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Bastilha sem festa: como a derrota para a Espanha frustrou a celebração nacional dos franceses

Placar de 2 a 0 na semifinal transformou a celebração nacional em uma noite de silêncio e tensão nas ruas da terceira maior cidade do país

Bastilha sem festa: como a derrota para a Espanha frustrou a celebração nacional dos franceses
Bastilha sem festa: como a derrota para a Espanha frustrou a celebração nacional dos franceses
Queima de fogos em Lyon sofreu atrasos após derrota da seleção francesa contra os espanhóis na semifinal da Copa do Mundo. Fotos: AFP/Danilo Queiroz/CartaCapital
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LYONPor ironia do destino, a principal celebração nacional da França terminou em frustração justamente no dia 14 de Julho. No feriado que marca a Queda da Bastilha e simboliza o nascimento da República Francesa, a expectativa por uma vaga na decisão do torneio deu lugar ao silêncio após a derrota por 2 a 0 para a Espanha.

Em Lyon, terceira maior cidade do país, a atmosfera de euforia construída ao longo do dia foi desaparecendo minuto a minuto conforme os espanhóis controlavam a partida. O que prometia ser uma noite de dupla comemoração — pelo feriado nacional e pela classificação da seleção — transformou-se em um fim de festa.

Horas antes do confronto, mesmo sob um calor de 37°C, milhares de pessoas ocupavam as ruas do centro histórico. A CartaCapital acompanhou a transmissão nas imediações da Praça Bellecour, principal palco das celebrações do 14 de Julho na cidade.

Como o feriado coincidiu com a semifinal, a prefeitura montou um esquema especial de segurança, bloqueando diversas ruas e reforçando o policiamento nas estações de metrô, trem e nos principais pontos turísticos.

“O policiamento foi reforçado tanto nas estações quanto nas avenidas para garantir a segurança e evitar depredações do patrimônio. Pelo nosso histórico, sabemos que, ganhando ou perdendo, pode haver confusão após o apito final”, explicou à reportagem um policial que preferiu não se identificar.

Com o rosto pintado nas cores azul, branco e vermelho, a estudante de Psicologia Lola M. assistia à partida ao lado dos pais, que viajaram de Saint-Étienne para acompanhar o desfile militar e permanecer em Lyon para o jogo.

“Hoje é um dia muito importante para nós. Temos muito orgulho da nossa história. Aprendemos desde a escola que a Revolução Francesa marca a passagem para a Idade Contemporânea. Achei incrível que a semifinal fosse justamente hoje. Estava ansiosa para comemorar a vitória assistindo aos fogos de artifício”, contou.

Ao seu lado, porém, o namorado, de origem hispano-marroquina, torcia discretamente pela Espanha.

“Vai ser 2 a 0 para a Espanha, com gol do Yamal”, brincou, arrancando risos do grupo.

Na França, o 14 de Julho é celebrado simultaneamente em centenas de cidades. Cada município organiza sua própria programação, com desfiles militares, shows, apresentações da Esquadrilha da França e espetáculos de fogos de artifício.

O banho de água fria

A esperança francesa começou a diminuir ainda nos primeiros minutos da partida.

A Espanha assumiu rapidamente o controle da posse de bola e passou a ditar o ritmo do jogo. Aos 22 minutos, já demonstrava superioridade técnica e tática diante de uma França que encontrava dificuldades para construir jogadas.

No Bistrot de la Passerelle, onde mais de 400 pessoas acompanhavam o confronto, gritos de incentivo e o hino nacional francês eram entoados repetidamente na tentativa de empurrar a equipe de Didier Deschamps.

A frustração da torcida francesa na Copa do Mundo coincidiu com o feriado importante do 14 de julho. Foto: Danilo Queiroz – CartaCapital

Mas o desempenho não correspondia.

A estrela da noite, Mbappé, esteve apagado durante praticamente toda a partida. Os passes não encaixavam, as finalizações não levavam perigo e a equipe parecia incapaz de romper a marcação espanhola.

Conforme o relógio avançava, muitos torcedores deixavam o restaurante antes mesmo do apito final.

Entre eles circulavam espanhóis, marroquinos e argelinos que provocavam os franceses.

“Au revoir, France!”, gritavam. Ou seja, tchau França!

Do outro lado da comemoração estava Alberto N., estudante do ensino médio espanhol que passava férias em Lyon ao lado da família.

“É engraçado assistir ao jogo justamente na casa do rival. Não há tantos espanhóis aqui, mas estou confiante. Seria muito especial ganhar da França justamente no dia 14 de Julho”, afirmou.

Vestindo discretamente uma camiseta vermelha, sem qualquer referência explícita à seleção espanhola, Alberto acompanhava o jogo ao lado do colega Daniel H., enquanto os pais assistiam juntos à partida.

“Estamos vivendo uma das melhores fases da nossa seleção. Acho que este jogo mostra o que podemos fazer também na Copa de 2030”, disse, referindo-se ao Mundial que será realizado na Espanha, Portugal e Marrocos.

Durante o intervalo, a família conversava por vídeo com parentes em Sevilha.

Os primos Marcos M. e Elías M. comemoravam do outro lado da tela.

“Vai terminar 2 a 0 para a Espanha”, apostavam.

O palpite se confirmou.

Aos 58 minutos, Pedro Porro marcou o segundo gol espanhol e praticamente enterrou a reação francesa.

Com 51% de posse de bola, a equipe comandada por Luis de la Fuente controlou completamente o meio-campo. A França finalizou apenas dez vezes durante toda a partida e só acertou o primeiro chute no gol aos 35 minutos da etapa final, após erro na saída de bola de Unai Simón.

A Espanha atuou sem um centroavante de referência. Oyarzabal recuava para participar da construção ao lado de Rodri, enquanto Dani Olmo aparecia como homem mais avançado, com apoio de Fabián Ruiz, Álex Baena e Lamine Yamal, que desponta como o melhor jogador da temporada, aberto pela direita.

O sistema anulou o meio-campo francês.

Aurélien Tchouaméni, Adrien Rabiot e, posteriormente, Arouna Koné, foram engolidos pela movimentação espanhola.

Didier Deschamps tentou reagir invertendo os lados de Ousmane Dembélé e Michael Olise. Depois lançou Rayan Cherki e Désiré Doué – que trouxeram euforia ao público por serem um dos jogadores de maior destaque do Lyon, onde o jogador brasileiro também atua. Nenhuma alteração mudou o panorama.

Entre todos os titulares franceses, Mbappé terminou como o jogador que menos participou ofensivamente: tocou apenas 34 vezes na bola e finalizou duas vezes.

O poderoso ataque francês sucumbiu diante da organização coletiva da Espanha.

Queima de fogos em Lyon sofreu atrasos após derrota da seleção francesa contra os espanhóis na semifinal da Copa do Mundo. Foto: Danilo Queiroz – CartaCapital

Fogos sem comemoração

Com o apito final, até mesmo o tradicional espetáculo de fogos lançado da Basílica de Fourvière pareceu perder o brilho.

Durante cerca de quinze minutos, milhares de pessoas acompanharam o show pirotécnico praticamente em silêncio. Em vez das comemorações previstas para uma possível classificação, ouviam-se apenas as provocações de pequenos grupos de torcedores espanhóis.

Nas proximidades da estação Vieux Lyon, houve registros de confusão entre torcedores rivais. A polícia utilizou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os grupos e restabelecer a circulação na região.

Pouco depois da eliminação, o presidente francês, Emmanuel Macron publicou uma mensagem de apoio à equipe. Até o momento, não há nenhuma manifestação do presidente espanhol Pedro Sánchez.

“Obrigado aos Bleus por terem carregado nossas cores com compromisso. A derrota desta noite é difícil, mas esta equipe é jovem e tem muito futuro.”

A manifestação buscou amenizar a frustração de uma seleção que, mais uma vez, fica sem conquistar um título desde a Copa do Mundo de 2018. Vice-campeã mundial em 2022, a França, vista como uma das preferidas para ganhar o título mundial, agora encerra sua campanha enquanto a Espanha avança para a decisão do torneio. Nesta quarta-feira, será definido o confronto final, após o jogo entre Inglaterra e Argentina.

Na noite em que a República celebrava sua história, restou aos franceses apenas assistir ao fim da festa. A data que costuma reunir desfiles, fogos e orgulho nacional terminou marcada por uma eliminação que calou as ruas de Lyon.

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