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Exportador de pedras…

…ou o Brasil vai aproveitar a oportunidade para fabricar o próprio futuro?

Exportador de pedras…
Exportador de pedras…
Projeto nacional. Transformar a riqueza dos minerais críticos em prosperidade depende da capacidade de reconstruir um Estado estrategista – Imagem: iStockphoto
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Por longo tempo, a riqueza brasileira esteve desconhecida, enterrada no subsolo. Quando conhecido, ouro, ferro, manganês, nióbio, petróleo e tantas outras commodities terminaram por moldar a inserção brasileira na economia mundial enquanto grande exportador de recursos da natureza e pequeno produtor de tecnologia.

Neste segundo quarto do século XXI, a revolução digital oferece ao Brasil uma oportunidade histórica para romper esse ciclo, uma vez que a geografia econômica mundial volta a favorecer países detentores de recursos naturais, como minerais estratégicos. A Inteligência Artificial, os data centers, os veículos elétricos, as turbinas eólicas, os satélites, os equipamentos médicos, a indústria aeroespacial e as tecnologias de defesa dependem crescentemente de minerais críticos, cuja disponibilidade tornou-se uma questão de segurança nacional para as grandes potências.

Nesse novo mapa do poder global, poucos países reúnem condições tão privilegiadas quanto o Brasil. Além de uma das maiores reservas de terras-raras do planeta, o País dispõe de lítio, grafita, nióbio, manganês, cobre, níquel, cobalto e outros minerais indispensáveis à infraestrutura tecnológica do século XXI. Não se trata apenas de riqueza mineral. Trata-se de uma vantagem geopolítica que poucas nações possuem simultaneamente.

O mundo deixou para trás a disputa pelo petróleo como eixo exclusivo do desenvolvimento. A nova corrida internacional ocorre em torno dos minerais que alimentarão a Inteligência Artificial, a ­computação de alto desempenho, a economia de baixo carbono e a indústria da defesa. Quem controlar essas cadeias produtivas dominará parte significativa da economia mundial nas próximas décadas. Mas possuir riqueza mineral não significa, automaticamente, produzir riqueza nacional. A história brasileira é uma demonstração eloquente dessa diferença, pois exportou-se ouro sem desenvolver uma política nacional, assim como no comércio externo com café sem liderar a industrialização mundial, enquanto vende-se minério de ferro concomitante com a importação de máquinas. Atualmente, corre-se o risco de exportar os minerais da Inteligência Artificial para continuar importando a própria IA. O Brasil possui enorme potencial geológico, embora ainda careça de uma estratégia consistente para construir uma cadeia produtiva integrada, da mineração à produção de materiais avançados e tecnologias de alto valor agregado.

Mais do que um roteiro operacional, falta ao País uma verdadeira teoria da transformação econômica. Essa, talvez, seja a questão central, pois as terras-raras não representam apenas uma política mineral, mas a própria política nacional de desenvolvimento. O desafio não consiste em retirar minerais do solo. Consiste em transformar recursos da natureza em inteligência produtiva sustentável. Isso exige planejamento de longo prazo, estabilidade institucional e capacidade de coordenação do Estado.

No novo mapa do poder global, poucos países reúnem condições tão privilegiadas quanto nós

Nenhum dos países que hoje lideram as cadeias globais de minerais estratégicos chegou a essa posição exclusivamente pela força do mercado. Todos combinaram planejamento público, política industrial, investimento em pesquisa, financiamento de longo prazo e forte articulação entre universidades, centros tecnológicos e empresas. A nova economia do conhecimento não elimina o Estado. Ao contrário, exige um Estado ainda mais qualificado. É ele quem organiza os investimentos de risco, coordena políticas industriais, protege tecnologias estratégicas, forma recursos humanos altamente especializados e cria condições para que a inovação floresça.

No caso brasileiro, isso significa integrar mineração, universidades, institutos de pesquisa, indústria de transformação, engenharia de materiais, química fina, Inteligência aArtificial e financiamento público em uma única estratégia nacional. Não basta extrair terras-raras. É preciso dominar a separação química, a metalurgia, a fabricação de ligas especiais, os ímãs permanentes, os componentes eletrônicos e as aplicações industriais de alta complexidade. É nessa etapa que reside a verdadeira riqueza.

Mais importante ainda, trata-se de uma oportunidade para redefinir o próprio projeto nacional de desenvolvimento. A economia digital recoloca a ciência, a tecnologia e a inovação no centro da disputa internacional. Países capazes de transformar o conhecimento em produção ganham produtividade, empregos qualificados e soberania tecnológica. Aqueles que permanecerem especializados apenas na exportação de recursos da natureza tendem a continuar dependentes das decisões tomadas nos grandes centros tecnológicos do mundo.

O Brasil reúne condições excepcionais para escolher um caminho diferente. Sua biodiversidade, matriz energética relativamente limpa, base científica, parque universitário e a extraordinária dotação de minerais estratégicos constituem uma combinação rara no cenário internacional. Poucos países dispõem de ativos tão complementares para liderar a transição tecnológica e ecológica do século XXI.

A verdadeira questão, portanto, não é geológica. É política, pois transformar essa riqueza potencial em prosperidade depende da capacidade de reconstruir um Estado estrategista, capaz de articular planejamento nacional, política industrial, investimento em ciência, inovação tecnológica e desenvolvimento regional. As terras-raras podem representar muito mais do que uma nova ­commodity. Podem marcar a passagem definitiva do Brasil de exportador de recursos naturais para produtor de conhecimento, tecnologia e soberania. Essa talvez seja a maior oportunidade econômica da história republicana. Mas oportunidades históricas não permanecem abertas para sempre. Quem chegar primeiro à nova economia definirá as regras do jogo.

O Brasil possui os recursos. Agora precisa construir a estratégia. Porque, na era digital, riqueza mineral sem inteligência nacional continuará a ser apenas riqueza exportada. •


*Professor de Economia da Unicamp e presidente do IBGE.

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Exportador de pedras…’

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