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Irã inicia nova era política após sepultamento de Khamenei
Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo do Irã, herdou um sistema político que seu pai passou décadas construindo e moldando à sua própria imagem
A República Islâmica do Irã entra em uma nova era política após o sepultamento de seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, nesta quinta-feira 9. Ele foi morto por um ataque aéreo dos Estados Unidos em 28 de fevereiro, primeiro dia da guerra, em sua cidade natal, Mashhad, no nordeste do Irã.
O enterro ocorre após uma semana de grandes procissões fúnebres, comícios e cerimônias de luto, coincidindo com uma nova escalada de conflito com os Estados Unidos, depois de semanas de trégua na guerra que já dura quatro meses. O sepultamento marca o ponto culminante do funeral no Irã e no Iraque, para o qual os líderes clericais da República Islâmica incentivaram grande participação popular, numa tentativa de demonstrar a força e o fervor ideológico de seu Estado teocrático.
Milhões de pessoas se reuniram para o velório de Ali Khamenei – foto: Atta Kenare/AFP
Apesar de ter resistido a meses de ataques intensos dos Estados Unidos e de Israel, o Irã enfrenta grandes desafios internos, e o legado dos 37 anos de governo de Khamenei é fortemente contestado.
Seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, estava junto no momento do ataque e permanece fora da vista do público desde então. Segundo relatos de pessoas próximas, ele teve vários ferimentos, e seu rosto ficou desfigurado. O Khamenei mais jovem – terceiro líder supremo da República Islâmica desde a revolução de 1979 – esteve ausente até mesmo das cerimônias oficiais do funeral de seu pai.
Essa transição de liderança no Irã representa muito mais do que uma simples mudança no alto escalão do Estado. Ela é a ponta de uma profunda e gradual transformação nas estruturas de poder que ocorreu ao longo das quase quatro décadas nas quais Ali Khamenei comandou com mão de ferro o país.
“Ao contrário do aiatolá Ruhollah Khomeini, que estabeleceu após a revolução um sistema baseado na legitimidade revolucionária e em sua autoridade pessoal, Ali Khamenei começou a reestruturar esse sistema de maneira sistemática”, disse o analista político Reza Talebi.
Nos últimos 37 anos, a influência na política dos clérigos de alto escalão e dos seminários xiitas diminuiu continuamente, observou ele. Em seu lugar, instituições de segurança, o gabinete do líder supremo e as redes políticas e militares associadas a ele tornaram-se cada vez mais dominantes, acrescentou o especialista.
Ex-presidentes escanteados pelo regime
Essa transformação também alterou o papel das instituições eleitas do Irã. Na avaliação de Talebi, as eleições presidenciais evoluíram cada vez mais para disputas realizadas dentro de um quadro político previamente definido.
Embora presidentes de diferentes correntes políticas tenham conseguido perseguir suas próprias prioridades domésticas, eles tiveram margem limitada de manobra em áreas estratégicas como política externa, programa nuclear e assuntos regionais, afirmou Talebi.
Durante os seis dias de cerimônias oficiais de luto por Ali Khamenei, nenhum dos três ex-presidentes vivos da República Islâmica – Hassan Rouhani, Mahmoud Ahmadinejad e Mohammad Khatami – apareceu ao lado de outras figuras de destaque do establishment político.
Em vez disso, as imagens oficiais focam em representantes do aparato de segurança, em especial os comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica, além do atual presidente, Masoud Pezeshkian.
Acredita-se que Pezeshkian mantenha uma relação de trabalho próxima com Mojtaba Khamenei. Ele desempenhou um papel central nas negociações para encerrar a guerra do Irã. O conflito dos EUA e de Israel contra o Teerã, que se prolonga após a desintegração de um cessar-fogo, deu lugar a um processo diplomático que Mojtaba Khamenei acabou aprovando.
Antes disso, segundo uma declaração atribuída a ele e divulgada pela mídia estatal, Mojtaba havia adotado, “em princípio”, uma posição diferente. Ele anunciou ter concordado com as negociações depois que o presidente Pezeshkian, atuando como presidente do Conselho Supremo de Segurança Nacional, garantiu que “salvaguardaria os direitos do povo iraniano e os interesses do Eixo da Resistência”.
Guarda Revolucionária mais confiante
Ao lado de Pezeshkian, Mohammad Bagher Qalibaf, ex-comandante da Guarda Revolucionária e atual presidente do parlamento, também desempenhou papel importante nas conversas com os EUA.
Em 14 de junho, EUA e Irã concordaram com uma minuta de memorando de entendimento destinada a servir de base para negociações de um acordo mais amplo. No entanto, após a mais recente escalada no Estreito de Ormuz, o presidente dos EUA, Donald Trump, lançou dúvidas sobre o futuro das negociações com Teerã, sem deixar claro seus próximos passos.
“O Irã interpreta o artigo 5º do memorando de entendimento como se a expressão ‘a República Islâmica do Irã fará os arranjos necessários’ concedesse ao Irã autoridade exclusiva para estabelecer as condições necessárias para a reabertura da passagem [estreito de Ormuz]”, escreveu Hamidreza Azizi, cientista político especializado em política externa e de segurança iraniana, na plataforma X.
O Irã considera o controle do Estreito de Ormuz um de seus mais importantes trunfos estratégicos de negociação. Por isso, Teerã quer impedir a criação de rotas alternativas de navegação – como as que passariam por águas de Omã e envolveriam os EUA ou organizações internacionais – sem aprovação iraniana.
A Guarda Revolucionária desempenhou papel decisivo na escalada do confronto com Washington. Segundo Mojtaba Najafi, pesquisador baseado na França especializado em movimentos políticos e sociais emergentes, a guerra envolvendo EUA, Israel e Irã fortaleceu significativamente a confiança da Guarda Revolucionária como força política e social.
Disputa interna pelo poder?
A crise não se traduziu em maior influência para facções moderadas, incluindo apoiadores do ex-presidente Rouhani, signatário do acordo nuclear de 2015. “É provável que testemunhemos uma disputa interna pelo poder dentro da Guarda Revolucionária, e a futura direção do Irã girará em torno desse eixo”, disse Najafi.
Na avaliação dele, os principais centros de poder do Irã veem poucos motivos para fazer concessões significativas a forças políticas moderadas fora de sua rede de influência.
Resta saber se a elite política tradicional da República Islâmica se unirá em torno de Mojtaba Khamenei e permitirá que ele redefina os rumos do país, ou se ele próprio se tornará um instrumento desses grupos de poder.
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