Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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‘Tem que se impor’, diz Grazzi Brasil sobre o meio masculino no samba

Sambista celebra 25 anos de carreira com o álbum audiovisual Na Gira, uma exaltação à afro-religiosidade

‘Tem que se impor’, diz Grazzi Brasil sobre o meio masculino no samba
‘Tem que se impor’, diz Grazzi Brasil sobre o meio masculino no samba
Grazzi Brasil apresentando "Na Gira" ao vivo (Foto: Reprodução)
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Grazzi Brasil ganhou projeção nacional ao interpretar, no Carnaval de 2017, o samba-enredo da Vai-Vai em homenagem a Mãe Menininha do Gantois. Aos 29 anos, estreava na avenida de São Paulo como intérprete oficial e, para uma artista profundamente ligada às religiões de matriz africana, cantar um enredo dedicado a uma das mais respeitadas ialorixás do País foi, como ela define, uma grande bênção.

No ano seguinte, veio outra estreia: o sambódromo do Rio de Janeiro. Mais uma vez, a espiritualidade parecia conduzir seu caminho. Grazzi interpretou pela São Clemente um samba-enredo assinado, entre outros, por Moacyr Luz, considerado um dos mais marcantes dos últimos anos. Depois, emprestaria sua voz a outras escolas de destaque, como a própria São Clemente e a Terceiro Milênio.

Mas abrir espaço para mulheres na função de intérprete oficial nunca foi simples.

“Antes de mim vieram Eliana de Lima, Bernadete…”, lembra, em entrevista a CartaCapital, ao citar algumas das poucas mulheres que ocuparam o posto de puxadora de samba-enredo na avenida.

“Não é fácil e não sei se um dia será. Ser mulher nesse meio é muito difícil, mas sou muito grata ao Carnaval porque foi através dele que muitas coisas aconteceram na minha vida”, afirma. “É uma grande responsabilidade e uma luta enorme. É um meio muito masculino. Tem que se impor.”

Em 2026, Grazzi completa 25 anos de carreira e celebra a trajetória com o lançamento do álbum audiovisual Na Gira (Londu Music), gravado ao vivo, com participações de Sandro Luiz e Mayara Costa e produção de Leàndro Máttos.

O trabalho é também uma declaração de fé.

“Eu não chegaria até aqui sem a minha espiritualidade, sem a minha fé. Quero agradecer ao meu sagrado porque é algo que realmente vivo, acredito e que me trouxe até aqui”, diz a cantora, explicando por que decidiu construir um projeto inteiramente dedicado às religiões de matriz africana.

A ideia de transformar Na Gira em um registro audiovisual amadureceu ao longo dos últimos três anos, período em que o espetáculo foi apresentado ao público.

“Tive um sentimento muito forte de que esse projeto precisava virar um audiovisual”, conta.

O repertório foi organizado a partir da simbologia das giras de umbanda. Na primeira parte, dedicada ao chamado “povo da direita”, estão canções em homenagem aos orixás, pretos-velhos, marinheiros, baianos e outras entidades associadas à luz, ao acolhimento, à cura e à elevação espiritual.

A segunda parte é dedicada ao “povo da esquerda”, com homenagens a exus, pombagiras e exus-mirins.

“O show começa mais tranquilo e precisa terminar no auge. Então a gente vem devagarinho, com ijexá, samba, partido-alto. Quando chega na segunda parte, que é Exu, não tem como: a percussão vai para cima”, explica.

Embora dialogue com diferentes ritmos ligados às tradições afro-brasileiras, Grazzi afirma que fez questão de manter o samba como eixo central do espetáculo.

“Tentei ser fiel ao samba. Eu sou uma mulher preta. Isso já vem comigo.”

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