Do Micro Ao Macro

O que os dados de recrutamento revelam sobre a saúde da empresa

Atrasos, desistências e baixa conversão nas vagas apontam falhas de atração, decisão e execução que vão muito além do departamento de RH.

O que os dados de recrutamento revelam sobre a saúde da empresa
O que os dados de recrutamento revelam sobre a saúde da empresa
Como o recrutamento baseado em habilidades pode transformar a busca por talentos em 2025
Apoie Siga-nos no

Por muito tempo, os indicadores de recrutamento foram tratados apenas como métricas operacionais, número de vagas abertas, tempo médio para fechamento, quantidade de contratações no mês. Aos poucos, porém, à medida que as empresas passam a usar dados com mais critério, o processo seletivo ganha uma leitura mais ampla sobre o negócio. Ele deixa de ser apenas uma etapa de contratação e passa a funcionar como um raio-x da organização.

Assim, taxas de conversão, tempo entre etapas, desistência de candidatos, resposta a abordagens de hunting e qualidade das contratações revelam a eficiência do RH e também a força da marca empregadora, a maturidade das lideranças, a clareza sobre o perfil buscado e a capacidade da empresa de atingir suas metas de negócio.

Para Augusto Frazão, CEO da InHire, plataforma de recrutamento e seleção, os dados do processo seletivo mostram dois aspectos da empresa: sua atratividade para talentos e sua capacidade de executar planos de negócio no tempo certo. “Quando a empresa olha dados de atração, conversão de hunting, número e qualidade de inscritos nas vagas, ela descobre se tem uma marca empregadora forte ou não”, afirma.

Além disso, o impacto de vagas não preenchidas recai direto sobre os resultados. Em uma área comercial, a demora para contratar vendedores pode comprometer o atingimento da meta. Em tecnologia, a falta de product managers ou desenvolvedores pode atrasar o backlog de produto. Já em logística ou atendimento, a ausência de profissionais afeta prazos de entrega e satisfação do cliente.

Funil de recrutamento expõe falhas ocultas

Entre os indicadores mais observados nessa leitura estão as taxas de conversão dentro do funil. Elas mostram quantos candidatos saem da inscrição para a entrevista, da entrevista para a proposta e da proposta para a contratação. Também ajudam a identificar se o problema está na atração, na triagem, na proposta, no salário, no tempo de resposta ou no alinhamento entre RH e área de negócio.

Segundo Frazão, olhar apenas para um número geral pode esconder o problema real. A saída está em detalhar os dados por etapa. “Às vezes, quando olho um número grande, vejo que o SLA está alto. Mas isso, sozinho, não diz muita coisa. Preciso entender quais são os ofensores do processo. Se as pessoas estão desistindo muito, talvez eu precise simplificar o processo. Se não estou conseguindo atrair candidatos, talvez precise divulgar em novos canais, patrocinar a vaga ou criar um programa de indicação”, explica.

Essa lógica aproxima o recrutamento de uma disciplina já conhecida em vendas e marketing, a gestão de funil. A empresa precisa entender onde os talentos entram, onde avançam, onde param e por que desistem.

Por sinal, a taxa de conversão de hunting é um indicador sensível da força da marca empregadora. Se muitas pessoas abordadas não aceitam participar do processo, pode haver um problema de atratividade, reputação, posicionamento ou proposta de valor ao candidato.

Já a taxa de desistência durante o processo pode revelar tanto uma marca empregadora frágil quanto uma operação lenta e pouco coordenada. “Ela pode ser lida como indicador de marca empregadora, com certeza. Mas também tem muito a ver com agilidade. Na prática, quase sempre que a desistência é alta, o processo tem etapas demais, ou o gestor desmarca entrevista, não dá feedback e o candidato cansa de esperar”, explica Frazão.

Atrasos nem sempre partem do RH

Um dos pontos mais sensíveis da leitura dos dados é o tempo entre as etapas. Quando uma vaga demora demais para avançar, o diagnóstico pode apontar para fora do RH. Muitas vezes, o gargalo está nas áreas de negócio, que demoram para entrevistar, dar feedback ou tomar decisões.

“Muitas vezes, isso diz menos sobre o RH e mais sobre o quanto ele é tratado com prioridade dentro da empresa. Em muitas empresas, o RH acaba funcionando quase como um prestador de serviço interno. O RH é rápido, o que atrasa são as áreas de negócio”, afirma Frazão.

Esse tipo de dado pode revelar lideranças sobrecarregadas, falta de prioridade para contratação, ausência de clareza sobre o perfil buscado ou baixa integração entre gestores e recrutadores. Na prática, a vaga aberta deixa de ser apenas uma demanda do RH e passa a expor a forma como a empresa toma decisões.

Falhas no recrutamento começam antes da vaga

“Se eu tivesse que falar uma coisa que 99% das empresas precisam melhorar, seria o alinhamento inicial da vaga”, diz Frazão, sobre os gargalos mais recorrentes observados pela InHire. Para o CEO, muitas empresas dizem não ter tempo para investir no começo da vaga, mas acabam gastando mais tempo depois com retrabalho.

Antes de divulgar uma oportunidade, a empresa precisa definir com clareza quem procura, quais requisitos são realmente necessários, quais são negociáveis, qual faixa salarial faz sentido e qual contexto o candidato vai encontrar. Quando essa etapa é feita de forma superficial, o processo começa desalinhado.

“A vaga começa mal desenhada. Se eu não faço o setup correto, muitas vezes não pego os requisitos certos. Isso norteia de forma errada o hunting e a triagem inicial. Quando o gestor vê os primeiros perfis, diz: não é isso que eu quero. Mas ele está trazendo requisitos que nem tinha colocado no alinhamento inicial”, afirma.

Volume de candidatos não garante qualidade

Outro erro comum é confundir volume de candidatos com saúde do processo. Uma vaga concorrida pode dar a sensação de que a estratégia está funcionando, mas os dados podem mostrar o contrário.

Augusto cita o caso de um canal que trazia grande volume de inscritos para determinadas vagas, mas tinha conversão de cerca de 1%. Ou seja, gerava muito trabalho para o time de recrutamento, mas poucos candidatos aderentes. “O cliente sempre quer a sensação da vaga cheia. Mas o que ele deveria buscar são perfis qualificados. Senão, vai perder tempo triando pessoas que não têm fit com a vaga e criar a ilusão de que o processo está saudável”, afirma.

O mesmo raciocínio vale para salário. Em outro caso citado por ele, uma empresa tinha dificuldade para atrair um perfil específico de tecnologia. Ao analisar o mercado em tempo real, a InHire identificou que a expectativa salarial dos candidatos estava quase 20% acima do valor oferecido. O problema, portanto, não era falta de atratividade genérica, mas uma proposta desalinhada com o mercado de recrutamento.

ENTENDA MAIS SOBRE: ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo