Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de 'O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital'

Colunas

Na metapolítica bolsonarista, sai a intervenção militar, entra a intervenção estrangeira

Diante da iminência de uma derrota eleitoral este ano, o bolsonarismo seguirá prometendo a Trump o que for preciso para que ele desempenhe o papel que as Forças Armadas se recusaram a consumar em 2022

Na metapolítica bolsonarista, sai a intervenção militar, entra a intervenção estrangeira
Na metapolítica bolsonarista, sai a intervenção militar, entra a intervenção estrangeira
O senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ). (Foto: Vitor Souza/AFP)
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Eleições 2026

Na medida em que se aproximam as convenções partidárias que confirmarão os candidatos às eleições de outubro próximo, já é possível vislumbrar um padrão nas movimentações de Flávio Bolsonaro. Ele parece, porém, paradoxal: quanto mais seu nome retroage nas pesquisas de intenção de voto, mais Flávio apela para intervenções do governo de Donald Trump, o que tem, por sua vez, gerado um efeito eleitoral prejudicial para ele e positivo para seu concorrente, o presidente Lula. Como explicar a insistência nessa aparente contradição?

Quando nos deparamos com um paradoxo persistente, o que normalmente temos que fazer é mudar o nível de análise sobre a situação. E Flávio Bolsonaro herdou do pai um modus operandi que tem uma lógica própria, mas que nem sempre fica clara quando olhamos apenas a partir da lógica convencional da política. Como venho argumentando, a extrema direita no Brasil, assim como em outros países, funciona sempre em dois níveis. Além do político, há um outro, mais fundamental, para o qual aproprio um termo da “nova direita” francesa: a metapolítica.

Funciona assim. A frente política, que se mantém nos holofotes da imprensa e das redes sociais, é o “plano A”, que age, ou pelo menos finge agir, dentro das normas: ocupando partidos, disputando eleições, participando do debate público. É a face que boa parte da imprensa chama de moderada: o bolsonarismo que “come com garfo e faca”, que a direita liberal e financeira crê conseguir controlar. Já a frente metapolítica é o “plano B” : golpista, disruptivo, conspira nos bastidores da política e nas sombras dos espaços digitais fechados da internet.

Quando a frente política dá sinais de fraqueza, como agora, eles dobram a aposta na frente metapolítica. O contrário, porém, não é verdadeiro. O objetivo último da extrema direita, mesmo quando ela faz política através das instituições, é metapolítico: não disputar projetos de país dentro da política democrática, mas disputar o próprio significado da democracia, corroendo-a por dentro e gradualmente transformando-a no seu contrário.

Foi assim nas últimas eleições presidenciais. O campo de batalha metapolítico também começou a ser preparado com bastante antecedência, desde que os públicos bolsonaristas mudaram o registro do conspiracionismo pandêmico para o eleitoral, em meados de 2021. Com o cancelamento das condenações de Lula em março daquele ano, o campo bolsonarista passou a ver o caminho para as eleições como passos de um roteiro pré-determinado: a fraude que roubaria a reeleição de Jair Bolsonaro. Esse processo foi sustentado durante mais de um ano por sucessivas ondas desinformativas: da pauta legislativa do voto impresso à descredibilização de pesquisas e instituições eleitorais. Tudo o que fizeram no sentido de forçar um golpe de Estado foi, do seu ponto de vista invertido, um contragolpe para defender a “verdadeira” democracia da “ditadura” do STF e da esquerda.

O sucesso da inciativa parou, contudo, no suposto “poder moderador” que seria o último avalizador da insurreição bolsonarista: as Forças Armadas brasileiras. Como sabemos, dois dos comandantes não cederam à pressão dos políticos, dos acampamentos e das redes sociais, negando-se a consumar a conspiração. Houve, ainda, a movimentação mais silenciosa, porém crucial, de outro avalizador metapolítico: os governos internacionais, e em especial o estadunidense. O reconhecimento imediato da vitória de Lula pelo então presidente democrata Joe Biden teve, possivelmente, um peso na decisão dos próprios comandantes das forças.

Este ano, a situação é bem diferente. Por um lado, as Forças Armadas foram defenestradas pelo bolsonarismo como “melancias” – verdes por fora, vermelhos por dentro – com quem não se pode contar para deformar as “quatro linhas” da Constituição para fazer caber a vontade dos bolsonaristas, e não os votos nas urnas. Já no plano internacional a situação se inverteu: não apenas há um presidente de extrema direita nos EUA, como ele já mostra sinais de que fará de tudo para se manter no poder, mesmo com um eventual fracasso nas eleições de midterm em novembro próximo. Central ao projeto trumpista de reverter a decadência geopolítica, comercial e tecnológica dos EUA perante a ascensão da China tem sido a retomada neocolonial da América Latina através da “Doutrina Donroe”.

A família Bolsonaro viu, aí, uma oportunidade para si. Seu “núcleo de Washington” vem, há meses, fortalecendo a frente metapolítica junto ao governo Trump, para que este atue para influenciar ou mesmo definir as eleições presidenciais deste ano. Embora não seja possível prever a movimentação precisa de todas peças até lá, o tabuleiro com os caminhos para uma eventual intervenção já está montado: da guerra de tarifas à classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas, ao gigantesco aparato de influência invisível operado pelas big techs, suas plataformas e algoritmos.

O mais trágico desse cenário é que a movimentação metapolítica do bolsonarismo e de seus aliados no Centrão não objetiva tomar o poder para implementar um projeto – de direita, que seja – para o país. Seus objetivos são pequenos, comezinhos e privados: seguirem enriquecendo às custas do Estado e escaparem da responsabilização criminal por isso. Seu suposto patriotismo não é ideológico, mas parte de uma confortável posição “realista”: de que o Brasil é e sempre será um país fraco e subalterno, valendo mais a pena se colocar sob a dependência e proteção de uma potência mais forte. Como, para eles, um Brasil soberano e autônomo não é uma opção, entre EUA e China, eles ficam com o primeiro.

Esse realismo viralatista, e a abdicação de responsabilidades que ele implica, ficou evidente nas movimentações e falas dos filhos de Jair no último ano, como na proposta vergonhosa de Flávio Bolsonaro de que o governo Trump participasse de uma eventual transição de governo no Brasil. Transparece também na covardia orgulhosa de Eduardo Bolsonaro, que admitiu celebrar uma eventual “terra arrasada” porque “assim, pelo menos, eu estarei vingado”; ou sua comparação da situação do Brasil atual com a do Japão durante a Segunda Guerra – que, após ser atacado em Hiroshima, teria recebido outra bomba por não ter se submetido aos Estados Unidos.

Essas e outras declarações, para além da sua implausibilidade histórica e legal, dizem muito sobre o falso patriotismo da direita brasileira. Os EUA lançaram as bombas atômicas no Japão para demonstrar força perante a União Soviética e acelerar sua vitória a qualquer custo, ou poderiam ser julgados por crimes de guerra – no lugar disso, lograram sair como arautos de uma “guerra justa”. Essa aposta na radicalização faz sentido numa disputa metapolítica como a guerra, pois, uma vez ela encerrada, a visão dos vencedores inverterá a seu favor todos os fatos, causalidades e responsabilidades. No mesmo sentido, se consumado, o golpe bolsonarista de 2022 teria sido reescrito, retrospectivamente, como um “contragolpe” que salvou o Brasil de uma ditadura esquerdista.

Trata-se, portanto, de disputa pelo tudo ou nada, pela qual vale arriscar tudo – inclusive nossa economia, recursos naturais e soberania. É por isso que, diante da iminência de uma derrota eleitoral este ano, o bolsonarismo seguirá dobrando sua aposta metapolítica: prometendo a Trump o que for preciso para que ele desempenhe o papel que as Forças Armadas se recusaram a consumar em 2022. Sai a intervenção militar, entra a intervenção estrangeira: em 2026, a ameaça golpista não só permanece intacta, mas tornou-se muito mais perigosa para o Brasil.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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