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Seu treino sabe quando você está sem vontade?
Inteligência artificial criada por empresa brasileira foca no humor e na disposição do usuário para auxiliar na criação do melhor plano esportivo para cada indivíduo
Por Clarissa Palácio
Se uma única palavra pudesse ser usada para definir qual a fórmula mágica para que um plano de emagrecimento ou de melhora na saúde física funcione, essa palavra seria constância. Mas é difícil garantir que uma pessoa que trabalha, estuda, cuida dos filhos, passa horas no trânsito, precisa cuidar da casa, responder e-mails, preparar a janta e tantas outras demandas, ainda tenha pique para ir à academia com a frequência necessária.
Essa perspectiva piora quando seu cronograma de treino é massificado e desmotivador. Não é à toa que mais de 60% das pessoas que interrompem os treinos e abandonam as academias o fazem por puro desconforto com o ambiente de estúdios e academias ou sob a justificativa de falta de tempo, segundo panorama setorial da FITNESSBRASIL em relatório publicado em 2026.
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Foi olhando para essa deficiência do mercado que a ZiYou criou a Zoey: uma inteligência artificial que cria sessões personalizadas em tempo real a partir da combinação entre tecnologia, dados comportamentais e ciência do exercício, individuais para cada usuário. “Percebemos que a vida real não funciona como uma planilha e que as pessoas têm dias mais corridos, mais cansativos ou mais motivados. A Zoey nasce justamente da tentativa de construir uma experiência de treino que respeite essa dinâmica”, afirma Rafael Uliani, chefe de produtos da ZiYou e especialista no mercado esportivo.
Academia em casa
A ZiYou é uma fitness tech brasileira que vende e aluga equipamentos de diferentes modalidades esportivas de marca própria, além de um aplicativo de aulas on demand. Fundada por Marcio Kumruian, também cofundador e CEO da Netshoes, a marca nasce devido a uma visão clara do mercado. “Fazia todo sentido que as pessoas incorporassem a atividade física de forma simples às suas rotinas, tendo acesso a equipamentos feitos sob medida e com tecnologia, sem necessariamente precisarem adquiri-los, contando ainda com uma experiência completa ao redor desse equipamento”, afirma Uliani.
Ele tem razão: segundo dados oficiais mais recentes do Vigitel Brasil 2023, divulgados em 2024, a porcentage, de adultos fisicamente ativos no tempo livre passou de 30,3% em 2009 para 40,3% em 2023. Além disso, o mercado de equipamentos inteligentes para fitness deve aumentar seu lucro de US$ 61,4 bilhões (R$ 314,3 bilhões) em 2024 para mais de US$ 455 bilhões (R$ 2,3 trilhões) em 2034.
Mas ainda existia um desafio: mesmo com aulas, informações e equipamentos disponíveis, havia a dificuldade de manter uma rotina consistente de exercícios por parte dos clientes. “Ao estudar o comportamento do home training, identificamos pessoas que enxergam o exercício como um momento que pode ser conciliado com outras experiências, como assistir a filmes, acompanhar cursos em vídeo ou consumir conteúdos de interesse. Isso nos levou a uma nova pergunta: como oferecer direcionamento, progressão e personalização sem exigir que o usuário abra mão dessas atividades? A Zoey nasce justamente dessa necessidade”, comenta Rafael.

Créditos: Divulgação
Legenda: Rafael Uliani, chefe de produtos da ZiYou e especialista no mercado esportivo
Tecnologia e saúde lado a lado
A tecnologia foi desenvolvida pela própria ZiYou em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), responsável pelo suporte científico nas etapas de pesquisa, testes e refinamento da inteligência artificial. Na prática, a Zoey cruza informações sobre o perfil físico do usuário, seus objetivos e uma base científica construída a partir de estudos sobre atividade física para montar sessões personalizadas em tempo real. Além desses fatores, a inteligência artificial também considera aspectos que mudam diariamente, como disposição, humor, tempo disponível para treinar e o histórico de atividades na plataforma.
A experiência acontece diretamente nos equipamentos conectados ao aplicativo: a IA conduz o aquecimento, o treino principal e o encerramento por meio de orientações em voz e texto, enquanto monitora a intensidade do exercício por uma escala de percepção de esforço de 0 a 10, identificada por cores. Conforme o usuário evolui e cria uma rotina, as recomendações são ajustadas automaticamente. O sistema ainda permite que o treino seja conciliado com outras atividades, como assistir a filmes, séries ou vídeos no celular ou tablet durante os exercícios.
A inserção de uma IA no clube de treinos da ZiYou não é surpresa, visto que a tecnologia sempre esteve presente como um dos pilares da marca. Rafael conta que “em um primeiro momento, ela estava concentrada na plataforma que viabiliza a oferta do equipamento como serviço. Agora, ela evolui para a construção da experiência de uso desse equipamento dentro da casa do cliente. Desde o início, a empresa foi concebida com a ideia de reduzir as barreiras que fazem as pessoas abandonarem a atividade física, levando o equipamento para dentro de casa e tornando o acesso ao exercício mais simples”.
Planejado para a vida real
Quando a Zoey começou a ser desenvolvida, o maior problema humano que a empresa buscava resolver não era a falta de condicionamento físico. “A principal questão sempre foi a aderência. O condicionamento é uma consequência da continuidade. Ao observar o comportamento dos usuários, percebemos que muitas pessoas não abandonam a atividade física somente por falta de interesse, mas porque os modelos tradicionais de treino nem sempre se adaptam à realidade delas. A tecnologia entra justamente para criar um treino possível para aquele momento, sem perder o objetivo de longo prazo”, explica Rafael.
Segundo ele, mais do que entregar uma sessão personalizada, a Zoey foi desenvolvida para transformar a relação das pessoas com o exercício, tornando o treino mais flexível, mais inteligente e mais compatível com a vida real. “Acreditamos que a inovação não está apenas em usar tecnologia, mas em utilizá-la para aumentar a constância, reduzir barreiras e ajudar as pessoas a permanecerem em movimento”, complementa.

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Legenda: A IA conduz o aquecimento, o treino principal e o encerramento por meio de orientações em voz e texto, enquanto monitora a intensidade do exercício por uma escala de percepção de esforço
Afinal, não é todos os dias que você vai acordar cheio de vontade de praticar um exercício físico – mas, como falei no começo do texto, a única solução para que uma rotina de exercícios faça efeito é a constância. A Zoey também facilita a resolução de situações como essa: “ela considera as informações fornecidas pelo usuário naquele momento, como humor, tempo disponível e objetivo, além do histórico recente de treinos e até mesmo da existência de algum desconforto específico informado pelo usuário. A partir dessas informações, ela sugere uma sessão compatível com aquela realidade. Em alguns casos, pode propor um treino mais curto ou com intensidade ajustada”, explica Rafael.
Ele ainda defende que um plano ideal que não é executado perde sua eficiência, enquanto uma rotina adaptável tende a ser mais sustentável. “Isso fica muito evidente quando observamos pessoas que só conseguem manter uma rotina de exercícios após contratar um personal trainer. Não é apenas pelo compromisso criado com outra pessoa, mas também porque existe alguém capaz de entender como aquele aluno chega para treinar naquele dia e ajustar os estímulos de acordo com sua condição”, complementa.
As vantagens de contar com a IA
Os modelos tradicionais de inteligência artificial voltados para a construção de planos de saúde costumam trabalhar com informações estáticas, como idade, peso, condicionamento e objetivo. De acordo com Rafael, essas variáveis são importantes, mas não explicam como a pessoa chega para treinar em determinado dia. “A Zoey incorpora fatores que mudam diariamente, como disposição, humor, tempo disponível e o histórico recente de treinos realizados na ZiYou. Além disso, ela observa padrões de comportamento ao longo do tempo, entendendo como o usuário responde aos estímulos propostos e como sua rotina influencia a prática do exercício”, adiciona.
Em paralelo a isso, foi considerado o risco de a adaptação excessiva se transformar em complacência durante o desenvolvimento da tecnologia. Rafael explica que “a Zoey adapta a sessão ao contexto do usuário, mas continua trabalhando dentro dos objetivos estabelecidos e utilizando a percepção de esforço como referência. O papel da inteligência artificial não é facilitar o treino a qualquer custo, mas encontrar o estímulo mais adequado para aquele momento”. Por exemplo, se o usuário apresenta baixa disposição, pouco tempo disponível ou um nível elevado de esforço acumulado, a Zoey pode recomendar uma sessão mais curta ou menos intensa.

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Legenda: A tecnologia foi desenvolvida pela própria ZiYou em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), responsável pelo suporte científico nas etapas de pesquisa, testes e refinamento da inteligência artificial
Qualquer hora é hora
Rafael defende que, durante muito tempo, o desafio era convencer as pessoas de que elas precisavam treinar. Agora, o desafio é fazer com que o treino consiga acompanhar a realidade de cada uma delas.” Acreditamos que o futuro do fitness não será definido por quem consegue fazer mais, mas por quem consegue manter uma rotina de forma consistente, inteligente e sustentável”, ele diz.
A tecnologia surge como mais um passo para perto dessa realidade. “A tecnologia responde à pergunta de como construir uma solução. A academia responde por que aquela solução faz sentido. A parceria com a UFSCar trouxe rigor científico para o projeto, garantindo que as recomendações da Zoey fossem construídas com base na ciência do exercício e não apenas em padrões de comportamento”, comenta. A combinação entre tecnologia, comportamento humano e evidências científicas foi essencial para desenvolver uma experiência que fosse inovadora, mas também responsável.
A Zoey ainda é uma função nova no aplicativo ZiYou Club e, de acordo com Rafael, a marca está na fase de observar como os usuários interagem com essa nova experiência. Daqui para frente, a expectativa é que ela seja capaz de interpretar contextos, não substituindo profissionais da saúde e do esporte, mas reduzindo a distância entre a intenção de treinar e a prática efetiva. O objetivo? “Reduzir as barreiras do próprio dia a dia, ajudando cada pessoa a encontrar uma forma possível e sustentável de se manter em movimento”, finaliza.
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