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Saúde não é mercadoria
As eleições de 2026 são uma oportunidade extraordinária para que se discuta o futuro do SUS
Em outubro, voltaremos às urnas para escolher o presidente da República. Como em toda eleição, haverá uma profusão de promessas. Na saúde, não faltarão candidatos prometendo hospitais, médicos, exames, cirurgias, fila zero e até canetas emagrecedoras.
Mas, depois de tudo o que vivemos e sofremos nos governos Temer e Bolsonaro, é preciso exigir mais. Os candidatos precisam dizer claramente qual SUS pretendem construir, como irão financiá-lo e que compromissos assumirão para transformar em realidade o direito constitucional à saúde.
O ponto de partida é inequívoco: o SUS é uma das nossas maiores conquistas civilizatórias, uma política que acompanha cada brasileiro antes mesmo do nascimento. Defendê-lo significa defender a vida e enfrentar desigualdades.
A primeira pergunta aos candidatos deve ser, portanto: quanto pretendem investir no SUS? Não haverá sistema universal, integral e de qualidade sem financiamento adequado e sustentável. O compromisso de avançar progressivamente para um investimento público correspondente a 6% do PIB precisa ocupar o centro do debate eleitoral.
Mas dinheiro, embora indispensável, não basta. É preciso definir prioridades. A primeira delas deve ser uma revolução na Atenção Primária à Saúde. Fortalecer equipes, reduzir sua sobrecarga, valorizar vínculos territoriais, ampliar visitas domiciliares, cuidado farmacêutico e exames nas unidades básicas.
Integrar atenção básica, especializada, vigilância e assistência farmacêutica por meio de prontuários compartilhados. E manter o Mais Médicos orientado prioritariamente para os territórios onde historicamente faltam profissionais.
Outro desafio são as filas, que dificultam o acesso oportuno a atenção especializada. O Agora Tem Especialistas precisa se consolidar como política pública estruturante, combinando ampliação da oferta, terceiro turno, mutirões, carretas, expansão da capacidade instalada, uma regulação moderna e a mudança do modelo de financiamento. Fila única digital, transparente e ordenada pelo risco clínico – e não pela capacidade de influência de cada cidadão – é instrumento de equidade.
O próximo governo deve preparar o SUS para uma sociedade que envelhece rapidamente. Já somos mais de 34 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Precisaremos integrar saúde e assistência social, fortalecer o cuidado domiciliar, formar cuidadores e ampliar a oferta de geriatria e gerontologia.
Saúde mental, saúde das mulheres, população negra, povos indígenas, pessoas com deficiência, população LGBTQIAPN+, trabalhadores e populações tradicionais também não podem permanecer como agendas periféricas.
Saúde é desenvolvimento e soberania. O Complexo Econômico e Industrial da Saúde precisa estar no coração de uma política nacional de desenvolvimento, fortalecendo Fiocruz, Butantan, Hemobrás, universidades e empresas brasileiras, investindo em biotecnologia, vacinas, medicamentos, Inteligência Artificial e plataformas de RNA mensageiro.
A transformação digital oferece possibilidades extraordinárias, mas não pode reproduzir desigualdades. Hospitais inteligentes, telessaúde, integração de dados e Inteligência Artificial podem reduzir filas, melhorar diagnósticos e levar especialistas aos lugares mais remotos. Mas tecnologia no SUS deve significar inclusão, jamais uma nova barreira para pobres, idosos ou cidadãos com menor literacia digital.
Nada disso acontecerá sem trabalhadores valorizados. São milhões de profissionais que sustentam o sistema. Formação, carreiras, condições dignas de trabalho e enfrentamento da precarização precisam tornar-se compromissos concretos de governo. Na saúde é imperioso o fim da escala 6×1.
E há uma questão incontornável: saúde não é mercadoria. O próximo governo precisará enfrentar de maneira transparente as relações entre SUS e setor privado, aprimorar o ressarcimento pelas operadoras e impedir que recursos públicos subsidiem interesses privados enquanto ainda faltam recursos para garantir direitos universais.
As eleições de 2026 são uma oportunidade extraordinária para se discutir o futuro do SUS. Queremos saber dos candidatos não apenas o que construirão, mas que concepção de saúde defenderão.
Porque escolher o futuro do SUS é também escolher que país queremos ser: um país em que o acesso à saúde depende da renda de cada um ou uma sociedade que reconhece, definitivamente, que saúde é direito de todos e dever do Estado. •
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Saúde não é mercadoria’
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