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Casos de família

O perigo persiste, pois os dramas do clã Bolsonaro tendem a produzir pouca ou nenhuma repercussão em base eleitoral, acometida por uma cegueira deliberada

Casos de família
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Roupa suja. Michelle é a mais dura oponente de Flávio – Imagem: Mateus Bonomi/Anadolu/AFP
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Nos últimos dias, revivemos, pelo noticiário, os conflitos da família Bolsonaro. Em vez de coalizões republicanas, que naturalmente antecedem os processos eleitorais, as movimentações têm se assemelhado a programas de televisão nos quais as desavenças familiares são expostas de forma crua.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou um vídeo em que expõe desentendimentos com Flávio Bolsonaro, apontado pré-candidato à Presidência da República. Em resposta, o senador tornou pública uma carta escrita pelo pai. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, entendeu que houve violação da medida cautelar imposta ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que o proíbe de utilizar redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros, e proibiu Flávio de visitá-lo por 90 dias.

Referidos episódios são emblemáticos da forma caótica como o bolsonarismo se organiza. Ainda assim, é inquestionável que os dramas familiares tendem a produzir pouca ou nenhuma repercussão entre sua base eleitoral, na qual vigora, há muito tempo, uma cegueira deliberada. É por essa razão que insistimos em afirmar que o bolsonarismo continua forte.

Nesse cenário, o bolsonarismo está inequivocamente aparelhado para reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o propósito deliberado de miná-las ainda no curso do processo eleitoral, esvaziando-o e abrindo caminho para uma governabilidade de exceção.

Revisito uma coluna recente: as formas de autoritarismo do século XXI possuem especificidades que as distinguem das manifestações do século anterior. Embora seja possível identificar elementos de continuidade, as manifestações dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o fenômeno ainda mais desafiador de compreender.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de exceção em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Deparamo-nos com um Estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção. Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

A análise do autoritarismo líquido – assim intitulado por não se assumir como tal e minar, em intensidades variadas, os âmbitos da vida democrática – impõe aprofundado estudo dos fatores de desestabilização e de subversão dos direitos fundamentais e da democracia.

O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive de matriz neobolsonarista, enfraquecedoras do nosso pacto civilizatório.

O olhar para o futuro pressupõe, antes de mais nada, o reconhecimento dos nossos recentes fracassos, a insuficiência dos nossos manuais clássicos e a falibilidade das nossas instituições. Entretanto, sem que antes tenhamos enfrentado e desnudado o bolsonarismo, o mesmo vem se apresentando, praticamente às vésperas de um novo processo eleitoral, de forma cada vez mais sofisticada e poderosa.

Maior sofisticação, quando comparado ao que podemos chamar de bolsonarismo 1.0, é identificada, por exemplo, nos seus discípulos, inclusive nos governos estaduais. Com maior verniz, eles dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios. Ademais, maior poderio identifica-se, ainda, na capacidade de mobilização e associação ao trumpismo.

É fundamental compreender as causas e as consequências do deslocamento do poder soberano do povo para aquele que toma para si a possibilidade de, inclusive mobilizando afetos públicos e em solapamento da verdade, decidir sobre a sobre a exceção. Trata-se do antídoto contra a gradual fragilização dos direitos fundamentais, dos espaços e dos sentidos da democracia e, por fim, da relação de pertencimento à sociedade.

Não temos fórmulas ou receitas para o enfrentamento do desafio ora apresentado. Uma das características do novo autoritarismo está exatamente em retroalimentar-se e de redesenhar-se diuturnamente, inclusive como estratégia de infiltração e de esvaziamento dos instrumentos democrático-sociais a ele contrários.

A reconstrução, bem como o olhar para o futuro, requer incondicional compromisso com a democracia e com os direitos fundamentais. O grande problema é que, sem que antes tenhamos cicatrizado as dores do bolsonarismo paterno, seus filhos e adeptos estão armados para a guerra ao melhor estilo Casos de Família. •

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Casos de família’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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