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Opção pela morte

Enquanto as guerras consomem trilhões de dólares, faltam recursos para comprar antirretrovirais e contraceptivos nas nações em desenvolvimento

Opção pela morte
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A dependência de doações governamentais deixou de ser uma estratégia viável – Imagem: Phill Magakoe/AFP
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Ao sediar a 26ª Conferência Internacional Aids 2026, no Rio de Janeiro, o Brasil recebe milhares de ativistas, cientistas e formuladores de políticas públicas em torno de uma pergunta que ecoa nas Nações Unidas: onde está o dinheiro para garantir direitos? A questão expressa a realidade de milhões de habitantes que dependem dos sistemas de saúde para acessar prevenção, testagem, tratamento contínuo e serviços de saúde sexual e reprodutiva. Embora a ciência tenha desenvolvido tecnologias capazes de reduzir drasticamente a transmissão do HIV, o acesso continua limitado. O principal obstáculo não é a falta de conhecimento, mas escolhas fiscais e geopolíticas que definem prioridades. Falta responsabilidade de quem controla os recursos para mudar esse cenário.

Os números evidenciam essa contradição. O mundo nunca produziu tanta riqueza, mas os recursos destinados à Assistência Oficial ao Desenvolvimento, mecanismo criado pela OCDE para mensurar a ajuda externa aos países de menor renda, estão em queda, sobretudo nos programas voltados à promoção da saúde sexual e reprodutiva. Governos do Norte Global alegam restrições orçamentárias, mas as despesas militares crescem há mais de uma década e atingiram o recorde de 2,7 trilhões de dólares em 2024, segundo o Stockholm International Peace Research Institute­. Neste mesmo ano, nações de baixa e média renda enfrentaram um déficit de 3,2 bilhões de dólares na resposta ao HIV, de acordo com estimativa da Unaids, agência das Nações Unidas dedicada ao combate à doença.

Ou seja, uma fração do que se destina diariamente à guerra seria suficiente para garantir, durante anos, estoques de antirretrovirais e métodos contraceptivos a países inteiros da África Subsaariana, da América Latina e do Oriente Médio. Trata-se de uma escolha moral: investem-se quantias astronômicas na destruição enquanto faltam recursos para salvar vidas. Essa desigualdade afeta principalmente segmentos historicamente marginalizados, como mulheres jovens, trabalhadoras sexuais, pessoas trans, usuários de drogas e moradores de comunidades periféricas. Essas populações seguem vulneráveis ao avanço de doenças que hoje podem ser prevenidas e tratadas.

Uma ínfima fração dos gastos militares globais cobriria o déficit de 3,2 bilhões de dólares na resposta ao HIV em países de baixa e média renda

Diante da retração do financiamento global, a Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF) participa da Conferência com uma delegação de mais de 150 representantes e apresenta o relatório Sustaining SRHR in a Changing ­Financing Landscape (“Sustentando Direitos e Saúde Sexual e Reprodutiva em um Cenário de Financiamento em Mudança”). O documento mostra que a dependência exclusiva de doações governamentais tradicionais deixou de ser uma estratégia viável. É necessário criar mecanismos financeiros sustentáveis, eficazes e alinhados aos direitos humanos e à descolonização do desenvolvimento.

Entre as alternativas analisadas estão mecanismos como a conversão de dívida em investimentos para a saúde, em que parte da dívida externa é convertida em recursos para programas nacionais de HIV e saúde pública. O documento também menciona as garantias de volume, que reduzem o custo de medicamentos por meio de compras em larga escala; os modelos de financiamento baseados em resultados, como títulos de impacto social; formas inovadoras de tributação destinadas à saúde sexual, reprodutiva e de gênero; e o financiamento coletivo para fortalecer projetos geridos pelas próprias comunidades.

O Brasil, reconhecido por construir um dos programas de enfrentamento ao HIV mais humanizados e bem-sucedidos do mundo, tem a oportunidade de liderar o debate sobre justiça financeira global durante a Conferência. Não é aceitável que a austeridade fiscal seja usada como justificativa quando estão em jogo a vida e os direitos de populações historicamente vulnerabilizadas. O financiamento da resposta ao HIV não é apenas um tema técnico ou econômico: cada redução de recursos e cada transição financeira mal planejada significam mais infecções, diagnósticos tardios e mortes evitáveis.

Durante o evento, a delegação da IPPF discutirá esses desafios na Pré-Conferência Oficial, no painel Rethink, ­Rebuild, Rise – SRHR/HIV Integration and ­Community Leadership in a New Funding Era (“Repensar, Reconstruir, Ascender – Integração de Saúde Sexual e Reprodutiva e HIV e Liderança Comunitária em uma Nova Era de Financiamento”), e na sessão aberta do Global Village Where is The Money to HIV and AIDS (“Onde Está o Dinheiro para o HIV e a Aids”).

Depois de mais de quatro décadas de enfrentamento da epidemia, o mundo já sabe como vencer a Aids. O que falta é vontade política para tratar a saúde pública como um investimento essencial para a paz, o desenvolvimento e a dignidade humana. Se há recursos para sustentar guerras, não há justificativa para a falta de recursos destinados à proteção da vida de milhões de habitantes. •


* Alessandra Nilo é jornalista, especialista em Agenda 2030 e diretora de Relações Externas da Federação Internacional de Planejamento Familiar para a Região das Américas e Caribe (IPPF/ACRO). Micah Grzywnowicz é natural da Polônia, mestre em Direitos Humanos pela Universidade Central Europeia e diretor da IPPF para a Europa.

Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Opção pela morte’

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