Cultura
A raça levada à tela
“Metade do País superou as referências colonizadas, e a outra metade está longe de superar”, diz Joel Zito Araújo
Vinte e seis anos se passaram desde que Joel Zito Araújo despontou no cinema com um documentário que se tornaria referência no combate ao racismo presente no audiovisual.
A Negação do Brasil – O Papel do Negro na Telenovela Brasileira (2000), baseado em dados que o diretor levantou para o seu doutorado, parte da seguinte constatação: entre as décadas de 1960 e 1990, as novelas da Globo e da Tupi reservaram aos atores negros papéis secundários, nos quais ou serviam aos brancos ou eram vilões.
Desde então, Araújo, de 71 anos, realizou sete longas-metragens e três séries. Seja nas ficções, como Filhas do Vento (2004), seja nos documentários, como Meu Amigo Fela (2019), sempre deu aos negros o protagonismo. Insere-se nessa linha de continuidade o documentário Cadernos Negros, que estreou este mês no Curta!
“Entrando em júris e alterando critérios em editais, mulheres negras tiraram o domínio do macho branco no cinema”
O filme coloca no mapa da cultura brasileira a antologia que, desde 1978, só publica autores negros. Foram até hoje 45 edições pelas quais passaram poetas, contistas, romancistas e ensaístas. Foi nos Cadernos Negros que, por exemplo, Conceição Evaristo publicou pela primeira vez.
O próprio diretor, na década de 1980, vivenciou a cena cultural da qual os Cadernos Negros fizeram parte. Mas, embora muito forte, essa cena, como diz Araújo nesta entrevista a CartaCapital, passou longe dos olhos da intelectualidade branca e de esquerda paulistana.
Cadernos Negros. O novo filme reconta a história da publicação criada em 1978 – Imagem: Redes Sociais
CartaCapital: De A Negação do Brasil a Cadernos Negros me parece que os negros se tornaram mais presentes – e menos estereotipados – nas telas e que passaram a ser mais publicados e lidos. Qual a sua leitura desse processo que vivemos nesses 26 anos?
Joel Zito Araújo: Acho que vivemos algo que podemos até comparar com a ascensão da produção negra nos Estados Unidos, cujo boom se inicia com o movimento pelos direitos civis. Ao mesmo tempo que permitiram que os negros frequentassem a escola feita originalmente para os brancos, os direitos civis possibilitaram, por exemplo, que os negros passassem a se fazer presentes nas tevês públicas e que surgisse o Blaxploitation. Essas coisas juntas, uma fortalecendo a outra, foram gerando uma explosão da presença negra na cultura norte-americana. Acho que o que acontece no Brasil é parecido. A Constituição de 1988, impulsionada pelo Movimento Negro Unificado (MNU), criado em 1978, serviu de base para a lei que reconheceu o direito de terra do povo negro quilombola e para a que criou as cotas na universidade. Esses movimentos são do início do século XXI e, com eles, começa a se multiplicar o número de cineastas e autores negros.
CC: Ao mesmo tempo, Cadernos Negros mostra que, antes disso tudo, e de os artistas negros se tornarem mais visíveis, havia muita coisa acontecendo.
JZA: Sim, mas era uma cena quase subterrânea em relação aos grandes movimentos culturais do País. Fui convidado para fazer esse filme e, de cara, aceitei porque eu era muito amigo das pessoas que impulsionaram os Cadernos Negros. Quando me mudei para São Paulo, em 1984, aquela era uma cena muito evidente para nós, afrodescendentes com espírito de militância, embora meus amigos brancos não soubessem dela. Fazer esse filme era uma forma de revelar esse mundo quase underground que antecede a explosão que você relata. A ampliação do meu conhecimento da cultura negra brasileira e mundial se deu a partir dessas pessoas e, em especial, do Arnaldo Xavier, um grande amigo, que me apresentou autores negros norte-americanos, como Richard Wright e Ralph Ellison, africanos, como Léopold Senghor, e o martiniquense Aimé Césaire. A gente se encontrava em um bar perto da Avenida Paulista quase todas as quartas-feiras. Iam lá pessoas como Matilde Ribeiro, a primeira ministra da Igualdade Racial, Cida Bento, Sueli Carneiro, Hédio Silva Júnior, primeiro secretário de Justiça negro de São Paulo… O filme mostra uma coisa muito forte que aconteceu na cidade, mas que passou longe dos olhos da intelectualidade branca e de esquerda.
Referência. A Negação do Brasil escancarou o racismo presente nas novelas – Imagem: Cinemateca Brasileira
CC: Enquanto na literatura isso acontecia, no cinema era outra coisa. A chegada de realizadores negros ao cinema só seria possível mais tarde, com o barateamento das formas de produção, não?
JZA: Mesmo com a possibilidade de se fazer um filme com o celular, o cinema ainda é uma arte muito mais cara, coletiva e elitista. Sempre haverá a exceção, mas fazer filme ainda envolve mais obstáculos do que escrever um livro. O cinema depende de redes de contato e de avaliação de júris brancos. Mas, hoje, esse cenário mudou, e até provoca discussões dentro do mundo do cinema. As mulheres negras foram mexendo nos critérios dos editais, entrando em júris e, assim, quebrando o domínio do macho branco rico no cinema.
CC: Há um aumento na produção de filmes feitos por negros e por pessoas periféricas, mas essa produção, em sua maioria, não consegue circular, ser vista. Isso se tornou um ponto de tensão no cinema brasileiro, inclusive.
JZA: Essa discussão é complexa, e acho que ainda não consegui entendê-la por inteiro. Existe uma predominância do cinema norte-americano que se dá não só pelo domínio nas salas de cinema, mas pelo gosto. A parte da população que vai à sala de cinema e paga ingresso, pipoca, refrigerante e estacionamento prefere o produto norte-americano. A maioria da população negra não tem dinheiro para ir ao cinema. O filme brasileiro, para ser visto, precisa ser um filme-evento, como os filmes norte-americanos. Foi o que aconteceu com Ainda Estou Aqui, que se tornou um filme necessário, abraçado por parte do público. Se o filme não entrar nessa categoria, pimba, desaparece. Mas, a mim, como cineasta, chateia a predominância do debate sobre o público da sala de cinema, como se o valor de um filme estivesse só na sua capacidade de vender ingressos. Isso gera uma pressão para que os recursos públicos vão para filmes que possam fazer bilheteira. E vai se fazer o quê? Aumentar as salas no shopping ou investir em salas na periferia, em cinemas de universidade, em redes de experiências mais populares e acessíveis, com encontros e conversas?
“Meus filmes são fracassos nas salas, mas circulam bastante. Não faço questão do público do shopping center”
CC: Como foram as experiências com a distribuição dos seus filmes?
JZA: Muito ruins (risos). Como ninguém, nem o (crítico) José Carlos Avelar, que estava na RioFilme, quis distribuir A Negação do Brasil, distribuí pessoalmente. Hoje, o filme está em uns quatro streamings. Todo ano, ganho dinheiro com ele. Filhas do Vento teve cerca de 35 mil pagantes. Foram os dois maiores sucessos. Meu Amigo Fela foi vendido para a televisão em alguns países e, nos Estados Unidos, foi exibido de costa a costa em uma rede pública. Apesar de serem fracassos nas salas, meus filmes circulam bastante. Para mim, não tem problema que o público do filme não seja o do shopping center, não faço questão disso. Talvez seja a sala de 50 pessoas. Fico feliz de expandir a compreensão da contribuição cultural negra para o Brasil e quebrar os paradigmas coloniais.
CC: Superamos, como sociedade, o que você mostrava em A Negação do Brasil? Nos enxergamos melhor?
JZA: Acho que a metade do País superou, e a outra metade está longe de superar – está, na verdade, bloqueada, porque manter essas referências colonizadas virou um embate político. Mas, entre 50% da população, percebo uma diferença muito grande na questão racial, sim. E me vejo como parte de um grupo que contribuiu para um movimento político que resultou na mudança sobre a qual falamos no início do nosso papo. •
FESTIVAL VISÕES PERIFÉRICAS
Evento criado há 20 anos para promover um cinema incipiente lida hoje com a superprodução
856 inscritos. 1. O Mapa em que Estão Meus Pés; 2. O Sonho de Clarice; 3. Cata; 4. Gilson de Souza na Corda-Bamba são alguns dos 69 títulos selecionados – Imagem: Redes Sociais
O dado mais eloquente do 19º Festival Visões Periféricas talvez nem sejam os 20 anos desse evento nascido para promover uma produção que começava a ganhar corpo, mas sim a quantidade de filmes inscritos nesta edição: 856. O número, de acordo com os organizadores, superou em 70% o de 2025.
Se, quando o festival nasceu, em 2007, eram as possibilidades trazidas pela tecnologia que respondiam pelo surgimento de uma produção vinda de lugares onde, por muito tempo, não se fez cinema, o boom de 2026
se deve também a duas leis: a Paulo Gustavo e a Aldir Blanc.
Gestadas durante a pandemia, para socorro do setor cultural, ambas as legislações promoveram o repasse de recursos federais para Estados e Municípios.
As 69 produções exibidas no Festival, realizado entre a quinta-feira 23 e o domingo 26 no Rio de Janeiro e de forma online, vieram de 18 estados, que contemplam as cinco regiões do País.
O evento homenageia, este ano, o projeto Vídeo nas Aldeias, muito simbólico desse início de um fazer audiovisual que significava também falar por si. O projeto criado por Vincent Carelli em meados dos anos 1980 plantou a semente do cinema indígena que, hoje, integra o escopo do Visões Periféricas.
O recorte do festival é oficialmente definido como um recorte que engloba “periferias geográficas, sociais e raciais” e que busca dar visibilidade a realizadores indígenas, quilombolas e LGBTQIA+.
No material de divulgação, o pesquisador Wilq Vicente, um dos curadores, indica que, à ampliação do escopo, corresponde também uma ampliação temática.
Se, no início dos anos 2000, o cinema periférico trazia, quase sempre, algo de denúncia e marcas fortes do território onde havia sido feito, o que se vê atualmente é, segundo ele, um “crescimento da ficção e mais subjetividade”.
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A raça levada à tela’
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