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A cruz e a caldeirinha

O tarifaço imposto por Donald Trump atinge empresas sufocadas pela enxurrada dos produtos chineses

A cruz e a caldeirinha
A cruz e a caldeirinha
Derrama. Com as barreiras impostas nos EUA, os produtores chineses buscam outros mercados para desovar estoques. O setor de vestuário sente o impacto – Imagem: Ciete Silvério/Prefeitura de SP e iStockphoto
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A pressão simultânea de aumento das tarifas de importação de produtos brasileiros pelos EUA e crescimento das exportações da China para o Brasil criou um desafio sem precedentes para as empresas. Enquanto o tarifaço reduz a competitividade das exportações brasileiras para os Estados Unidos, o mercado doméstico passou a absorver parte do excedente de produção internacional, em especial o asiático, intensificando a concorrência com a indústria nacional. Isso cria uma pressão inédita sobre caixa, emprego e investimento, afirma o economista Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo.

Segundo Fernando Pimentel, superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, “há uma invasão de importados no nosso País”. José Velloso, presidente da Abimaq, a associação dos fabricantes de máquinas, considera que “o problema da invasão chinesa é muito mais grave do que a questão do tarifaço”.

No caso do vestuário, ressalta Silva, as importações cresceram 54% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o varejo deste setor andou de lado, de acordo com o ­IBGE. No setor têxtil, um dos mais atingidos, um terceiro elemento agrava o quadro e configura uma “tempestade perfeita”, o encerramento da chamada “taxa das blusinhas”, que tende a ampliar ainda mais a entrada de produtos importados de baixo valor, sobretudo têxteis e calçados.

Ao mesmo tempo, a política monetária extremamente restritiva mantém o crédito inviável para grande parte da indústria. O resultado já aparece no mercado de trabalho. A cadeia têxtil perdeu mais de 13,2 mil empregos nos últimos doze meses, sinal de que os impactos afetam a produção e o emprego.

A cadeia têxtil perdeu mais de 13 mil empregos em 12 meses

Para enfrentar a situação, é fundamental, no curto prazo, preservar a liquidez das empresas, o que passa pela oferta de linhas de crédito com condições favorecidas, carência adequada e contratação simplificada, para possibilitar que firmas competitivas atravessem esse período excepcional até que as negociações comerciais produzam resultados, recomenda Silva.

É importante também fortalecer instrumentos de estímulo às exportações, como a recomposição do Reintegra para patamares compatíveis com sua finalidade original, reduzindo parte da cumulatividade tributária ainda existente nas cadeias exportadoras.

“No mercado interno, é necessário aperfeiçoar os mecanismos de defesa comercial. No momento, eles não são suficientes”, aponta Silva. Isso envolve maior monitoramento das importações, fortalecimento das investigações de práticas desleais de comércio e utilização dos instrumentos previstos pela OMC e retomada da divulgação de estatísticas mais detalhadas de importação, fundamentais para respostas tempestivas da política comercial.

Um ponto importante relacionado ao financiamento, prossegue o presidente do Corecon-SP, é que, na configuração inicial do Plano Brasil Soberano, em ­suas duas versões anteriores, diversas empresas dos setores mais atingidos não conseguiam acessar recursos para capital de giro puro, pois o crédito estava, na maior parte, vinculado a investimentos. A expectativa é que a Fase 3 do programa equacione essa restrição.

“Medidas emergenciais são indispensáveis para enfrentar a crise atual, mas somente ganhos permanentes de competitividade permitirão que a indústria brasileira responda de forma sustentável aos desafios de um ambiente internacional cada vez mais disputado”, ressalta Silva.

Devastação. Velloso, da Abimaq, e Pimentel, da Abit, veem a invasão de produtos chineses como um fenômeno mais nocivo do que as tarifas anunciadas por Trump – Imagem: Ricardo Keuchguerian/ABIT, Redes Sociais/Abimaq e iStockphoto

Segundo a economista Marta Castilho, professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do Grupo de Indústria e Competitividade, outro setor que se encontra em uma situação delicada é o automotivo. A China entra nos mercados sul-americanos, inclusive no nacional, com um produto muito competitivo e que ainda não é produzido em escala suficiente para exportação. O país asiático se tornou o principal exportador mundial de veículos elétricos, respondendo por 65% do total em 2024.

Máquinas e equipamentos são outro setor, segundo Castilho, que pode ser bastante afetado. A entrada nos EUA tem sido limitada e não foi poupada nos tarifaços de 2025 e no último e tanto os EUA quanto os países da América Latina constituem mercados importantes para as exportações do Brasil. “Temos que aprofundar as relações com a América Latina para fortalecer a articulação produtiva na região e desenvolver cadeias regionais de valor. Isso seria benéfico tanto para o Brasil quanto para seus parceiros. O fortalecimento de cadeias regionais e a articulação da atuação conjunta em temas de interesse comum, como minerais críticos e transição energética, devem ser perseguidas, mas seria uma resposta de mais longo prazo”, sublinha a professora da UFRJ.

No caso do tarifaço, a ameaça é mais difusa, às vezes afeta não apenas o setor exportador de um produto final, mas os fornecedores de partes, peças e componentes, ou seja, a cadeia como um todo, destaca o economista Antonio Carlos Diegues, professor do Instituto de Economia da Unicamp. A solução é complicada, por exigir negociação e recuo de Washington, que não parece estar disposto, neste momento, a fazer esse movimento, devido à orientação da geopolítica estadunidense e a relação do governo dos EUA com as forças de extrema-direita na América Latina. Uma estratégia sensível a Trump é os empresários nacionais mostrarem que haveria problemas para os consumidores norte-americanos a persistirem as altas tarifas de importação, um caminho iniciado. O plano Brasil Soberano III oferece alguns alívios temporários aos setores mais prejudicados, como crédito e postergações tributárias.

Quanto à invasão de produtos chineses, o principal problema é a força da competitividade estrutural chinesa de longo prazo. Uma estratégia seria entabular alguma negociação com o governo chinês para estabelecer cotas de importação para alguns produtos, além da utilização de mecanismos previstos na OMC, como salvaguarda, eventualmente algum aumento de tarifas de importação em alguns setores. Para produtos com capacidade de gerar emprego e renda e competitivos também no Brasil, como o de calçados, poderia ter crédito em volume e recursos adequados, além de orientar a produção para as necessidades locais. Isso talvez seja uma opção mais viável para contornar as limitações da invasão chinesa.

Segundo o economista André Luiz Passos Santos, sócio-diretor da BPCT Consultoria Econômica, o duplo assédio causado pelo tarifaço e pelo crescimento das importações de produtos chineses caracteriza um movimento de “pinça” em torno dos setores de tecidos e vestuário. Os EUA impuseram uma tarifa de 125% sobre os produtos chineses, que perderam competitividade no mercado estadunidense e necessitam buscar mercados. Ao mesmo tempo, as tarifas combinadas de 25% e 12,5% impostas ao Brasil restringem as exportações dos setores para aquele país. Em 2025, as exportações chinesas de tecidos para os EUA alcançaram 113 bilhões de dólares, o que agora os obriga a buscar novos mercados.

O tarifaço e a “invasão” chinesa criam pressão inédita

No setor de calçados, a tarifa de 20% para a entrada de produtos chineses no mercado estadunidense tem provocado um rearranjo global. Já se percebe um crescimento de cerca de 50% na importação de calçados chineses no Brasil, segundo estimativas da associação do setor. Contudo, a produção norte-americana não alcança 2% de sua demanda e o encarecimento das importações certamente gera pressões inflacionárias naquele país. Assim, as restrições dos EUA aos calçados brasileiros poderão ser suavizadas a fim de aliviar as condições dos importadores.

Quanto ao setor de máquinas e equipamentos, 21% das exportações brasileiras seriam afetadas, na avaliação do Ministério do Desenvolvimento. As estimativas de perdas para o setor variam de 2,5 bilhões a 4 bilhões de dólares, mas o maior desafio vem das importações da China, que representam 32 bilhões de dólares anuais, ou cerca de 37% das importações brasileiras.

Santos concorda com a proposta de adoção, pelo governo, de uma política de cotas de importação de produtos chineses nos mercados ameaçados, segundo avaliação da ABIT. Ao mesmo tempo, pode abrir processos de dumping e relações comerciais assimétricas na OMC, mas tais processos são custosos e muito demorados. A reciprocidade pode gerar uma escalada de sanções de grandes proporções, prejudicando ainda mais os setores mais atingidos. “As melhores opções são a busca ativa de novos mercados, sobretudo na América Latina e na Europa. E também a adoção de linhas de crédito do ­BNDES para financiamento às exportações e capital de giro, que já vêm sendo criadas pelo governo”, aponta o economista. “É uma situação altamente complexa, que se agrava com o provável aumento global do protecionismo e a redução do comércio mundial. Não creio que as autoridades brasileiras possam compensar completamente essas assimetrias, mas é possível amenizá-las com uma competente diplomacia comercial, muito presente nas atitudes do governo.” •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A cruz e a caldeirinha’

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