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A relação financeira Brasil-China

A emissão de Panda Bonds pelo mercado brasileiro é mais um passo rumo à mudança do sistema monetário

A relação financeira Brasil-China
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Foto: AFP
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Registram o China Daily e o ­Global Times, jornais chineses: em reunião em Pequim, autoridades do país e brasileiras celebraram o acordo que permite a emissão de Panda Bonds. Os Panda são títulos, públicos e privados, denominados em renminbi nos mercados financeiros da China. O Brasil foi a primeira nação autorizada a emitir títulos Panda. Outras certamente estão na fila.

Isso nos faz recordar os trabalhos elaborados para as reuniões que precederam as reformas de Bretton Woods em julho de 1944. John Maynard Keynes formulou a proposta mais avançada e internacionalista de gestão da moeda internacional. Com base nas regras de administração da moeda bancária, o Plano Keynes previa a criação de uma entidade pública e supranacional encarregada de controlar o sistema internacional de pagamentos e de providenciar liquidez aos países deficitários. Tratava-se não só de contornar o inconveniente de submeter o dinheiro universal às políticas econômicas do país­ emissor, como observamos agora, mas de evitar que a moeda internacional assumisse a função de perigoso agente da instabilidade financeira internacional.

As transações comerciais e financeiras seriam denominadas em bancor e liquidadas nos livros da instituição monetária internacional, a Clearing Union. Os déficits e superávits seriam registrados em uma conta corrente que os países manteriam lá. No novo arranjo institucional, tanto os países superavitários quanto os deficitários estariam obrigados, mediante condicionalidades, a reequilibrar suas posições, o que distribuiria o ônus do ajustamento de forma mais equânime entre os participantes do comércio internacional. No Plano Keynes, não haveria lugar para a livre movimentação de capitais em busca de arbitragem ou de ganhos especulativos.

Em 1944, nos salões do hotel Mount Washington, na acanhada Bretton Woods­, a utopia monetária de Keynes capitulou diante da afirmação da hegemonia norte-americana, que impôs o dólar, ancorado no ouro, como moeda universal.

O conflito que hoje nos aflige exprime o inconformismo de muitos financistas norte-americanos diante do declínio de sua hegemonia. A pretendida e nunca executada reforma do sistema monetário internacional, ou coisa assemelhada, não vai enfrentar apenas as conturbações decorrentes da decadência dos EUA. Vai, na verdade, acertar contas com os desafios engendrados pelas assimetrias de ajustamento decorrentes do desarranjo da economia dos Estados Unidos, ancorada na força do dólar e no poder dos mercados financeiros de Tio Sam.

É imperioso assinalar os antecedentes geopolíticos e geoeconômicos da ascensão da China. Impulsionado pela “deslocalização” da grande empresa dos EUA e ancorado nos rodopios da finança privada norte-americana, o processo de integração produtiva e financeira das últimas décadas deixou como legado a migração da indústria manufatureira para a China “produtivista”. A interdependência sino-americana não se limita às relações comerciais entre os dois países, mas abrange consequências para a ­geoe­conomia global. Está claro que os chineses ensaiam cautelosa, mas firmemente, a constituição de um sistema monetário internacional destinado a ampliar rapidamente os acordos de troca de moedas (swaps) com seus parceiros comerciais mais importantes.

As trombadas de Donald Trump, ao buscar o confronto com o país de Xi Jinping­, visam impedir a partilha da liderança global com a China. Seja como for, os desencontros e trombadas demonstram que a almejada correção dos chamados desequilíbrios globais vai exigir regras de ajustamento incompatíveis com o sistema monetário internacional em sua forma atual, aí incluído o papel do dólar como moeda de reserva. Isso não significa prognosticar a substituição imediata da moeda norte-americana por outra, como o yuan, mas constatar que o futuro promete solavancos e colisões nas relações comerciais, monetárias e financeiras entre as nações.

As autoridades chinesas não se cansam de proclamar as virtudes e promessas do multilateralismo. A estratégia chinesa aposta na conformação de um sistema monetário-financeiro desvinculado dos poderes de uma moeda nacional empoderada na função de moeda internacional.

Esse propósito do Império do Meio será executado à moda chinesa. Devagar e sempre. •

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A relação financeira Brasil-China’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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