Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Os esqueletos no armário dos apoiadores de Cleitinho

Favorito em Minas, o senador adia a decisão enquanto precisa explicar os vínculos com a família que financiou 52% de sua campanha e com o dirigente partidário cujo indiciamento foi pedido em relatório rejeitado por CPMI

Os esqueletos no armário dos apoiadores de Cleitinho
Os esqueletos no armário dos apoiadores de Cleitinho
O senador Cleitinho (Republicanos-MG). Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
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Eleições 2026

Nas pesquisas divulgadas nos últimos meses sobre a eleição mineira, Cleitinho Azevedo aparece sempre à frente. Contudo, o senador do Republicanos ainda não disse se disputará o governo. Ex-vocalista do grupo de pagode Brotos do Samba e ex-feirante, Cleitinho pode esperar até agosto para “deixar esse povo mais doido”, nas palavras dele. Caso entre na disputa, terá de responder pelas relações políticas e financeiras que acompanharam sua chegada ao Senado.

A primeira pergunta virá de Lábrea, no sul do Amazonas, na divisa com o Acre. Em junho, a Folha de S. Paulo revelou que dois homens presos pela morte de três pessoas numa área de conflito agrário confessaram a autoria e indicaram integrantes da família Coelho Diniz como mandantes. Um dos presos trabalhava nas fazendas dos Coelho Diniz desde 2020. Em depoimento, apontou Moisés Diniz como mandante e o identificou como “meu patrão”. Na audiência de custódia, realizada no dia seguinte, mudou a versão e afirmou que havia sido pressionado pelos policiais.

Moisés é filho de Alex Sandro Coelho Diniz, empresário filiado ao PL e primeiro suplente de Cleitinho no Senado. Caso o senador concorra, vença e tome posse no governo mineiro, Alex assumirá sua vaga até o fim do mandato, em 2031.

Moisés negou participação, confirmou que um dos presos trabalhava para ele e disse desconhecer conflito que o envolvesse; sua defesa afirmou que ele não é investigado. A Secretaria de Segurança do Amazonas abriu uma apuração sobre possíveis mandantes, e Cleitinho respondeu à Folha que não sabia do caso.

A ligação entre o senador e os Coelho Diniz é maior do que a suplência na chapa do Senado. Alex foi o maior doador individual da campanha de Cleitinho em 2022, com 190,4 mil reais; Henrique Coelho Diniz repassou 140 mil e Fábio Coelho Diniz, 40 mil. Os três irmãos financiaram juntos 370,4 mil reais, o equivalente a 52,2% de tudo o que a candidatura declarou à Justiça Eleitoral ter recebido.

A família construiu uma rede de 22 supermercados no leste de Minas, com sede em Governador Valadares e faturamento anual estimado em 2,3 bilhões de reais. Também se tornou a maior acionista do Grupo Pão de Açúcar, com 24,9% das ações ordinárias. Os Coelho Diniz ainda ocupam outros espaços na política. Irmão de Alex, Hercílio Coelho Diniz cumpre o segundo mandato de deputado federal pelo MDB.

O segundo conjunto de explicações passa por Euclydes Pettersen, deputado federal e presidente do Republicanos em Minas. Ele foi um dos articuladores da campanha de Cleitinho ao Senado e se tornou fiador de sua possível candidatura ao governo. Ao anunciar apoio à tentativa de Pettersen de concorrer ao Senado, Cleitinho disse que, depois de Deus e do povo, foi o deputado quem acreditou em sua campanha.

Pettersen é um dos investigados pela Polícia Federal no caso dos descontos não autorizados em benefícios do INSS. Nas planilhas da Conafer, entidade que atua na representação do setor rural, Pettersen aparecia com o codinome “Herói E” e era, na descrição da PF, “a pessoa melhor paga na lista de propina”. Segundo os investigadores, teria recebido ao menos 14,7 milhões de reais para oferecer proteção política a um esquema que movimentou 708 milhões de reais e atingiu mais de 600 mil aposentados e pensionistas.

O relatório apresentado pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL) afirmou ter identificado ao menos 30,1 milhões de reais recebidos pela rede de empresas e operadores relacionada a Pettersen. O documento pediu seu indiciamento por organização criminosa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato, mas foi rejeitado pela CPMI por 19 votos a 12. O deputado já negou as acusações e disse que virou alvo por razões eleitorais.

O pedido de indiciamento por lavagem cita um avião Cessna monomotor que teria sido comprado por Pettersen e um sócio em 2021, por 320 mil reais, e vendido em 2023, por 400 mil, ao presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT), cunhado do presidente da Conafer.

Em 2025, a aeronave foi repassada por 700 mil reais ao secretário da confederação, que havia recebido auxílio emergencial durante a pandemia e a revendeu um mês depois. Para o relator, ele teria atuado como laranja para ocultar os verdadeiros proprietários.

Pettersen também destinou 2,5 milhões de reais em emendas parlamentares ao ITT. Segundo o relatório, parte dos recursos chegou, por meio de licitações descritas como simuladas, a uma empresa pertencente à mulher de um operador financeiro investigado. Sobre a aeronave, o deputado afirmou que se tratava de um “avião monomotor no valor de 200 mil reais”, do qual possuía metade, e negou ter feito negócios com o presidente da ONG.

Dois pilotos contratados pelo gabinete de Pettersen aparecem nos documentos. Leandro de Almeida Lima Alves, secretário parlamentar no início de 2021, recebeu, segundo o relatório, 1,65 milhão de reais de empresas e entidades ligadas à Conafer entre 2021 e 2025. Ele também pilotou aeronaves usadas pela confederação e transportou o presidente da entidade.

Outro piloto, Carlos Bertozzo, foi contratado como secretário parlamentar em 2023, quando já havia sido denunciado pelo Ministério Público Federal sob a acusação de integrar uma organização que transportava cocaína da Bolívia. Segundo relatório policial citado pelo Intercept, anotações indicavam que ele havia levado mais de uma tonelada da droga em voos para cidades paulistas. Bertozzo permaneceu no gabinete mesmo com o processo em andamento.

Em 2019, Bertozzo foi detido no Amazonas depois de pousar sem autorização com 300 litros de gasolina num bimotor. Quatro meses mais tarde, a mesma aeronave foi apreendida com mais de 970 quilos de cocaína, mas Bertozzo não era o piloto naquele momento.

Anos depois, já funcionário da Câmara, apareceu pilotando um avião de uma empresa de Pettersen. O deputado defendeu a contratação com o argumento de que o processo não havia terminado e de que Bertozzo tinha o direito de trabalhar enquanto buscava provar sua inocência. A defesa do piloto afirmou ao Intercept que houve um “reconhecimento parcial” de sua absolvição em primeira instância e que o caso seguiria em grau de recurso. O processo tramita sob sigilo.

Cleitinho não é responsável pelos atos atribuídos ao filho de seu suplente, ao presidente de seu partido ou aos assessores desse presidente. Uma campanha ao governo, no entanto, não examina apenas a conduta pessoal do candidato. Ela também pergunta quem financiou sua eleição, quem montou sua chapa e quem organiza o projeto que pretende levá-lo ao poder.

A corrida mineira segue sem eixo definido. Mateus Simões (PSD) governa desde a saída de Romeu Zema (Novo), mas continua atrás de Cleitinho nas pesquisas; o PT passou meses à espera de Rodrigo Pacheco (PSB), pressionou Marília Campos (PT), procurou nomes fora do partido e agora tenta convencer o deputado federal Patrus Ananias (PT).

Alexandre Kalil mantém a pré-candidatura pelo PDT, enquanto Gabriel Azevedo insiste em concorrer pelo MDB, rejeita ser vice de Patrus e conversa com partidos que vão do PT ao PSDB. Às vésperas das convenções, nenhuma chapa está pronta.

Cleitinho observa esse arranjo enquanto decide se entra. Na semana passada, voltou à tribuna do Senado para pedir desculpas pela fotografia que solicitou a Virginia Fonseca durante o depoimento da influenciadora na CPI das Bets. Disse que agira pensando na filha, chamou a si próprio de “idiota” e apresentou o episódio como seu único erro no Senado. Caso concorra ao governo, a disputa eleitoral lhe entregará uma lista maior de perguntas.

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