Esporte

Como franco-marroquinos assistiram ao duelo pela Copa do Mundo e lidaram com seus dilemas

A última seleção africana no Mundial ainda sonha em resolver impasses da colonização, além das discriminações e dos duelos entre franceses e marroquinos

Como franco-marroquinos assistiram ao duelo pela Copa do Mundo e lidaram com seus dilemas
Como franco-marroquinos assistiram ao duelo pela Copa do Mundo e lidaram com seus dilemas
Torcedores de Marrocos adiam sonho do título para a Copa do Mundo 2030. Foto: Danilo Queiroz - CartaCapital
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LYON – O cenário se repete: como há quatro anos, foi diante da França que os torcedores marroquinos tiveram de adiar o sonho de conquistar a Copa do Mundo. Nesta quinta-feira 9, centenas de pessoas ocuparam as principais ruas de Lyon para acompanhar o confronto que garantiu aos franceses uma vaga nas semifinais.

Na terceira maior cidade da França, a onda de calor também impulsionou a população às ruas. Com os termômetros marcando 41 graus nesta semana, cartões-postais como a Praça Hôtel de Ville, o bairro boêmio de Croix-Rousse e Villeurbanne — município da região metropolitana de Lyon que concentra uma expressiva população de origem marroquina — se transformaram em pontos de encontro para assistir à partida.

CartaCapital acompanhou a mobilização no centro da cidade, onde a concentração de torcedores era mais expressiva. Bares e restaurantes cobraram entre 10 e 15 euros (cerca de 90 reais) para ver o jogo em ambientes climatizados, mas a maioria preferiu ocupar as ruas, com bandeiras, sinalizadores, tambores e cantos que transformaram a partida em uma celebração coletiva — e, para muitos, em um acerto de contas simbólico entre os Leões do Atlas e os Azuis.

Entre os franco-marroquinos, escolher um lado parecia a parte mais difícil do jogo.

“Espero que o resultado seja decidido nos pênaltis e que aconteça o que tiver de acontecer”, afirmou o estudante de Ciência Política Rayane. Ao lado da mãe francesa, do pai marroquino, das irmãs e das primas nascidas na França, ele preferia esperar pelo imprevisível. Quando Mbappé desperdiçou um pênalti ainda no primeiro tempo, lamentou: “É meu jogador preferido. Foi muito triste ver esse erro. Isso tem um peso para nós”.

A estudante do ensino médio Yacim também se recusava a escolher um lado. Vestida com a camisa da França e ostentando a bandeira de Marrocos nas costas, seguia a partida na esperança de que o futebol resolvesse por ela o dilema.

“Sou filha de uma francesa e de um marroquino. É difícil ver meus dois países se enfrentando. A Copa do Mundo escolhe apenas uma seleção campeã e, nessas horas, parece que somos obrigados a escolher um lado. Mas, para mim, futebol continua sendo entretenimento. Que vença o melhor.”

Em campo, o equilíbrio dos primeiros minutos parecia refletir a indecisão das arquibancadas improvisadas nas ruas de Lyon. Marrocos começou pressionando e encontrou espaços principalmente com Hakimi. A França respondeu após o pênalti desperdiçado por Mbappé, passou a controlar mais a posse de bola e voltou melhor para o segundo tempo.

No intervalo, um estudante de mestrado em Direito da Universidade Lyon 2 mantinha a confiança na classificação francesa, apesar do clima de apreensão entre os cerca de quinze amigos que viam a partida em um telão montado por um bar.

“É o meu país. Não posso desistir. Acho que vamos ganhar por 1 a 0, com um gol do Mbappé na prorrogação”, arriscou. “A maioria dos meus amigos é franco-marroquina, mas eu aconselho todos a não politizar a partida. É futebol. Acredito que a França chegará à final.”

A explosão da torcida francesa veio aos 60 minutos. Depois de uma saída de bola errada de Marrocos, Mbappé recebeu na entrada da área, criou espaço com um drible curto e bateu colocado para abrir o placar.

Nas ruas de Lyon, o estudante de Direito chamava atenção com uma bandeira francesa. Foto: Danilo Queiroz – CartaCapital

Nem todos podiam acompanhar os lances com atenção. O garçom Haussef A., argelino, via apenas fragmentos do jogo enquanto trabalhava. “É aquilo: a gente olha um pouco, atende os clientes e volta ao trabalho. Não dá para viver o mesmo espírito da torcida. E nossa preferência acaba até influenciando o público que escolhe o restaurante”, contou. “Acho que termina 2 a 0 para a França. Não gostaria que Marrocos ganhasse. Não somos países irmãos.”

A previsão se confirmou poucos minutos depois. Aos 66, a França ampliou. Em um contra-ataque rápido, Mbappé iniciou a jogada e Dembélé concluiu com um chute rasteiro, sem chances para o goleiro Bono.

O segundo gol saiu justamente enquanto duas estudantes de Medicina acompanhavam a partida pelo celular, na entrada do Museu de Belas Artes de Lyon.

“Estou confiante de que venceremos por 2 a 0. Gosto muito do Mbappé, principalmente pelo posicionamento dele contra as casas de apostas e pelo combate ao racismo nos estádios”, disse a francesa Roxana V. “Não dá para dizer que futebol não envolve geopolítica, mas isso não pode ultrapassar os limites e se transformar em ódio. A França tem muitos imigrantes, muitos deles marroquinos. Seria injusto desejar essa vitória apenas para reafirmar o poder sobre um país que foi colonizado por nós.”

Com a grande onda de calor na França, torcedores prefiriram trocar a TV pelo celular. Foto: Danilo Queiroz – CartaCapital

Ao seu lado, a marroquina Emmie T. concordava apenas em parte. “O esporte não é sobre ódio. Se quero que meu país vença é porque nunca vimos uma seleção africana campeã do mundo. Isso diz muito sobre poder, investimento e quem tem mais condições de chegar lá. Talvez não consigamos reverter esse resultado hoje, mas Marrocos dá uma grande aula de história em campo. A maioria dos nossos jogadores tem dupla nacionalidade, e isso também diz muito sobre o futebol francês. É graças à imigração e à diversidade que tantos grandes atletas são formados.

Com a vantagem construída, a França administrou o resultado até o apito final. Marrocos ainda tentou reagir, mas encontrou poucas oportunidades diante de uma defesa adversária bem organizada.

Sem grandes sustos, os franceses garantiram vaga na semifinal. O próximo adversário é a Espanha, que eliminou a Bélgica nesta sexta-feira 10.

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