Cultura

assine e leia

A montanha como testemunha

A escritora uruguaia Fernanda Trías usa o tom mítico para narrar o cotidiano incomum de uma mulher que vive isolada

A montanha como testemunha
A montanha como testemunha
Reconhecimento. A autora venceu o Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz – Imagem: Redes Sociais
Apoie Siga-nos no

Nascida em um país sem montanhas, o Uruguai, onde predominam as planícies dos pampas, a escritora Fernanda Trías escreve sobre a altitude no romance A Montanha das Fúrias, vencedor do Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz. A autora já havia vencido o mesmo prêmio por Gosma Rosa (Moinhos, 2022).

Deixando o relevo plano para viver em Bogotá, na Colômbia – país atravessado pela Cordilheira dos Andes –, Fernanda embarca no gótico andino para narrar a relação simbiótica entre uma solitária vigia e a montanha.

Em meio à névoa, a personagem passa os dias fazendo a manutenção de uma casa mofada, cuidando de uma horta para subsistência e reparando uma cerca junto ao monte. “Tenho bastante trabalho”, ela costuma responder ao zelador que vive mais abaixo, vigiando a estrada. As memórias de sua vida pregressa abrem a possibilidade de compreensão de que ela está ali de favor: uma retribuição da antiga patroa de sua mãe, que foi empregada doméstica.

O livro intercala essas memórias e capítulos que a protagonista escreve em cadernos, em primeira pessoa. Há, ainda, trechos sobre a montanha em tom mítico: “A primeira lembrança é preta. Não preta como a noite, que contém a iminência do dia, nem preta como o descanso do adormecido, que teme os sonhos, mas um preto compacto, desprovido de dobras e fissuras. (…) É a lembrança mais antiga da montanha. Depois há outras: a montanha lembra de quando era o centro da Terra”.

Não é por acaso que uma das epígrafes selecionadas por Fernanda para o começo do romance tenha sido retirada do Popol Vuh (UBU, 2023), livro sagrado da mitologia maia: “Será que sob as árvores e arbustos só deve haver esse zumbido mudo, esse silêncio? Ora, não seria melhor que tivessem guardiões?”. A escolha anuncia que estamos diante de um livro sobre esses guardiões.

A Montanha das Fúrias. Fernanda Trías. Tradução: Marina Waquil. Instante (280 págs., R$ 79,90)

A protagonista sem nome convive com poucas pessoas que sobem a montanha: o zelador, Raimondi, e duas missionárias testemunhas de Jeová que tentam convertê-la. É com Raimondi que consegue construir algum vínculo, mesmo que bruto. Eventualmente, ela aceita os convites para assistir à televisão com ele.

O aparelho nem sempre sintoniza. Mas é por meio da programação da tevê que conseguimos obter pistas sobre o tempo em que se passa a narrativa, intencionalmente marcada por certa atemporalidade – algo condizente com o tom mítico.

Uma das pistas é dada pelo filme A Avalanche (1978). Se ele estava sendo exibido na televisão naquele momento, é possível supor que a história se localize no início dos anos 1980.

Há, porém, outro elemento do enredo – talvez o mais relevante – que colabora para a dedução. Pessoas mortas passam a ser abandonadas na montanha, e seus corpos são encontrados pela protagonista. Com marcas de violência, eles remetem ao contexto das guerrilhas e do narcotráfico daquele período na Colômbia.

O primeiro corpo é enterrado com a ajuda do zelador. Os seguintes, ela enterra sozinha. No caderno, mantém um mapa dos corpos para que não se esqueça de onde estão. Alguns são fotografados com filmes jamais revelados.

Ela encara os enterros como uma obrigação silenciosa que alimenta a montanha. A montanha exerce fascínio sobre a “montanheira”, como é chamada a vigilante, que experimenta uma espécie de delírio.

A montanha como uma testemunha, um ser não-humano, dialoga com a obra da antropóloga peruana Marisol de La Cadena e o seu Seres-terra (Bazar do Tempo, 2024), sobre as cosmopolíticas em mundos andinos. “A montanha sabe que é eterna, embora também vá morrer um dia. Quanto tempo levará para voltar a ser plana e árida como o deserto?”, escreve Trías. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa


Os bilionários e a maneira pela qual a ficção científica moldou suas ideias a respeito das possíveis formas de se salvar o mundo são a matéria-prima de Ficção Científica Capitalista (Ubu, 128 págs., 64,90 reais), ensaio provocador do filósofo argentino Michel Nieva.

São quase todos de origem familiar os mais de 30 estabelecimentos reunidos no Guia da Culinária Imigrante de São Paulo (Bela Vista Cultural, 120 págs., 70 reais), que acaba por ser tanto um livreto de serviço quanto um retrato da diversidade gastronômica da cidade.

Em Incendeie Meu Coração (DBA, 216 págs., 82,90 reais), Izumi Suzuki, ex-atriz e modelo, nos leva, por meio de textos que remetem a crônicas, ao mundo underground de Tóquio e ­Yokohama nos anos 1970, onde havia “coisas que só quem viveu entende”.

Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A montanha como testemunha’

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo