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No passinho do Jamal

Concebida por um ajudante de pedreiro do Recife, a coreografia virou um fenômeno nas redes sociais e na Copa do Mundo

No passinho do Jamal
No passinho do Jamal
Sucesso planetário. Jamal e sua trupe são convidados para shows de artistas consagrados. O espanhol Lamine Yamal, o brasileiro Vini Júnior e os atletas da seleção de Cabo Verde, sensação da primeira fase da Copa, aderiram à ginga – Imagem: Redes Sociais, Megan Briggs/Getty Images/AFP e Josep Lago/AFP
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Quando um jogador comemora seu gol na Copa do Mundo fazendo o “Passinho do Jamal”, poucos conhecem a origem daquela coreografia inusitada. Ainda assim, o gesto se espalhou entre torcedores mundo afora: um passo para um lado, outro para o outro, mais três de volta, os braços acompanhando as pernas, tudo embalado por uma dose cavalar de humor. Parece apenas uma brincadeira, mas aqueles movimentos carregam uma história – e uma geografia peculiar. Nasceram muito antes de chegar aos gramados, no Campo do Onze, em Santo Amaro, um pedaço da periferia do Recife onde a música costuma aparecer antes das oportunidades.

Foi ali que Romero Júnior, o Jamal da Capital, descobriu que o corpo também podia comunicar e cativar multidões. Criado em meio às privações que marcam a vida de tantas crianças das periferias brasileiras, encontrou na dança uma linguagem própria muito antes de o mundo aprender a ler seus passos.

O Passinho do Jamal nasceu da própria alegria do seu criador. Não por acaso, a coreografia conquistou o coração de tantas crianças. Antes da fama, ele limpava para-brisas nos semáforos, entregava garrafões de água em condomínios e carregava cimento como ajudante de pedreiro. Nunca imaginou que, um dia, sua criação artística cruzaria oceanos e faria torcedores de diferentes países falarem a mesma língua sem precisar dizer uma palavra.

Tudo começou em 2020, quando passou a gravar e publicar na internet suas dancinhas. Primeiro vieram os movimentos ritmados e a ginga, só depois ganhou um nome artístico. Os vídeos começaram a circular, e influenciadores no Brasil e no exterior passaram a reproduzir os gestos. Em pouco tempo, a dança saiu das ruas de Santo Amaro e ganhou o mundo.

Antes da Copa, craques brasileiros como Endrick e Vinícius Júnior levaram a dancinha para os gramados europeus. Lamine Yamal também celebrou com a coreografia a última conquista do Barcelona no Campeonato Espanhol, a La Liga. O zagueiro Chadi Riad chegou a reproduzir os movimentos na apresentação oficial da seleção do Marrocos no Mundial dos Estados Unidos. Já a valente equipe de Cabo Verde, ao comemorar uma classificação histórica para a fase de mata-mata do torneio, recorreu ao popular Passinho do Jamal, ajudando a difundir ainda mais a criação do pernambucano Romero Júnior.

Poucos sabem, mas a coreografia já havia subido aos palcos de artistas consagrados como Ivete Sangalo, Péricles e Léo Santana, atravessado desfiles de moda, embalado cenas do jogo Fortnite, aparecido em apresentações do grupo sul-coreano NTX e chegado a festivais folclóricos nas Filipinas. No Carnaval deste ano, Léo Santana levou Jamal e seus parceiros de arte – Pedro “É o Chapa”, Igor Tafarel e Wesley Mendes – para repetir os passinhos durante o seu espetáculo.

Nem sempre a popular dancinha caminhou ao lado de quem a inventou. Durante um bom tempo, o Passinho do Jamal correu o mundo sem levar consigo o nome de seu criador. Foi um influenciador carioca, com mais de 3 milhões de seguidores, quem transformou a coreografia em febre nas redes sociais, ainda que sem dar o devido crédito ao autor.

Antes do megaevento esportivo, a dancinha já havia subido ao palco de Ivete Sangalo, Léo Santana e Péricles

Esse tipo de apropriação é bastante comum no universo digital, lamenta o pesquisador Thiago Soares, dedicado a valorizar a cultura popular. “Via de regra, a gente não vê marcos históricos quando se trata da arte periférica”, observa Soares. “Como não existe documentação, muitos se apropriam sem dar crédito. Por isso é importante marcar essa geografia do passinho e entender o quanto Jamal carrega o território no próprio corpo.”

Com a enorme repercussão da dancinha nas redes sociais, muitos internautas se dedicaram a descobrir quem era o verdadeiro inventor – informação revelada, em primeira mão, pelo perfil Brega Bregoso no Instagram. Jamal voltou, então, a acompanhar seu próprio passo. Agora está em vias de conseguir o registro oficial de sua criação, na busca de garantir no papel aquilo que seu corpo assinou muito antes de qualquer documento. Além disso, o ex-ajudante de pedreiro soma mais de 500 mil seguidores na rede.

O sucesso da dança, explica Soares, também está na maneira como ela reinventa o brega-funk e o já conhecido passinho dos malocas. Ao deslocar o movimento dos quadris presentes no passinho tradicional para os ombros e os braços, Jamal criou uma coreografia mais lúdica, menos erotizada e, justamente por isso, capaz de atravessar públicos, gerações e fronteiras.

“Virou cultura. Quem diria que, numa Copa, um dos maiores eventos do planeta, a gente veria jogadores dançando o Passinho do Jamal?”, diz o criador sobre a criação. O fenômeno coincidiu com o impulso de outra produção. Ao som de Toma ­Botada,­ do parceiro É o Chapa, o passinho ajudou a ampliar o alcance da faixa, que chegou ao topo das plataformas digitais e ultrapassou a marca de 16 milhões de reproduções. “A periferia tem uma cultura viva, mas muitos insistem em desprezá-la. Brega-funk também é arte”, resume o cantor, que hoje integra a trupe de Jamal.

Talvez esta seja a maior vitória do inventor da coreografia: não ver o mundo apenas repetir seus passos, mas também descobrir, enfim, de onde eles vieram. Nenhuma dança nasce ao acaso, sem autor nem endereço. “Antes de ser reconhecido, a minha sensação era como diz a música dos Racionais: ‘Negro drama, entre o sucesso e a lama’. Agora, furamos a bolha, zeramos o game, fizemos história”, avalia Jamal, com a certeza de que seus passos já não se limitam às ruas estreitas e aos becos do Campo do Onze. Eles são globais. •

Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘No passinho do Jamal’

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