Mundo
O mundo é um camarote vip
Enquanto os países ricos restringem o fluxo e a xenofobia cresce mesmo nas nações periféricas, os ultrarricos mudam-se como nunca
A violência contra imigrantes voltou a explodir na África do Sul no fim de junho, após um período de sete anos de calmaria. Os conflitos provocaram ao menos quatro mortes e a expulsão e fuga de milhares de estrangeiros sem visto de permanência. Protestos massivos nas principais cidades exigiam a deportação imediata de todos os ilegais, acusados de roubar os empregos dos nativos, em um país onde um terço da população está desempregada, e de agravar a violência e a pobreza. Segundo cálculos oficiais, há 3 milhões de migrantes no país, 4% dos habitantes. “Abahambe”, gritavam os manifestantes, enquanto queimavam carros, depredavam lojas e enfrentavam as forças de segurança. Trata-se da versão sul-africana para a expressão “volta para a tua terra”. A xenofobia, em especial contra os vizinhos africanos “pobres” do Malawi, Gana, Nigéria e Zimbábue, não é uma novidade. Desde o fim do apartheid, em 1994, ataques a imigrantes deixaram um saldo de 703 mortes, mas a historiadora Fezokuhle Mthonti enxerga um fenômeno diferente. “Desta vez…”, afirmou ao jornal britânico The Guardian, “…ela é bem financiada e legitimada pela cobertura da mídia sul-africana. Recebeu até mesmo reconhecimento e envolvimento do governo, com o presidente Cyril Ramaphosa reunindo-se e cumprimentando dois líderes dos protestos. É um novo momento.”
A migração também tem dominado as acirradas disputas eleitorais na América Latina, subcontinente que assiste à ascensão da ultradireita. Associar estrangeiros à violência, à vadiagem e à dependência de programas sociais que oneram quem paga tributos no país dominou, com sucesso, a agenda populista no Equador, Colômbia, Peru e Honduras. Uma das primeiras promessas cumpridas pelo presidente do Chile, José Antonio Kast, saudoso pinochetista empossado em março, foi a construção de um fosso com estética medieval no deserto para conter a entrada ilegal de peruanos e bolivianos e quem mais tentasse usar essa rota de entrada. As valas começaram a ser abertas antes do ultradireitista completar um mês no Palácio de La Moneda, terão 3 metros de profundidade, reforçadas por muros de 5 metros de altura, e se estenderão por 500 quilômetros. Ou mais, se o governo achar necessário. “Isto é apenas o começo”, celebrou Kast durante visita a um dos canteiros de obra na região de Arica. “Muitos quilômetros ficarão bloqueados, mas o mais importante são as pessoas ajudando com essas barreiras físicas. Isso não seria possível sem a colaboração do povo.” Como no caso da África do Sul, a desaceleração da economia, a alta da inflação e a sensação de insegurança impulsionam o ódio aos forasteiros, mesmo em países, a exemplo do Chile, notórios por exportar mão de obra. Socióloga com doutorado em Demografia e professora da Universidade Federal do ABC, Roberta Peres aponta um rescaldo do autoritarismo, que não é de agora, associado ao crescimento do novo radicalismo na periferia global. “A migração é, historicamente, pauta da extrema-direita. Sempre existiu como cortina de fumaça para a eleição de inimigos a serem combatidos”, avalia. O “rescaldo” autoritário atual, prossegue, se alinha “à culpabilização de todos os males personificados em migrantes. São eles os responsáveis pelo desemprego, pela pobreza, pela ineficácia dos serviços públicos e, especialmente no discurso contemporâneo, pela insegurança e pela violência urbana”.
O avanço da extrema-direita reacende, até em países pobres, o ódio ao estrangeiro
Em contrapartida, e não por acaso, o planeta assiste a um movimento inverso. Nunca nos tempos modernos houve registro de uma migração tão intensa de multimilionários, uma ínfima fração da humanidade que tem a seu dispor um extenso cardápio de opções de paraísos fiscais em diferentes partes do globo. Segundo levantamento da consultoria New World Wealth, 165 mil bilionários mudaram ou pretendem se mudar de país neste ano, contra 140 mil em 2025, recorde anterior. O movimento, informa o estudo, ganhou tração após a pandemia e é estimulado pela busca por menor carga de impostos, segurança jurídica (sic) e acesso a novos mercados. Esse petit comité que faz do mundo um playground movimenta 40 bilhões de dólares por temporada.
À força. O ICE intensifica a caça aos imigrantes sem documentos. Em uma semana, dois latinos foram assassinados por agentes da polícia migratória dos EUA – Imagem: Stephen Maturen/Getty Images/AFP
Um dos expoentes da odisseia dos bilionários é o magnata do Vale do Silício Peter Thiel, fundador do PayPal e da Palantir e ideólogo do ultraliberalismo. Em abril, Thiel anunciou a mudança, por ora temporária, para Buenos Aires, seduzido pela promessa do presidente argentino, Javier Milei, de transformar o país na pátria do libertarianismo global. “É um anarcocapitalista que encontra outro anarcocapitalista disposto a levar suas ideias à prática. E com resultados”, resumiu Milei sobre o novo “compatriota”. Antes de comprar uma casa ampla de seis quartos em Parque, área valorizada da capital argentina, Thiel havia tentado um “refúgio” dentro dos Estados Unidos. Em 2025, mudou-se da Califórnia para a Flórida, onde os impostos são menores e a regulação econômica, mais frouxa. Ele “sempre buscou uma rota de fuga”, afirmou à BBC Santiago Siri, autor do livro Tecnosapiens, sobre a nova ordem política imaginada pelos empreendedores das big techs. “Em um momento, era construir jurisdições em alto-mar para não pagar impostos. A Argentina faz parte do famoso exit que ele busca há muito tempo.” Parênteses: enquanto celebra a migração de Thiel, Milei anunciou a construção de uma cerca em Aguas Blancas, cidade ao norte na fronteira com a Bolívia, sob o pretexto de combater o tráfico de drogas e de seres humanos. A intenção era imitar o muro de Trump na divisa entre os EUA e o México, mas aparentemente, dada a falência argentina, faltou dinheiro para uma obra tão dispendiosa.
Nada fora do contexto, afirma Peres. “Em tempos de restrições cada vez maiores, a contrapartida é o incremento da seletividade migratória. Ou seja, os países impõem esses fatores para, no limite, escolher quem pode e quem não pode migrar”. Sob o governo Trump, os Estados Unidos têm levado essa política ao extremo. A caça de imigrantes sem green card continua implacável. Na segunda-feira 13, um colombiano de 26 anos foi morto por agentes do ICE, a polícia migratória no estado do Maine, o segundo assassinato em uma semana. Em paralelo, Trump estabeleceu um gold card de 5 milhões de dólares para quem quiser morar no país. A União Europeia, por sua vez, aprovou regras que permitem a integrantes do bloco incrementar o seu próprio ICE. Em meio a leis cada vez mais restritivas no continente, a Espanha destoa. O governo socialista de Pedro Sánchez anunciou a legalização de 500 mil estrangeiros, mas a decisão tem insuflado a xenofobia, em especial contra norte-africanos.
O endurecimento das regras de migração e o maior controle das fronteiras nos Estados Unidos e na Europa tendem a reforçar o fluxo dominante na migração global, os deslocamentos no Sul do planeta, principalmente entre vizinhos. As crescentes dificuldades em obter vistos nas nações desenvolvidas, diz William Laureano da Rosa, associado de proteção da Acnur, a agência para refugiados das Nações Unidas, leva a rotas mais curtas. Segundo ele, 65% dos 41 milhões de deslocados migraram para países vizinhos aos seus. Rotas antes famosas desapareceram e o fluxo de saída diminuiu em algumas localidades, o Brasil entre elas. “As migrações Sul-Sul não são movimentos transitórios, residuais ou irrelevantes. Ao contrário, são o resultado de três décadas de maior controle nas fronteiras, de aumento da seletividade migratória e de discursos autoritários e ultraconservadores”, afirma Peres.
No fim, a livre circulação só vale para quem pode pagar. •
Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O mundo é um camarote vip’
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