fiquei desacordado duas vezes e até hoje não recuperei o sentido sobre todas as áreas do meu corpo”, recorda na entrevista a seguir. E pondera: “Diante de um genocídio, todo sacrifício é pouco”.

Carta Capital: Você é apresentado como “socioambientalista internacionalista”. Qual a causa mais importante, a ecologia ou a defesa dos palestinos?
Thiago Ávila: Compreendi que ambas andam juntas e que só podemos vencê-las conjuntamente, pois se trata do mesmo sistema de injustiças e destruição. O sistema que promove o genocídio na Palestina, e também no Congo e no Sudão, é responsável pelo ecocídio em Gaza, pela destruição da Amazônia, do Cerrado e demais biomas do País. Quem se beneficia é a mesma classe de bilionários, as mesmas corporações, e quem paga a conta é a população mais pobre.

CC: O que o levou a participar das flotilhas de Gaza?
TA: Comecei a compreender a causa palestina em 2005, enquanto o governo sionista retirava as colônias de Gaza para transformá-la na “maior prisão a céu aberto do planeta”. No ano seguinte, Gaza sofreu bombardeios aéreos e em 2007 começa o criminoso cerco por terra, ar e mar. Desde então, acompanho a situação com preocupação. As flotilhas para romper o cerco ilegal e levar ajuda humanitária aconteceram pela primeira vez em 2008, mas apenas as cinco primeiras conseguiram chegar em Gaza. As outras foram impedidas, seja por problemas mecânicos ou de guerra burocrática, seja por interceptações-sequestros ou por ataques que danificavam os barcos, feriam pessoas e nos obrigavam a parar. Minha primeira participação em uma flotilha foi em abril de 2024, quando me juntei ao comitê internacional e coordenei oito missões a Gaza e uma a Cuba. Tentamos muitas vezes, eu estive no barco por três vezes, chegamos a menos de 150 milhas náuticas de Gaza. Diante de um genocídio, todo sacrifício é pouco e o pecado de não fazer nada cobra muito mais caro à humanidade que o fato de tentar e falhar.

CC: A flotilha que tentou furar o bloqueio neste ano foi interceptada ilegalmente por Israel em águas internacionais. Você e outros ativistas foram presos, levados para Israel e sofreram torturas. Como foi a prisão?
TA: Foi muito duro o período na prisão, pois os criminosos de guerra estavam dedicados a me torturar e me destruir física e mentalmente. As torturas foram tantas que fiquei desacordado duas vezes e até hoje não recuperei o sentido sobre todas as áreas do meu corpo. Só fomos libertados após uma intensa campanha de mobilização que aumentou muito o ­custo político para Netanyahu e Trump nos manter presos e sob torturas.

CC: Por que a ajuda humanitária das flotilhas é bloqueada por Israel?
TA: Faz parte do projeto sionista que o povo palestino não consiga manter as condições mínimas de vida para que queiram sair de sua terra. Apesar de ser considerado um crime de guerra diante do direito internacional e humanitário, Israel­ segue impedindo que palestinos recebam ajuda humanitária. Diversas organizações denunciam essa violação, da ONU à Anistia Internacional e Human Rights Watch. E não apenas impedem a entrada de ajuda. Israel esteve envolvido em ataques que mataram trabalhadores humanitários que lutavam contra os terríveis impactos da desnutrição aguda em Gaza.

“Faz parte do projeto sionista que o povo palestino não consiga manter as condições mínimas de vida”

CC: O que está em curso em Gaza e na Cisjordânia é a continuação da limpeza étnica, iniciada na criação do Estado de Israel, em 1948?
TA: Sem dúvida. Esse processo é visível até nos mapas. Até 1947, toda aquela área era a Palestina. Naquele ano, com a Resolução 181 da ONU (“Plano de Partilha”), Israel passa a existir ocupando mais de 53% do território. Em apenas dois anos, em 1949, passaram a ocupar 78%. Em 1967, passaram a ocupar militarmente 100%, inclusive Cisjordânia, Gaza, a península do Sinai egípcia (depois devolvida), pedaços do sul do Líbano (nunca devolvidos) e as colinas de Golã sírias (nunca devolvidas). O que vimos em Gaza nos últimos dois anos e oito meses foi uma aceleração desse processo e a tomada de mais território durante o genocídio. É uma violência contínua de oito décadas.

CC: Israel se apresenta como a “única democracia do Oriente Médio”. O que pensa da autodefinição de um país que continua a ocupação, desde 1967, da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste, contrariando o Direito Internacional e mantendo duas leis dentro do país, uma para palestinos israelenses e outra para judeus, um típico regime de apartheid?
TA: Após o fim do regime de apartheid na África do Sul, Nelson Mandela visitou a Palestina para agradecer ao povo pelo apoio constante à luta contra esse regime de segregação. Após a visita, ele declarou que o processo de apartheid que o povo palestino vive na região era pior que o da África do Sul. Um regime em que palestinos têm a maioridade penal de 12 anos e são julgados por Cortes militares enquanto israelenses possuem a idade penal de 18 anos e são julgados por Cortes civis não pode ser considerado democrático. Israe­l é a cruel realidade de um povo que ocupa ilegalmente territórios, comete inúmeras violações do direito internacional e se apresenta como uma democracia.

CC: Por que decidiu disputar uma vaga de deputado federal?
TA: Precisamos derrotar o bolsonarismo e, por isso, aceitei o desafio de ser candidato. Desejamos construir uma São Paulo do Bem Viver, defender o Brasil e transformar o mundo acabando com a exploração, todas as formas de opressão e destruição da natureza. O programa está sendo desenhado dentro desses parâmetros. Esperamos que mobilize mais gente para a tarefa histórica da nossa geração. •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O preço da inação’

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