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Solidão é mágoa
A epidemia de isolamento social que toma hoje o mundo tem consequências diretas sobre a mortalidade e a saúde pública
A solidão e o isolamento social atingiram proporções epidêmicas no mundo moderno. A revista médica The Lancet, uma das mais influentes, traz uma discussão sobre esse tema.
Num relatório de 2023, Vivek Murthy, na época o Surgeon General dos Estados Unidos, chamou a atenção para a epidemia de solidão e isolamento social no país.
Em maio de 2025, a Assembleia da Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou uma resolução da Commission on Social Connection que reconhecia o isolamento social e a solidão como realidades disseminadas pelo mundo, com graves repercussões na saúde, no bem-estar individual e na sociedade.
No final, o relatório criticou a falta de atenção dos países membros diante da gravidade desses problemas e da ausência de políticas públicas para enfrentá-los.
O relatório da Comissão dividiu a discussão em três partes.
Na primeira, descreveu a que ponto a situação já havia chegado: no período de 2014 a 2023, cerca de 16% da população mundial se queixava de solidão, condição que afetava todas as idades, gêneros e regiões do mundo.
A prevalência era mais alta entre adolescentes de 13 a 17 anos (21%) e entre adultos jovens de 18 a 29 anos (17%). Cerca de um terço das mulheres e homens com mais de 60 anos sofriam desse mal que se agravava em grupos marginalizados: deficientes físicos, migrantes, minorias étnicas, populações indígenas e pessoas LGBTQIA+.
Na segunda parte, a publicação detalhou o impacto nos indicadores de saúde. Ressaltou que solidão e isolamento social estão associados a aumento da mortalidade. A estimativa é de que no mundo, no período de 2014 a 2019, tenham ocorrido 871 mil óbitos por essas causas.
De acordo com a Comissão, esses fatores têm impacto deletério na saúde física e mental das pessoas, elevam o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, declínio cognitivo, depressão, ansiedade e ideação suicida.
Manter conexões sociais variadas traz, por outro lado, benefícios múltiplos: redução do risco do aparecimento de doenças crônicas, melhora da saúde mental e aumento da longevidade.
Além disso, a relação entre conexões sociais e saúde é bidirecional: doenças crônicas e o estigma associado a elas podem limitar a habilidade de estabelecer contatos com os outros e contribuir para aprofundar o isolamento e a solidão, condições que vão agravar os problemas de saúde, comprometer o bem-estar e afetar a qualidade de vida.
Na última parte, a Comissão analisou a influência do isolamento social e da solidão no desenvolvimento econômico das sociedades e as consequências no nível educacional, nas taxas de desemprego e nos níveis salariais. As estimativas sugerem custos substanciais para os serviços de saúde, para as empresas e as famílias, perda de produtividade e empobrecimento pessoal.
O relatório reforça a necessidade de implementação de políticas públicas abrangentes para facilitar relacionamentos interpessoais e combater o isolamento. Essas medidas devem incluir campanhas governamentais de esclarecimento e políticas sociais que envolvam todos os setores: transportes, moradias, espaços urbanos, atividades recreativas, práticas esportivas, escolas, sindicatos, clubes e centros sociais.
O relatório aponta Dinamarca, Finlândia, Suécia, Holanda, Reino Unido e Alemanha como exemplos de países que desenvolveram estratégias nacionais para lidar com a situação. Uma lei recente sancionada pelo governo japonês criou o Ministério para a Solidão, encarregado de adotar medidas para promover interações sociais que evitem o isolamento.
Embora importantes, tais iniciativas ainda ficam restritas aos países mais ricos e organizados. Nos demais, a gravidade e a urgência na resolução desses problemas são ignoradas.
No Brasil, as transformações sociais associadas à redução das taxas de natalidade, ao envelhecimento da população e às migrações do campo para a cidade criaram grandes aglomerados urbanos que mudaram o estilo de vida da população, numa velocidade vertiginosa. O que levou um século para acontecer na Europa, nos Estados Unidos e em alguns países asiáticos, aqui ocorreu em meia dúzia de décadas.
A tecnologia que nos prende às telas, o trabalho online e a solicitação permanente das redes sociais vieram para nos tornar mais competentes, e não para abrir espaços de convivência para as risadas, os beijos e abraços que nos fazem tanta falta. •
Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Solidão é mágoa’
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