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Existe algo mais revolucionário do que a verdadeira liberdade?
Não é o capitalismo que nos amarra com suas correntes de falta ou excesso de recursos, drenados para um consumo desnecessário de uns poucos?
“O crítico Bielínski, que havia depositado grandes esperanças no autor de ‘Gente Pobre’, não escondeu sua decepção. Na sua opinião, a novela era um ‘enigma surpreendente da sua fantasia mirabolante’. E não só Bielínski, mas a crítica em geral tomou a publicação de ‘A Senhoria’ como a prova definitiva da falta de talento do escritor” – Fátima Bianchi
Dostoiévski foi um dos autores à frente do próprio tempo. Não é de estranhar que a crítica não conseguisse aquilatar o talento extraordinário do russo, sem dúvida um dos maiores escritores de todos os tempos.
Unir o coletivo ao individual deveria ser tarefa fácil, mas ainda temos resistência a isso, assim como não vemos o automatismo evidente que existe entre as relações interpessoais e as internacionais.
Nesse sentido, Lula inova, mais uma vez, ao propor um grupo de “Amigos da Paz“.
Com efeito, demonstra, a um só tempo, ser capaz de superar pautas vencidas, como a reforma do Conselho de Segurança da ONU, e identificar que a paz é a condição sine qua non de todo e qualquer desenvolvimento social, incluindo o combate à fome, tônica de seus mandatos anteriores.
Em âmbito interno, temos a novidade de Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina, disputando uma cadeira na Câmara Federal, pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Trata-se de forma inteligente de trazer a política externa para o âmbito mais amplo dos debates, podendo qualificar, em muito, as posições brasileiras não apenas com relação à Palestina, mas também ao Oriente Médio e às demais Nações amigas.
A eleição de um parlamentar comprometido com a justa causa palestina, aliada à anunciada criação do Conselho de Política Externa, deverá contribuir para enraizar a diplomacia na sociedade brasileira, como fizera o Barão do Rio Branco, a seu tempo.
Ao criar o Conselho e propor um grupo de países amigos da paz, Lula retoma o melhor da política externa democrática, aquela iniciada pós-ditadura, por meio do qual o Brasil aglutinou outros países latino-americanos que também retornavam à democracia e, dessa maneira, juntos impediram intervenções militares dos Estados Unidos na América Central.
Demais, o presidente deixa claro que sua política externa não é refém de interesses pessoais, ao contrário de Donald Trump.
Com efeito, aquele que supostamente é o homem mais poderoso da Terra conduz a política externa de seu país para privilegiar interesses da própria família, recebendo ainda presentes bilionários como um avião Boeing 747, customizado, que a Suprema Corte, dócil a ele, autorizou manter como propriedade pessoal ao final do seu mandato.
Evidentemente, uma prebenda desse valor, doada por um governo estrangeiro, implica óbvia troca de favores.
Dessa forma, que independência tem? Que isenção? Que latitude tem o presidente do país que se crê pátria da liberdade?
Na verdade, está mais para pária do que para pátria.
Basta verificar a nomeação dos embaixadores, todos credores políticos do mandatário, a maioria mediante financiamento das milionárias campanhas.
A isso chamam de liberdade? A uma plutocracia?
Em A Coragem de Não Agradar (editora Sextante), Ichiro Kishimi e Fumitake Koga refletem: “…as pessoas só conseguem ter consciência real de seu valor quando são capazes de se sentir úteis a alguém…felicidade é a sensação de contribuição”.
A diplomacia pode trazer esse sentimento, quando exercitada como cooperação, atuação conjunta pelo bem comum, sem busca de reconhecimento pelo serviço prestado.
Isso também vale para o plano pessoal, como os autores bem assinalam: “Se um indivíduo realmente tem a sensação de contribuição, deixa de buscar o reconhecimento alheio, pois já terá a consciência real de que é útil a alguém e não precisará fazer qualquer esforço para obter reconhecimento”.
Em Um Verão com Homero (editora L&PM), Sylvain Tesson observa:
“A Odisséia não é o imenso e simplíssimo esforço de um homem que derrubou muralhas, experimentou todos os fausto e viveu todas as aventuras, mas que modestamente preferiria recuperar o valor da vida e envelhecer tranquilamente ‘o resto de sua idade’ no palácio reconquistado?…Os estoicos prescrevem a veneração de cada instante da vida como se este fosse o último. As horas modestas têm peso maior na balança do destino do que os dias esplêndidos passados em conversa com deuses ou empunhando armas”.
Não seria isso a liberdade?
Ter a possibilidade de escolher, sem limitações econômicas, sociais ou políticas?
Por que falamos tanto em “liberdade”, mas, na verdade, a tememos na mesma proporção?
Existe algo mais revolucionário do que a verdadeira liberdade?
Não é o capitalismo que nos amarra com suas correntes de falta ou excesso de recursos, drenados para um consumo desnecessário de uns poucos?
Talvez a felicidade seja mais simples, como o autor recorda:
“O que aprendemos com esses primeiros cantos da ‘Odisséia’? A vida impõe deveres. É muito importante não ultrapassar os limites do mundo.
Quando precisamos reparar um erro cometido, não devemos nos desviar de nosso caminho ou renegar nossos objetivos. Por fim, nunca devemos esquecer o indivíduo que somos, nem o lugar de onde viemos e o lugar para aonde vamos. Para Ulisses, a tensão é simples: voltar para a pátria, expulsar os usurpadores.
Ele triunfa porque nunca se deixa distrair”.
A paz nos convoca. Não nos deixemos distrair. Ela já está dentro de nós.
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