Política
Oncotô, oncovô
Líder nas pesquisas, o senador Cleitinho ainda não decidiu se vai disputar o governo do estado
Não só o PT e o campo progressista vivem um dilema em Minas Gerais. A extrema-direita ainda não sabe quem será seu representante na corrida ao governo estadual, na mais nublada disputa até o momento. Líder nas pesquisas de intenção de voto, o senador Cleitinho Azevedo ainda não disse a que veio. Ou melhor, não respondeu a duas perguntas: Oncotô? Oncovô? Enquanto aliados pressionam por uma decisão, o parlamentar preserva o silêncio e amplia a expectativa em torno de um projeto que pode redesenhar não apenas a disputa local, mas os planos nacionais da oposição. “A hesitação é bastante inflacionada por setores da imprensa. É uma estratégia para gerar dúvidas em potenciais aliados”, avalia o cientista político Paulo Ricardo Diniz Filho, professor da UFMG.
Ex-verdureiro, cantor de pagode e senador, Cleitinho construiu uma trajetória improvável. Em menos de uma década, saiu do varejão da família, em Divinópolis, para se tornar o político mais competitivo da corrida ao Palácio Tiradentes. Sua ascensão diz, porém, tanto sobre ele quanto a respeito de um novo modo de fazer política: direto, emocional, impulsionado pelas redes sociais e ancorado na rejeição à política tradicional.
O próprio senador nunca escondeu que o desejo de se tornar conhecido veio antes da vocação pública. “Na verdade, queria ser famoso, comentarista de futebol ou apresentador de tevê igual ao Ratinho.” Em outro momento, contou que decidiu disputar a eleição depois de assistir ao apresentador desafiar os indignados a entrar na política. “Começaram a tirar de mim o que eu mais gostava na vida, que era cantar. Agora vou entrar na política para tirar deles o que eles mais gostam, que é roubar”, repetia.
Desde a campanha para vereador, em 2016, a comunicação de Cleitinho escora-se em uma calculada informalidade e na pretensão de falar como um cidadão comum revoltado com os privilégios do poder. Os vídeos gravados com o celular substituíram os discursos tradicionais. Denunciar buracos em rodovias, pedágios, salários de autoridades e decisões judiciais alavancaram sua popularidade. “Quando rejeita o figurino tradicional do Congresso, a quebra de decoro vira o principal ativo da identidade pública do senador”, afirma o publicitário e mestre em Marketing Político Wesley Honório.
A espontaneidade dos tempos de comerciante foi transportada quase sem filtros para a vida pública. O senador reúne milhões de seguidores nas redes sociais e transformou vídeos curtos no principal instrumento de mobilização eleitoral. Cleitinho prosperou num ambiente de crescente descrédito das instituições, no qual uma alegada autenticidade passou a valer mais do que a liturgia dos cargos. Eleito vereador, deputado estadual e, na sequência, senador, com mais de 4 milhões de votos, construiu uma carreira menos dependente das estruturas partidárias do que da capacidade de estabelecer uma relação direta com a população. “Cleitinho opera na zona mais lucrativa do populismo digital. Permanece no topo do poder sem abrir mão do discurso de perseguição e marginalidade”, resume Honório.
Um aspecto distingue Cleitinho de outras lideranças da extrema-direita. Embora tenha apoiado Jair Bolsonaro, elogie Flávio e defenda pautas reacionárias, o senador evita reproduzir integralmente a agenda ideológica do bolsonarismo. Manifestou-se contra a escala 6×1, defendeu a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e apoiou a manutenção de programas sociais como o Bolsa Família. “O discurso e o desempenho dele transitam positivamente junto ao eleitorado tanto lulista quanto bolsonarista”, reconhece Ana Estela, pré-candidata do PT a deputada federal conterrânea do senador, que, assim como ele, emergiu das redes socais com milhões de seguidores.
O parlamentar queria ser comentarista de futebol. Virou mais um “outsider”
A imagem de político avesso aos partidos convive com uma realidade menos espontânea. Embora cultive o discurso de independência e diga sentir “nojo de qualquer coisa que envolva partido”, Cleitinho depende da mesma engrenagem política que costuma criticar para transformar popularidade em projeto de poder. Ao comentar a relação com o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, chegou a afirmar: “Ele garante que me dará a legenda para disputar o governo, mas não confio 100%. Não sou amigo dele”. Na mesma entrevista, chamou o bispo Edir Macedo, principal liderança da Igreja Universal e figura influente no partido, de “falso profeta”.
A versão outsider não sobrevive aos fatos. Cada vez mais, a família Azevedo faz da política um modo de vida. O irmão gêmeo, Gleidson, deixou a prefeitura de Divinópolis antes do fim do mandato e trocou o Novo pelo Republicanos em busca de uma vaga de deputado federal. O ex-prefeito tem, no entanto, sido cotado para integrar a chapa de Mateus Simões, candidato de Romeu Zema à sucessão estadual, caso Cleitinho desista de concorrer. Outro irmão, Eduardo, é deputado na Assembleia Legislativa mineira.
Há, entretanto, uma pergunta não respondida pelas pesquisas. Cleitinho nunca administrou a máquina pública. Foi vereador, deputado estadual e senador, cargos legislativos. Nunca precisou responder diretamente pela execução de políticas públicas em áreas como saúde, educação, segurança ou infraestrutura. Justamente nesse ponto, o sociólogo Fábio Gomes identifica a principal incógnita da eleição mineira: “Neste pleito, diferentemente do passado, o eleitor está repensando as bravatas, principalmente do campo conservador, e passa a cobrar uma direita mais assertiva, bem executada”. Entre a lógica da denúncia e a responsabilidade de administrar o segundo maior estado do País está o enigma que pode definir não apenas o futuro do senador, mas de um capítulo importante da política brasileira. •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Oncotô, oncovô‘
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