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A guerra dos cogumelos
O que a crescente popularização do uso de substâncias psicodélicas aponta em relação à criminalização e conhecimento público sobre cogumelos?
Recentemente, vimos, no Brasil e no mundo, uma crescente popularização do uso de substâncias psicodélicas. O uso ritualístico, terapêutico, recreativo e em microdoses, especialmente da psilocibina presente nos cogumelos do gênero Psilocybe cubensis, deixou de ser um assunto restrito aos psiconautas e passou a ocupar espaço nas redes sociais, em documentários, livros, podcasts, canais no YouTube e até mesmo em pesquisas científicas conduzidas por universidades de renome.
No Brasil, os cogumelos contendo psilocibina sempre ocuparam uma espécie de área cinzenta da legislação. O fungo, em si, nunca foi proibido ou controlado. Cresce naturalmente em pastagens por todo o país e pode ser encontrado com relativa facilidade, embora essa prática represente um risco, já que espécies psicoativas podem ser confundidas com cogumelos altamente tóxicos e potencialmente letais.
Durante anos, esse mercado permaneceu consideravelmente discreto. Isso mudou com a explosão das redes sociais, da divulgação do potencial terapêutico da psilocibina e da popularização da microdosagem. Em muitos casos, os cogumelos passaram a ser vendidos quase como um suplemento alimentar, acompanhados de promessas exageradas e de uma visão romantizada que ignora riscos, contraindicações e a importância da redução de danos.
Era praticamente inevitável que isso chamasse a atenção das autoridades.
Embora o cogumelo permaneça em uma situação jurídica peculiar, a psilocibina continua sendo uma substância sujeita a controle especial pela legislação brasileira. Esse aparente paradoxo sempre gerou interpretações distintas e, nos últimos anos, operações policiais passaram a atingir cultivadores e comerciantes.
Ao mesmo tempo, surgiu aquilo que ficou conhecido, informalmente, como a “guerra dos cogumelos”. Comerciantes passaram a trocar acusações públicas sobre supostas irregularidades praticadas por concorrentes. Entre os protagonistas dessas discussões esteve a Natureza Divina, um dos nomes mais conhecidos do setor. Posteriormente, a própria empresa anunciou a suspensão da venda dos cogumelos e o estorno dos valores pagos pelos clientes, enquanto vieram a público informações sobre apurações envolvendo suas atividades. Naturalmente, qualquer responsabilidade jurídica depende da conclusão das investigações e das decisões do Poder Judiciário.
Independentemente do desfecho desses casos, o episódio evidencia uma realidade: quanto maior for a exposição comercial de um mercado situado em uma área juridicamente sensível, maior tende a ser o interesse regulatório e fiscalizatório do Estado.
O que mais me chama atenção, entretanto, é o paralelo histórico.
Na década de 1960, a popularização do LSD foi acompanhada por uma forte reação social e estatal. Vieram o alarmismo, o proibicionismo e décadas de interrupção de pesquisas científicas que hoje voltam a demonstrar resultados promissores.
Fica a impressão de que estamos caminhando para um cenário semelhante.
Paradoxalmente, enquanto crescem as evidências científicas sobre o potencial terapêutico da psilocibina para depressão, ansiedade e outras condições, também cresce o risco de uma reação proibicionista. Mais preocupante ainda é imaginar que o próprio fungo possa passar a ser proibido, repetindo, em parte, a história da cannabis no Brasil: uma resposta predominantemente criminal a uma questão que também envolve saúde pública, pesquisa científica e redução de danos.
A banalização do consumo merece críticas. Psicodélicos não são brinquedos. O uso irresponsável pode provocar experiências extremamente difíceis e consequências importantes para pessoas vulneráveis. Fingir que esses riscos não existem é um desserviço.
Mas criminalizar o próprio fungo é, sem sombra de dúvida, um erro ainda maior. Além de parecer desproporcional proibir um organismo que cresce espontaneamente na natureza, essa medida dificilmente eliminaria sua procura. Apenas deslocaria esse mercado para a clandestinidade, fortaleceria organizações criminosas, reduziria o controle de qualidade e ainda incentivaria a coleta de cogumelos silvestres, aumentando o risco de intoxicações por espécies altamente tóxicas.
Fato é que ambos os extremos são perigosos: banalizar completamente o consumo ou responder ao fenômeno exclusivamente pela via da criminalização.
O desafio continua sendo exatamente o mesmo: construir uma política pública baseada em evidências, pesquisa científica, regulamentação e redução de danos. A história já mostrou que o proibicionismo raramente elimina uma substância. Em compensação, quase sempre fortalece o mercado clandestino e aumenta os riscos justamente para quem mais deveria ser protegido.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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