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Entre o amor e o império
O Brasil tem reagido bem à agressão estadunidense, sem se dobrar às ordens imperiais, que apenas visam a escravizar nosso povo e roubar nossas riquezas
“Se sou amado, quanto mais amado mais correspondo ao amor. Se sou esquecido, devo esquecer também, pois amor é feito espelho: tem que ter reflexo.”
Pablo Neruda
Isso não é simples de ser feito, mas discernir é necessário, ainda que muitas vezes comporte dor.
A gente se bate, quebra dentes e óculos, pois o inconsciente, fonte última do amor, rebela-se contra a razão. Entretanto, esta tem de prevalecer.
Aprender a amar é uma arte, como bem definira o psicanalista alemão Erich Fromm.
Desamar também é arte, mas envolve luta, do pior tipo: consigo próprio; requer humildade e renúncia até o limite, principalmente para sair de cena, como faziam as mulheres coreanas — de costas, dando a impressão de que entravam.
Tanto vale para as pessoas quanto para os países.
Pisar de leve o chão da coxia — para entrar e sair do palco.
Em Futuro Ancestral (Companhia das Letras), Ailton Krenak cita uma fala atribuída ao chefe Seattle, dirigida a um representante armado de Washington:
“Eu sei, você chegou aqui e se assenhorou de tudo, provavelmente o seu Deus te constituiu agora como o novo dono e você vai ter o domínio sobre todas essas coisas, mas ensina teus filhos a pisarem suavemente sobre a Terra, ensina-os a amarem essa brisa da montanha e reconhecerem o voo da águia, pois, se vocês não aprenderem isso, um dia vão despertar imersos em seu próprio vômito.”
Em chave diversa, Bell Hooks, em Tudo sobre o Amor (Elefante), aborda o tema sob outra perspectiva: enfrentar o medo.
“…temos de ser corajosos. Aprender como encarar nossos medos é uma das formas de abraçar o amor. Talvez nosso medo não vá embora, mas já não ficará no caminho.”
Novamente, isso vale tanto para as relações interpessoais quanto para as internacionais.
O Brasil tem reagido bem à agressão estadunidense, sem se dobrar às ordens imperiais, que apenas visam a escravizar nosso povo e roubar nossas riquezas.
Hooks, em apoio à sua tese, cita a Primeira Epístola de São João:
“Não há temor no amor; ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica um castigo, e o que teme não chegou à perfeição do amor.”
A autora também cita o pai da psicologia analítica, Carl Gustav Jung:
“Onde o desejo de poder é primordial, o amor estará ausente.”
No entanto, o ego demanda poder, pois esse é seu domínio.
Ainda uma vez, isso vale para as relações entre pessoas como para aquelas entre países.
Nesse sentido, o Brasil deu um grande passo ao anunciar a criação do Conselho de Política Externa — CONPEB.
Trata-se de uma instância absolutamente necessária, de forma a permitir a participação da sociedade civil na formulação, execução e monitoramento da política externa brasileira, lembrando que política pública boa é política pública participativa.
De fato, o Itamaraty tem uma tradição de bons serviços prestados ao país, mas, como lembrara o Papa Francisco, citando o compositor Gustav Mahler:
“A tradição não é o culto às cinzas, mas a preservação da chama.”
Para isso, faz-se necessária a participação dos entes subfederados, como estados e municípios; representantes do empresariado, dos trabalhadores e trabalhadoras e da sociedade civil em geral, que, no Brasil, é extremamente plural.
Bell Hooks cita, também com muita propriedade, Thomas Merton, lembrando que:
“Amar é nosso verdadeiro destino. Nós não encontramos o significado da vida sozinhos, por conta própria — nós o encontramos com os outros.”
Por isso, ter um conselho para tema tão relevante e sensível quanto a política externa, que trata do nosso relacionamento com os demais países e nações, é de extrema importância, principalmente na atualidade, em que o império chegou a tal nível de decadência que é dirigido por um pedófilo, corrupto até a medula, desprovido de todo e qualquer traço de ética ou moral.
Em Papa Francisco – A autobiografia (Fontanar), o falecido Papa nos recordava:
“É preciso saber sonhar e saber arriscar na vida: a vida é luta, é recusar o compromisso eterno da mediocridade.”
Convenhamos, não é fácil. Fechar-se em certezas rasas é confortável. Não exige muita reflexão nem capacidade de se abrir para o novo, o desconhecido, o diferente.
Cito o exemplo da brasileira Vanda Pignato, ex-primeira-dama de El Salvador.
Acusada de corrupção, resistiu e foi absolvida.
Detentora de imensa popularidade pelas ações empreendidas como secretária de Estado, promoveu o acesso das mulheres e da população LGBTQIAPN+ a políticas públicas, indo da atenção à saúde até a empregabilidade, passando pela proteção, promoção e provisão de direitos políticos e sociais aos mais empobrecidos e marginalizados.
Na obra antes citada, Ailton Krenak faz uma belíssima digressão sobre a alteridade e sua potência, quando somos capazes de reconhecê-la e acolhê-la, como Vanda fez:
“…atinei pela primeira vez para o conceito de alianças afetivas — que pressupõe afetos entre mundos não iguais. Esse movimento não reclama por igualdade; ao contrário, reconhece uma intrínseca alteridade em cada pessoa, em cada ser, introduz uma desigualdade radical diante da qual a gente se obriga a uma pausa antes de entrar: tem que tirar as sandálias, não se pode entrar calçado.”
Tiremos, pois, as sandálias e busquemos o outro, quando for possível, e a nós próprios, sempre.
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