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Personalização política e o sepultamento dos planos de governo

Nas eleições deste ano haverá espaço para discutir propostas? Ou será que alguém ainda se importa em debater os planos de governo?

Personalização política e o sepultamento dos planos de governo
Personalização política e o sepultamento dos planos de governo
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a senadora Tereza Cristina (PP-MS). Foto: Roque de Sá/Agência Senado
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Eleições 2026

As campanhas eleitorais começam somente a partir de 16 de agosto, mas nas redes sociais, por outro lado, é como se nunca tivessem deixado de existir. E isso fortalece a ascensão da personalização política. Há pelo menos duas décadas, as alterações são cada vez mais aceleradas e as redes sociais contribuem para antecipar as mudanças, deixando tudo mais homogêneo, parecido, mais personalizado e, ironicamente, menos pessoal e vazio de ‘nós’. Os partidos políticos que lutem para aparecer, porque nas redes, cada vez mais, o fenômeno é quem se candidata e o que acontece ao seu redor, planos, propostas e ideias coletivas de partidos estão fora da moda.

Em meio a uma acentuada crise partidária, esta década é marcada pelo recuo do interesse do eleitorado pelos partidos de seus candidatos, por declínio na filiação e aumento percentual em abstenção. No primeiro turno das eleições de 2022, a abstenção equivalia a 20,90% do eleitorado que estava apto a votar e não compareceu – a mais alta desde 1998. No segundo turno, registrou-se inesperadamente o índice mais baixo de abstenção para um segundo turno, 20,59%. Com fortes indícios ainda de uma sociedade polarizada, política, social e afetivamente dividida.

A polarização da sociedade é uma marca comum do populismo. Nesta nova onda em curso, considerada a 4ª, reconhecemos duas marcantes diferenças para as ondas mundiais que precederam esse período: o uso das redes sociais por políticos, e a possibilidade de políticos de extrema-direita se elegerem por partidos políticos institucionalizados ou considerados ‘mainstream’ – se não há um partido, cria-se um novo. Isso, infelizmente, não é exclusividade do Brasil.

É possível aprender com nossos vizinhos na América Latina como essa personalização tem alterado a forma de viver a política, em especial para os mais jovens. Aquelas pessoas que vivenciam a política intermediam principalmente pelas redes sociais e plataformas, um processo intensificado a partir de 2018, com crescente atuação dos algoritmos e, mais recentemente, da inteligência artificial (IA).

Ao olharmos para a América Latina enquanto vizinhos, com histórias, culturas e territórios que os une, destacamos dezessete países que têm eleições diretas. Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai. Com acentuada virada ao espectro político mais à (ultra)-direita, quando o assunto é personalização e estabilidade política, importa notar que doze dos dezessete países têm presidentes eleitos com partidos com menos de 20 anos, fundados a partir de 2006. Alguns partidos foram criados mais recentemente e com o objetivo de lançar um candidato específico, aliás, os exemplos são diversos.

Como no caso de Javier Milei, da Argentina, com o La Libertad Avanza, criado em 2021 para concorrer às legislativas a partir de uma coligação, liderada pelo próprio Milei, e posteriormente, em 2023, levando também a presidência do país. No Equador, o Acción Democrática Nacional foi criado inicialmente em 2024, como uma aliança para apoiar a candidatura do presidente eleito, Daniel Noboa. Seguem esses passos: o Partido Pueblo Soberano, da Costa Rica, fundado em 2022, para apoiar a candidatura de Laura Fernandéz, eleita presidente em 2026. Fernandéz promete seguir os passos de Nayib Bukele, de El Salvador, que também fundou o Nuevas Ideas em 2017, para se candidatar à eleição em 2019. Bukele, em seu atual segundo mandato, aprovou em 2025 uma emenda constitucional que permite reeleição por tempo indeterminado.

No Peru, Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, foi eleita com uma pequena margem de diferença. Keiko fundou em 2011 o partido Fuerza Popular, candidatou-se à presidência por quatro vezes até vencer neste ano. Na Colômbia, eleito oficialmente 35º presidente do país, Abelardo De La Espriella criou, em 2025, o partido Defensores de la Patria, um novíssimo partido ultra-conservador. Esses são alguns exemplos, apesar de haver partidos sólidos como o do Paraguai, fundado em 1887, o Partido Colorado é um partido conservador de direita, alinhado com os militares.

Nesse contexto de forte crise institucional e partidária e acentuada polarização, a proliferação de novos partidos pode ser compreendida como um sintoma. Por outro lado, a personalização é catalisada pelas dinâmicas das redes sociais e, na América Latina, Bukele é o presidente-modelo desse tempo atual. O presidente millennial, autointitulado o ‘ditador mais legal do mundo’, é ávido usuário de redes sociais e sabe usá-las de forma muito estratégica. Este meio direto de comunicação é pensado para o comércio e para engajamento, não para discussão de planos políticos. Ali, nas redes, importam pautas, reações rápidas e polêmicas. Quem se importa com planos eleitorais? Aliás, como se importar com planos, ou com o coletivo? Seguramente, o ‘ditador-influencer’ não se importa.

A maior personalização na política possibilita um aumento da informalidade na forma de fazer e viver a política. No Brasil vimos isso nas eleições de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, que reforçou essa narrativa ao longo de seu mandato até 2022.

Em sua trajetória política, Jair Bolsonaro foi filiado a oito partidos. Enquanto presidente, esteve 24 meses sem filiação partidária, de novembro de 2019 a novembro de 2021. Na campanha presidencial de 2018, em que acabou eleito pelo PSL, afirmava “Meu partido é o Brasil”, mote que reforçou nos quatro anos de governo. O Brasil, como partido, versa sobre a moral e a família tradicional, ambas abraçadas pelo bolsonarismo, e é uma estratégia tradicional populista para criar a narrativa de “nós” – o Brasil – “contra eles”, o PT. Flávio Bolsonaro, escolhido pelo pai para assumir o pleito de 2026, em sua trajetória política esteve filiado a cinco partidos, estando hoje no Partido Liberal. Mas, quem se importa?

Ao longo do terceiro mandato do Lula, que sim, segue no Partido dos Trabalhadores (PT), o que se vê é o reforço à personalização e à informalidade política. Importa mais o que a Dona Maria, personagem criada por Inteligência Artificial, diz sobre os problemas, do que o plano de um candidato. Renan Santos, no Brasil, segue a linha dos presidentes da ultra-direita latina. O partido Missão, fundado por membros do Movimento Brasil Livre, o MBL, em 2025, promete uma campanha nos moldes de uma comunicação agressiva.

A campanha eleitoral de 2026 já iniciou para quem acompanha política no dia a dia pelas redes, com consumo de assuntos e escândalos, como quem consome trends. Nesse meio, assistimos ao sepultamento dos planos de governo, de um sonhado plano coletivo. O ‘nós’, que antes era construído coletivamente com partidos, perde espaços para os tantos ‘eu’ dos novos “políticos-influenciadores”.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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