Do Micro Ao Macro
Veja o que fazer com a sobra do estoque de itens para Copa do Mundo
Especialista alerta para o risco de prejuízo com produtos temáticos parados e explica como usar dados para evitar liquidação forçada no pós-Copa.
A derrota por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, tirou o Brasil do Mundial antes do previsto por parte do comércio. Com os dois gols de Haaland e a eliminação selada, camisas, bandeiras e artigos de torcida que lotavam as prateleiras agora formam um estoque sem destino certo.
Até a derrota, o cenário parecia favorável ao varejo. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo projetava movimento de R$ 4,32 bilhões no comércio varejista durante o torneio, alta de 6,5% em relação a 2022. Passada a fase do Brasil na competição, porém, a demanda por produtos temáticos tende a esfriar de forma abrupta.
O momento chega em um ambiente já apertado para o pequeno e médio comerciante. Dados da Serasa Experian apontam 7,2 milhões de empresas inadimplentes no país, equivalente a 31% das companhias ativas. Somente entre janeiro e agosto de 2025, quase dois milhões de negócios fecharam as portas, segundo levantamento do Sebrae, que aponta falhas no planejamento financeiro e no controle de estoque como causas recorrentes.
Chrystian Scanferla, head de Negócios da Irrah Tech, afirma que a eliminação precoce funciona como um sinal de alerta imediato para quem reforçou pedidos apostando em fases mais longas do torneio. “O primeiro erro que existe é a percepção de que vender mais é suficiente para garantir bons resultados financeiros. Na prática, não é assim.”
Com o Brasil fora, a corrida por camisas e artigos de torcida perde força de um dia para o outro, e o volume comprado para semanas de jogos vira mercadoria parada em menos tempo do que o previsto.
Estoque de 2014 já tinha mostrado o risco
O episódio não é inédito. Em 2014, após a eliminação da seleção por 7 a 1 para a Alemanha, o mascote Fuleco, vendido a R$ 129,99, chegou às liquidações por R$ 15. Comerciantes da Saara, no Rio de Janeiro, registraram faturamento entre 30% e 40% abaixo do esperado, segundo a Agência Brasil.
Para Scanferla, o resultado financeiro de um evento como a Copa raramente aparece durante os jogos. Ele surge nas semanas seguintes, quando a torcida perde o interesse e os boletos do pedido reforçado continuam chegando.
Pedidos por expectativa aumentam o risco de estoque
Segundo o especialista, boa parte dos lojistas reforça pedidos com base no entusiasmo do momento, sem apoio em dados de comportamento do consumidor. “O problema é que essas decisões, muitas vezes, são tomadas com base na expectativa ou no entusiasmo do momento, e não em análises de dados sobre o comportamento do consumidor.”
Diante da eliminação, a saída mais comum costuma ser a promoção agressiva para escoar o excesso. O faturamento até cresce no curto prazo, mas a margem encolhe, e esse efeito só aparece quando o balanço do período já está fechado. “O faturamento cresce, mas a margem encolhe. E isso não é percebido imediatamente. Quando o varejista olha o resultado consolidado, o evento, como a Copa do Mundo, já passou.”
Canais de venda desconectados complicam o controle
O varejo atual opera em loja física, e-commerce, marketplace e estoques de fornecedores ao mesmo tempo, e um desfecho como a eliminação para a Noruega testa esses canais em conjunto.
Scanferla descreve o problema: “Hoje, o estoque não está mais em um único lugar. Ele está espalhado entre loja, e-commerce, marketplace e, muitas vezes, fornecedores. Se esses pontos não conversam em tempo real, o varejista perde o controle. Vende o que não tem, deixa de vender o que tem e descobre isso tarde demais.”
Promoções lançadas sem cálculo de margem e fretes absorvidos sem planejamento pressionam ainda mais produtos que já trabalhavam no limite da rentabilidade.
Dados evitam excesso de estoque após o torneio
Chrystian Scanferla defende decisões apoiadas em dados de vendas em tempo real, sobretudo diante de um desfecho de torneio que pode mudar o comportamento do consumidor de um jogo para outro. Segundo ele, empresas que acompanham o giro de cada item por canal conseguem corrigir rota antes da virada de mercado. “Elas ajustam rotas durante o ciclo de vendas, e não depois que o estrago está feito.”
Uma dessas ferramentas é o KIGI, plataforma que reúne estoque, canais de venda, fornecedores e produção em um único ambiente, com registro contínuo da operação. Scanferla explica a lógica: “O que vendeu mais, em qual canal, em qual faixa de preço e em qual ritmo. Quando o varejista tem essa leitura, ele deixa de comprar baseado em expectativa e passa a comprar com base no histórico.”
Scanferla resume o ponto da análise: “No fim das contas, a diferença não está em vender mais durante a Copa, mas em converter esse aumento de vendas em rentabilidade. É a capacidade de manter margem, preservar o caixa e tomar decisões baseadas em dados que define quem realmente ganha com um evento como esse.” Com o Brasil fora do Mundial, esse ajuste de rota é o que separa quem vai liquidar estoque parado de quem vai fechar o ciclo da Copa no azul.
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