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O PL da Misoginia e o seu Nilson
Ele achava que era coisa de comunista, até a filha abrir o celular e ler o que estava escrito na proposta
Seu Nilson tem 52 anos e roda doze horas por dia de aplicativo. Estava mexendo o feijão quando Rafaela, de 15 anos, segundo ano do ensino médio, encostou na pia com o celular na mão.
— Pai, o que é esse projeto da misoginia?
— Coisa de comunista, filha. Querem prender quem fala o que pensa.
— Prender por falar o quê?
— Qualquer coisa. Solta uma piada, já era.
— Qual piada o senhor faz que dá cadeia?
— Nenhuma. Mas e se der?
— Pai, racismo é crime desde quando?
— Desde 89.
— O senhor já foi preso por falar alguma coisa?
— Eu não falo essas coisas.
— Então.
Ele desligou o fogo. Ganhou tempo.
— Não é a mesma coisa. Racismo é racismo. Isso aí é subjetivo. Quem é que vai decidir o que é ódio?
— Lê comigo o que está escrito, então.
Ela virou a tela.
— Organizar campanha para atacar uma mulher. Ganhar dinheiro humilhando mulher. Incitar violência contra mulher. Me mostra qual desses aí é opinião.
— Isso já não é crime?
— Parte é. Mas depende de quem é a mulher.
— Como assim, depende?
— Ameaçar deputada tem lei com nome e pena desde 2021. Ameaçar enfermeira, professora, caixa de mercado, é ameaça comum: dá cesta básica. A lei já protege quem tem mandato. Quem tem plantão, não.
Seu Nilson pegou a colher de novo. Sem mexer nada.
— E se eu falar que mulher dirige mal?
— Aí o senhor está falando besteira. Mas besteira não é crime, pai, e vai continuar não sendo.
— Tá vendo? Já começou.
— Não comecei nada. Eu acabei de dizer que o senhor pode. O que ninguém pode é montar uma página para destruir a vida de uma mulher e vender publicidade em cima.
— Mas hoje em dia está todo mundo ofendido, Rafa. Não pode mais nada.
— Pode tudo. Menos ameaçar.
Ela ficou quieta um tempo. Quando voltou a falar, a voz tinha mudado de lugar.
— Pai, o senhor lembra da Bia?
— A do prédio da frente.
— Fizeram uma lista no grupo do colégio. Uma lista com as meninas da escola, com nota de cada uma. Com foto. A Bia trancou o ano.
O feijão começou a agarrar no fundo da panela.
— Ninguém foi advertido. A escola disse que era coisa de menino.
— Você estava nessa lista?
— Estava.
Seu Nilson largou a colher na pia.
— Por que você não me contou?
— Porque o senhor ia mandar eu sair do grupo.
— E eu ia mesmo.
— Pois é, pai. Sou eu que saio. É sempre a gente que sai.
Ele não respondeu. Ficou olhando para o fogão desligado como quem procura alguma coisa que não está ali. Quando falou, foi de um assunto que ninguém tinha puxado.
— E o Kauã?
O Kauã tem 12 anos e é irmão dela.
— O que tem ele?
— Ele fica vendo aqueles vídeos de como ser homem de verdade. Eu achava besteira de moleque.
— Não é besteira. Tem gente ganhando muito dinheiro ensinando isso pra ele.
— Ganhando dinheiro?
— A lei aumenta a pena até o dobro para quem lucra com ataque a mulher e para quem tem audiência grande. Não é pro senhor, pai. É pra quem fatura em cima da gente.
— Então essa lei é pra te proteger.
O feijão queimou no fundo. Seu Nilson não ligou.
— Me manda o link disso aí.
De um lado, um medo inventado: perder a liberdade de falar. Do outro, um medo vivido: ir para a escola. Os dois não pesam igual – um é hipótese, o outro é segunda-feira de manhã.
E repare no que desarmou o pai. Não foi argumento jurídico, não foi estatística, não foi ninguém o chamando de machista. Foi a lista com o nome da filha.
No Senado, o PL de Combate à Misoginia passou por 67 votos a zero. Nenhum voto contrário, de nenhum campo, de nenhuma bancada. Na Câmara, travou – e não travou por convicção, travou por conveniência.
Há anos o Instituto Locomotiva escuta o Brasil que a estatística costuma tratar como massa e a gente insiste em tratar como gente. E tem uma coisa que aparece em pesquisa atrás de pesquisa, década após década: o medo não é um sentimento das mulheres brasileiras, é um cálculo. Que horas voltar, por onde andar, o que postar, quando calar. Nenhum país pode se dizer desenvolvido enquanto metade da sua população precisa fazer conta de risco para viver a vida. •
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O PL da Misoginia e o seu Nilson’
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