Cultura
Inculta e bela
O professor Marcos Bagno dessacraliza a linguística e aborda o idioma como algo vivo e socialmente construído
A certa altura, em seu novo livro, o professor da Universidade de Brasília (UnB) e linguista brasileiro Marcos Bagno escreve de forma bem-humorada: “Para quem gosta de fonética (sim, nós existimos)…”. O que vem depois não importa aqui. O que interessa, neste caso, é notar o despojamento com que ele escreve.
A Língua que Pisou na Lua – A Longa Viagem do Indo-europeu é mais um exemplar, no cânone, de um escritor cuja obra é marcada pela dessacralização do idioma, abordando-o como se deve: como algo vivo e social e historicamente construído.
Bagno transforma o estudo da língua em algo acessível. Ele consegue removê-lo da urna dourada da academia.
Neste novo livro, Bagno se propõe a “investigar a etimologia de quase duas mil palavras do português, retrocedendo à sua fonte mais imediata, visível e documentada”. São mais de 200 páginas só nesse processo de vasculhar de onde vem o que e de que forma falamos.
Seria, em tese, um livro para estudantes de humanidades ou, quando muito, para entusiastas de etimologias, mas, nas mãos de Bagno, o estudo da linguística parece até cool. O que não é pouco.
No presente, aponta Bagno, “quase metade da população humana fala uma língua indo-europeia como idioma materno, o que faz dessa a família de línguas mais difundida e empregada no planeta”. Só isso já justificaria a publicação deste livro, mas o autor vai além.
A Língua que Pisou na Lua – a Longa Viagem do Indo-europeu. Marcos Bagno. Parábola (408 págs., 129 reais)
A maneira acessível como ele aborda a sociolinguística já é conhecida. Seu Preconceito Linguístico – O que É, Como se Faz, publicado em 1999, está na 56ª edição, e esta conta com 11 reimpressões. Ele advoga que “o problema não está naquilo que se fala, mas em quem fala o quê. Neste caso, o preconceito linguístico é decorrência de um preconceito social”.
A Língua que Pisou na Lua não deixa de reivindicar essa ideia, novamente, mas o faz por outros caminhos. Antes de colocar a mão na massa nos capítulos que tratam diretamente das etimologias – aqui divididas em dois grupos, o do abstrato e o do concreto –, o professor faz uma longa viagem histórica e cultural pelas origens da última flor do Lácio, inculta e bela.
É um caminho fascinante, com gráficos, mapas e ilustrações que, num primeiro momento, podem parecer desestimulantes, mas que recompensam quem não desiste dele.
Ao fim, Bagno nos permite compreender como se articulam o poder e as dinâmicas sociais e culturais no País. Com isso, nos faz entender também que a língua é fundamental caso queiramos transformá-lo. •
Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Inculta e bela’
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