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El Niño e guerras pressionam segurança alimentar global

Combinação entre El Niño intenso e conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, regiões-chave para a agricultura global, ameaça safras e arrisca elevar preços e ampliar a fome no mundo

El Niño e guerras pressionam segurança alimentar global
El Niño e guerras pressionam segurança alimentar global
Palestinos deslocados tentam pegar o que resta em uma panela de sopa de lentilha em um ponto de distribuição de alimentos na cidade de Gaza, no norte da Faixa de Gaza, em 25 de julho de 2025. Créditos: Omar AL-QATTAA / AFP
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Um El Niño com potencial para atingir intensidade recorde está se fortalecendo no Oceano Pacífico, aumentando o risco de secas e inundações em algumas das principais regiões agrícolas do planeta.

No início deste mês, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimou em 63% a probabilidade de que o fenômeno atinja a categoria “muito forte” ainda este ano.

Na semana passada, o banco JPMorgan alertou que a combinação entre um El Niño intenso e preços do petróleo acima de 100 dólares por barril pode elevar a inflação global dos alimentos em até 1,5 ponto percentual.

A intensificação do fenômeno ocorre em um momento delicado para a segurança alimentar mundial. O planeta já convive com dois grandes conflitos – na Ucrânia e no Oriente Médio – que afetam cadeias de suprimentos, custos de produção e rotas comerciais. Ainda assim, o abastecimento global de alimentos tem demonstrado resiliência.

A questão agora é saber se essa terceira ameaça será capaz de romper esse equilíbrio e desencadear uma nova crise alimentar global.

Triplo golpe na segurança alimentar mundial

A guerra da Rússia contra a Ucrânia continua pairando sobre uma das principais regiões exportadoras de grãos do planeta, onde ataques recorrentes a portos e áreas agrícolas seguem ameaçando um dos maiores celeiros do mundo.

O conflito envolvendo o Irã elevou os preços da energia e dos fertilizantes, aumentando os custos de produção agrícola em todo o mundo e provocando interrupções temporárias no fornecimento de nutrientes essenciais para o solo.

O El Niño, que altera os padrões globais de chuva e temperatura, deve ser tão intenso que o Banco Mundial alertou recentemente que ele poderá reduzir a produção de arroz entre 20% e 50% nas regiões afetadas.

Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), advertiu para um “efeito combinado” que pode criar “uma situação muito complexa” até o final do ano.

“Estamos muito preocupados com o El Niño e com o atraso das monções na Índia”, disse à DW.

Monções são sistemas sazonais de ventos que provocam mudanças marcantes nos regimes de chuva e são importantes para a agricultura. Espera-se que o El Niño enfraqueça e atrase a temporada de monções na Índia, período crucial para o plantio de arroz. Em junho, as chuvas ficaram cerca de 40% abaixo da média, segundo a imprensa local. A Índia produz quase um terço do arroz mundial, sendo que a maior parte é consumida internamente.

Além do Sul da Ásia, a FAO considera que os maiores riscos associados ao El Niño estão na região do Sahel, na África; na África Austral; no Sudeste Asiático; e no Corredor Seco da América Central.

A agência da ONU alertou neste mês que algumas dessas regiões enfrentam probabilidade superior a 50% de sofrer secas nos próximos meses.

Mundo produz mais alimentos do que nunca…

Apesar das tensões geopolíticas, os preços dos alimentos permanecem quase 20% abaixo do pico registrado em 2022, segundo o Índice de Preços dos Alimentos da FAO.

O mundo colheu no ano passado a maior safra de grãos da história. Isso ocorreu porque os agricultores ampliaram as áreas cultivadas, as condições climáticas foram favoráveis e a produtividade por hectare aumentou.

Embora a safra deste ano deva ser ligeiramente menor, ainda será a segunda maior já registrada.

“Estamos vendo melhorias na produtividade agrícola”, afirmou Simone Bunse, pesquisadora sênior do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), em entrevista à DW, citando Índia e América Latina como exemplos relevantes.

“Esses avanços ajudaram a sustentar a produção de alimentos e a reduzir a subnutrição. E estão compensando parte dos impactos localizados dos conflitos”.

… mas milhões ainda passam fome

Isso, porém, não significa que a fome esteja sob controle. A ONU afirma que 266 milhões de pessoas ainda enfrentam insegurança alimentar aguda.

“Produzimos calorias suficientes para alimentar toda a população mundial”, afirma Torero. “O problema é que essas calorias não são distribuídas de forma equilibrada pelo mundo, e esse é o grande desafio”.

A situação mais grave concentra-se em um pequeno grupo de países afetados por conflitos, onde os alimentos não conseguem chegar às populações que mais necessitam.

Zonas de guerra, incluindo República Democrática do Congo, Sudão e Iêmen, representam dois terços das pessoas que enfrentam fome aguda nas regiões avaliadas pela ONU.

Os conflitos frequentemente destroem fontes locais de alimentos, deslocam milhões de pessoas, danificam infraestruturas e limitam severamente o acesso da ajuda humanitária. Em locais como Sudão e Gaza, especialistas afirmam que a fome está sendo usada cada vez mais como arma de guerra.

“As partes em conflito destroem deliberadamente terras agrícolas, rebanhos, sistemas de abastecimento de água, instalações de armazenamento de alimentos e rotas de transporte. Elas comprometem o acesso aos mercados e bloqueiam a assistência humanitária”, afirma Bunse.

Agricultores pressionados pelos altos preços dos fertilizantes

Outro risco para a oferta global de alimentos são os fertilizantes, dos quais cerca de um terço normalmente transita pelo Estreito de Ormuz. A passagem continua severamente afetada após o fracasso de um cessar-fogo entre os EUA e o Irã, além dos ataques a embarcações no Mar Vermelho.

Alguns agricultores passaram a pagar muito mais pelos fertilizantes, adiar compras ou migrar para culturas que exigem menos insumos. Caso a aplicação de fertilizantes diminua, a produtividade das próximas safras poderá ser comprometida.

Especialistas em segurança alimentar acreditam que apenas o conflito no Oriente Médio pode deixar milhões de pessoas adicionais em situação de fome até 2030 — projeção que ainda não considera os impactos do El Niño.

Com a expectativa de que as temperaturas no Oceano Pacífico subam 3,6 °C – quase o dobro do registrado durante o El Niño de 2015/2016 – o centro de estudos climáticos Berkeley Earth prevê que o fenômeno deste ano poderá ser o mais forte já registrado.

Se os preços do petróleo ultrapassarem novamente 120 dólares por barril, se as exportações de grãos da Ucrânia forem efetivamente bloqueadas ou se o El Niño comprometer ainda mais as próximas colheitas devido à redução do plantio, especialistas preveem um aumento significativo da fome mundial.

Caso todos esses fatores ocorram simultaneamente, o impacto será ainda mais severo. O JPMorgan projeta que a inflação dos alimentos poderá superar 5% em 2027, com os mercados emergentes sendo os mais afetados.

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