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Sob pressão

A atuação de ativistas inibe a venda de petróleo brasileiro a Israel

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Contenção. Durante o governo Bolsonaro, as vendas dispararam. No terceiro mandato de Lula, a Petrobras interrompeu os negócios com Tel-Aviv – Imagem: Felipe Gaspar/Agência Petrobras e Jack Guez/AFP
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Após meses de pressão da sociedade civil e de relatores internacionais, o Brasil finalmente deixou de exportar petróleo para Israel, ao menos oficialmente. Dados obtidos pela reportagem de ­CartaCapital revelam que, em 2025, o País zerou suas vendas de combustíveis para a economia de guerra israelense.

Em 2021, depois de anos sem vender o produto a Israel, o governo de Jair Bolsonaro retomou a exportação de combustível para o parceiro de extrema-direita. Naquele ano, 1,9 milhão de barris foram vendidos, segundo o levantamento da Agência Nacional do Petróleo. No ano seguinte, o volume deu um salto e chegou a 11,9 milhões de barris. O volume caiu de forma drástica em 2023, no primeiro ano do governo Lula e o início da crise na Faixa de Gaza. Mas, em 2024, essa exportação havia atingido 2,9 milhões de barris, aumento de 51% que gerou um alerta generalizado entre ativistas de direitos humanos.

O fluxo de petróleo contrastava com a crise diplomática profunda entre os dois países. Lula foi declarado persona non grata em Israel, por sua postura de defesa dos palestinos, enquanto as embaixadas de cada país estão com os cargos máximos vazios. Naquele momento, o BDS Brasil (Boicote, Desinvestimento e Sanções) passou a conduzir uma campanha pelo fim das exportações brasileiras de petróleo a Israel. A iniciativa foi realizada em conjunto com as federações nacionais dos trabalhadores do setor petrolífero, FUP e FNP, e organizações como Vozes Judaicas por Libertação e o PIPD. O argumento principal era de que a venda abasteceria a máquina de guerra judaica, denunciada por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.

Ainda que não tivesse sido realizado pelo Estado brasileiro, o abastecimento seguia no sentido contrário aos apelos da comunidade internacional. Ainda em 2024, a relatora especial da ONU Francesca­ Albanese apontou a participação da Petrobras na cadeia de fornecimento de petróleo destinada a Israel. A petroleira nacional garante que não vende o combustível para o país desde outubro de 2023. Os números apontavam, porém, que em 2024 o Brasil seria o quarto maior fornecedor de petróleo cru a Israel desde o início da ofensiva militar. O produto brasileiro representou perto de 9% do total consumido pelos israelenses durante o conflito e teria sido comercializado pela Shell e pela TotalEnergies.

Na ofensiva em Gaza, o petróleo e os combustíveis passaram a ser um elemento crítico nas negociações. Israel dificultou a entrada dos produtos no território palestino, alegando que seriam desviados pelo Hamas. A Organização Mundial da Saúde e entidades humanitárias denunciaram o gesto que, em muitos casos, deixou hospitais sem energia.

Movimentos de direitos humanos temem, porém, que as exportações continuem de forma camuflada

No caso de Israel, as múltiplas frentes de guerra levaram as importações de combustíveis a atingir seu maior nível desde julho de 2022. No caso do Brasil, os dados do Ministério do Desenvolvimento mostram que o petróleo foi o principal produto exportado pelo Brasil a Israel em 2024, totalizando 216 milhões de dólares. O volume representava 30% do total vendido pelo País ao mercado israe­lense. A constatação levou as federações dos petroleiros a iniciar um diálogo com as autoridades brasileiras e encaminharam uma solicitação formal ao governo Lula para a suspensão das exportações. Naquele momento, a mobilização sindical estava fundamentada nas obrigações decorrentes do direito internacional.

Para Andressa Soares, Ph.D. em Direito Internacional e coordenadora de campanhas do Comitê Nacional Palestino do BDS para a América Latina, o fim das vendas representa “importante vitória da campanha” e um “forte indicativo de que a pressão da sociedade civil contribuiu para interromper o comércio direto”. Os organizadores da campanha dizem, no entanto, que a pressão vai continuar. Segundo Soares, as investigações da Oil Change International em 2025 e dados de transporte marítimo compilados pela FNP levantam “sérias preocupações quanto à possível triangulação das exportações por meio da Sardenha, na Itália, reconhecida como um importante centro de transbordo de petróleo”. A ativista alerta: “Há indícios de que empresas exportadoras, especialmente a Vitol, alvo de uma campanha internacional que será lançada nas próximas semanas, possam estar utilizando essa rota para ocultar o destino final do petróleo brasileiro”. De acordo com ela, caso o petróleo bruto brasileiro esteja chegando a Israel por meio de reexportações realizadas por terceiros países, isso não afasta a responsabilidade internacional do Brasil. “À luz do direito internacional, a responsabilidade do Estado é determinada pelo conhecimento e pela contribuição material ao fornecimento, não apenas pela rota formal utilizada para o transporte.” Mais: “Reconhecemos como positiva a redução das exportações diretas e entendemos que ela demonstra um importante reconhecimento, por parte do Estado brasileiro, de suas responsabilidades internacionais”.

Para o grupo de ativistas, a ação precisa ir além. “Diante das evidências de possíveis mecanismos de triangulação, é essencial que o governo brasileiro determine uma auditoria independente sobre os destinos finais das exportações de petróleo e suas rotas intermediárias”, afirma Soares. “Além disso, solicitamos a adoção de uma proibição expressa das exportações de petróleo e demais produtos energéticos para Israel, como o decreto de embargo às exportações de carvão imposto pela Colômbia, em conformidade com as obrigações assumidas pelo Brasil nos termos da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, do Tratado sobre o Comércio de Armas e das medidas provisórias determinadas pela Corte Internacional de Justiça.”

Outro ponto criticado por ativistas é o fato de as Forças Armadas e as polícias estaduais brasileiras continuarem a adquirir equipamentos militares de empresas de defesa israelenses. Em 2024, o movimento BDS e seus parceiros no País conseguiram barrar um contrato de 250 milhões de dólares com a Elbit Systems para a aquisição de 36 obuseiros autopropulsados. Planos recentes de modernização militar indicam, porém, que fornecedores israelenses permanecem como parceiros ativos nas aquisições de defesa do Brasil. •

Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sob pressão’

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