Mundo
Fujimorismo de saias
Apoiada pela mídia, pelos donos do dinheiro e pelos EUA, Keiko Fujimori assume a presidência do país
Na terça-feira 28, Keiko Fujimori realizará o sonho de uma vida. Após três fracassos consecutivos, a filha do ditador Alberto, condenado por crimes contra a humanidade, assumirá a presidência de um ainda instável e imprevisível Peru. Preparada desde os 19 anos para recuperar a posição familiar no topo da política do país, Keiko é uma incógnita. O quanto ela irá espelhar o passado e os vícios do pai? O quanto irá se descolar da herança paterna? “O fujimorismo começa com a derrota do escritor Mario Vargas Llosa e constrói uma organização a partir de conexões com o sistema de justiça e o mundo militar, além de promover reformas de mercado a favor do empresariado e desgastar o sistema de partidos na opinião pública. Estamos falando de um grupo que teve poder nos (anos) 90 sob um regime autoritário e, quando se incorpora certa normalidade democrática, mantém a resiliência para preservar numerosas representações parlamentares durante todo esse tempo, até finalmente vencer novamente”, contextualiza o sociólogo Jose Alejandro Godoy, autor de O Último Ditador, livro no qual aborda os dez anos de mandato de Alberto.
Eleito pelas vias democráticas, “el chino”, como é chamado, deu um golpe de Estado, reescreveu a Constituição, ainda vigente, e manteve o poder com violência até 2000, quando fugiu da capital, Lima, para onde retornaria mais tarde, condenado por fraude eleitoral, corrupção e violação de direitos humanos. Fujimori morreu em 2024, um ano depois de ter recebido um indulto por causa da precária saúde. Durante a maior parte dessas décadas, a herdeira política apareceu em cena, a começar pela insólita nomeação como primeira-dama, após um escândalo no qual sua mãe, afastada, havia acusado integrantes do gabinete ministerial de desvio de recursos e se disse vítima de torturas cometidas por agentes de Estado. “Há muita especulação sobre a família, mas, segundo meus pais, que são fujimoristas, foi um de nossos melhores presidentes, pelas obras realizadas. Eles confiam na Keiko para fazer ainda mais”, afirma Luis Paniura, administrador de empresas de 26 anos que mora em Surquillo, bairro de Lima.
Espera-se que o resultado apertado nas urnas contenha o ímpeto autoritário da nova mandatária
A base social, angariada por conta do combate sem limites às guerrilhas, de alguma melhora econômica, apesar dos altos níveis de desigualdade, agregada a uma identidade vinculada à autoridade, e do manejo de programas sociais até hoje lembrados foi fundamental para Keiko Fujimori superar por menos de 50 mil votos Roberto Sánchez, ex-ministro de Pedro Castillo, presidente de esquerda preso por tentativa de golpe. A demora na apuração e o acirramento da disputa deixaram no ar dúvidas sobre a lisura do trabalho da Justiça eleitoral. Por fim, passado um mês do segundo turno, Sánchez, embora relutante, reconheceu a vitória da adversária. “Somos um país diferente hoje. Existe insegurança, mas não mais a violência de conotação subversiva, e os níveis de pobreza diminuíram. Além disso, a oposição será ampla”, afirma Godoy. O contrapeso à agenda oficial tende a se manifestar, no entanto, em dimensão regional, em particular nas áreas no sul peruano, onde se concentram os movimentos campesinos e indígenas. Há também a oposição ideológica, representada por segmentos historicamente antifujimoristas, social, formada por coletivos atingidos por medidas impopulares, e política, advinda de partidos progressistas. “A esquerda deve apoiar pautas para a segurança e prevenção do El Niño e não obstruir. A Força Popular, por sua vez, deve obter consensos para ocupar a presidência da Câmara e do Senado”, diz o deputado José Baella, integrante de outro vetor da extrema-direita nacional, o Renovação Popular.
Embora sem maioria na Câmara e no Senado, Keiko Fujimori, que esteve presa preventivamente, acusada de lavagem de dinheiro e outros delitos, entre 2018 e 2020, parece menos exposta a processos de impeachment responsáveis por sucessivas trocas de presidentes nos últimos dez anos ao contar com uma bancada experiente e aliados em diferentes esferas do aparato público, incluindo órgãos fiscalizadores e de inteligência. “Trata-se da presidente com mais poder dos últimos 40 anos, mais que seu próprio pai, inclusive. As instituições estão tomadas por gente nomeada por seu bloco parlamentar, os maiores meios de comunicação estão a seu lado. A diferença é que antes governava na sombra e agora o fará do palácio de governo”, analisa Eloy Marchán, diretor do portal de notícias El Foco, preocupado com uma nova etapa de hegemonia fujimorista. “Já vivemos num regime autoritário desde 2022, quando Dina Boluarte ordenou massacres no sul e houve um manto de impunidade sustentado pelo pacto mafioso liderado pela agora presidente. O risco agora é esse cenário piorar”, prossegue o jornalista, antes de sublinhar que a nova presidente obteve apenas 17% no primeiro turno, demonstração de fragilidade da democracia representativa, e só venceu devido aos votos de peruanos que vivem no exterior.
Do ponto de vista geopolítico, o momento é favorável à eleita, diante da onda reacionária na América do Sul, à exceção de Brasil e Uruguai. Entre seus pares e aliados estratégicos confirmaram presença na posse os dirigentes de Argentina, Equador, Chile e Paraguai. O Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve representar o Brasil. “Nossa mandatária está atrelada aos interesses dos EUA e sua doutrina de tratar a América Latina como quintal. Entretanto, não poderá ignorar que a China é nosso principal parceiro comercial em produtos minerais e agrícolas e investe em empreendimentos estratégicos como o Porto de Chancay. O problema está posto”, provoca o engenheiro Efraín Arana.
Entre disputas internas e externas e o debate sobre o legado familiar, mais uma vez, pelos próximos anos, o fujimorismo permanecerá no centro da política e dos destinos da sociedade peruana. “Keiko poderia se diferenciar de seu pai eliminando benefícios tributários à agroindústria, diversificando a matriz produtiva e evitando o extrativismo, mas tudo indica o caminho contrário, com o aprofundamento do assistencialismo e de projetos minerais, além da venda das empresas estatais ainda existentes e a tentativa de reescrever a história borrando o pouco que se avançou em termos de memória coletiva”, lamenta o professor Dionel Martínez. •
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fujimorismo de saias’
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