

Colunas
A Arábia Saudita do H2V?
O hidrogênio verde só cumprirá sua promessa transformadora se o Nordeste subir a escada de valor em vez de estacionar no primeiro degrau
O Nordeste vive um momento raro de convergência entre geografia, capital e política pública. Os ventos alísios que varrem o litoral do Rio Grande do Norte ao Piauí, somados à irradiação solar do semiárido, dão à região o menor custo de eletricidade renovável do planeta, a matéria-prima do hidrogênio verde. Não à toa, a Bloomberg projeta o Brasil, e o Ceará em particular, como potencial de ser a “Arábia Saudita do H2V”. A comparação é sedutora, mas, para quem estuda complexidade econômica, ela carrega um aviso.
Comecemos pelos números que dão musculatura à aposta. O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) chega a 2026 com orçamento recorde de 52,6 bilhões de reais, alta de 11,1% sobre 2025 e o maior da história do fundo, com a Bahia liderando a distribuição (11,09 bilhões), seguida por Ceará (7,01 bilhões) e Pernambuco (6,27 bilhões). Mais relevante do que o volume é a direção. Em maio, o Condel/Sudene incluiu as dutovias no FNE Proinfra, abrindo uma linha de 6,2 bilhões de reais, 12% do total, para gasodutos e redes de hidrogênio, com carência de quatro a oito anos e prazos de até 34 anos. Pela primeira vez, o Banco do Nordeste passa a financiar o escoamento físico da nova energia, exatamente o gargalo apontado como decisivo. Segundo a Bloomberg, para distâncias acima de 100 quilômetros, o duto é a única solução economicamente viável de escoamento.
O timing não é coincidência. Sete projetos industriais somando cerca de 63 bilhões de reais miram sua decisão final de investimento (FID) em 2026, os primeiros FIDs brasileiros de eletrólise em escala industrial. O epicentro é o Complexo do Pecém, no Ceará, onde sete gigantes acumulam 66 bilhões de reais em intenções. A Casa dos Ventos, hoje com a TotalEnergies como sócia, larga na frente: 1,2 gigawatt de eletrólise, até 900 mil toneladas anuais de amônia verde, 5 bilhões de dólares e comprador já contratado na Europa – o detalhe que separa um projeto real de uma carta de intenções. Suape, com o metanol verde da European Energy destinado à navegação, e o porto do Açu completam o arco de hubs concebidos, sobretudo, para a exportação.
Aqui entra a leitura de complexidade. A metáfora da “Arábia Saudita” é reveladora justamente pelo que esconde. O reino é o arquétipo da economia rentista de baixa complexidade: exporta um recurso bruto de imenso valor e, ainda assim, ocupa posição modesta no ranking de sofisticação produtiva, refém do preço internacional de uma única commodity. Repetir esse modelo, trocar barris de petróleo por navios de amônia verde, seria vencer a batalha da energia e perder a guerra do desenvolvimento.
O hidrogênio verde só cumprirá sua promessa transformadora se o Nordeste subir a escada de valor em vez de estacionar no primeiro degrau. Exportar amônia é o degrau baixo. Os degraus altos estão na fabricação de eletrolisadores, na engenharia de plantas, nos fertilizantes verdes, no aço e no combustível de navegação descarbonizados, atividades que exigem capacidades produtivas conectadas, geram encadeamentos e adensam o tecido industrial. É a diferença entre vender vento embalado em molécula e construir uma indústria que aprende. Foi assim que Coreia e Taiwan escaparam da estagnação latino-americana: não pela dádiva de recursos, mas pela decisão deliberada de acumular capacidades produtivas cada vez mais sofisticadas.
O desenho institucional atual ainda pende para o modelo exportador. A ZPE do Pecém, as isenções de ICMS até 2032 e o próprio FNE Proinfra foram calibrados para viabilizar o escoamento, não necessariamente o adensamento. E falta o empurrão de Brasília: o marco legal do hidrogênio de baixo carbono foi sancionado em 2024, mas o decreto dos créditos fiscais, previstos para 2028–2032, segue pendente, e sem previsibilidade o investidor hesita.
O Nordeste tem, portanto, a chance histórica de fazer diferente do que fez o Golfo. Dispõe do insumo mais barato do mundo, de um fundo regional robusto e recém-orientado para a infraestrutura certa, e de uma janela de demanda europeia que se fecha à medida que Austrália, Chile e Oriente Médio avançam. O que definirá se seremos uma nova potência industrial ou apenas mais um exportador de commodity limpa não é o vento — é a política. Ser a Arábia Saudita das renováveis pode ser um elogio ou uma sentença. A diferença está em decidir, agora, se queremos exportar a molécula ou tentar dominar a cadeia produtiva. •
Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Arábia Saudita do H2V?’
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



