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Inflamação crônica
À medida que envelhecemos, nosso sistema imunológico tende a perder eficiência e pode, ainda, produzir respostas inflamatórias persistentes, afetando órgãos e tecidos
Você já ouviu falar em inflammaging? O termo, ainda pouco conhecido fora dos círculos científicos, combina as palavras inflamação e envelhecimento. Ele descreve um fenômeno cada vez mais estudado: à medida que envelhecemos, nosso sistema imunológico tende a perder eficiência na defesa do organismo e, ao mesmo tempo, pode passar a produzir respostas inflamatórias persistentes, afetando órgãos e tecidos.
Mas envelhecer não é apenas um processo biológico. Fatores sociais também pesam, e muito. Dados do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), em parceria com o Cedeplar/UFMG, mostram diferenças superiores a 14 anos na expectativa de vida entre grupos da população brasileira.
Em algumas regiões do Nordeste, a expectativa de vida gira em torno de 66,7 anos; no Sul, pode chegar a 80,9 anos. Desigualdade social, violência, acesso precário a serviços de saúde e a alimentos de qualidade, saneamento básico, educação e lazer ajudam a explicar esse abismo.
Nesse contexto, envelhecer é inflamar-se – física e, muitas vezes, emocionalmente. A ciência tem mostrado que tudo está conectado. Pesquisadores da Universidade de Cork, na Irlanda, publicaram recentemente uma revisão sobre os impactos da dieta nas emoções.
Como um espelho do mundo externo, o interior do corpo abriga uma complexa comunidade de micro-organismos: a microbiota. Esse conjunto de bactérias, fungos e outros seres microscópicos vive principalmente no intestino e participa de funções essenciais para a saúde.
O chamado eixo microbiota-intestino-cérebro descreve a comunicação de mão dupla entre o intestino e o cérebro, mediada por sinais nervosos, metabólicos, imunológicos e hormonais. É como uma orquestra em funcionamento constante. Esse eixo parece ter papel relevante na saúde mental, influenciando a resposta ao estresse, o humor e a cognição.
No estudo irlandês, dietas ricas em gordura e açúcar foram associadas a maior risco de ansiedade e depressão. Já padrões alimentares ricos em fibras, alimentos fermentados ou característicos da dieta mediterrânea aparecem associados a melhores indicadores de saúde mental.
Mudanças no comportamento alimentar podem favorecer a produção de substâncias importantes para o funcionamento do cérebro, em interação com a chamada microbiota “do bem”.
Nessa complexa engrenagem orgânica, a obesidade ocupa um lugar importante como fator inflamatório. Alimentação equilibrada e prática regular de exercícios seguem sendo aliados fundamentais para um envelhecimento mais saudável. No entanto, para algumas pessoas, especialmente aquelas com predisposição genética à chamada síndrome metabólica, essas medidas podem não ser suficientes.
As células de gordura produzem substâncias chamadas adipocinas, capazes de estimular processos inflamatórios e, em determinadas condições, favorecer ambientes propícios ao desenvolvimento e à disseminação de células cancerosas. Por isso, compreender a obesidade como uma doença crônica e multifatorial é essencial.
Nas últimas semanas, muito se tem falado sobre as “canetas emagrecedoras”, medicamentos que começam a ganhar espaço também no SUS. Alguns estudos sugerem que essas terapias podem reduzir o risco de certos tipos de câncer, em parte pela perda de peso e, possivelmente, por efeitos diretos em mecanismos celulares. Resultados promissores foram observados em pessoas com obesidade importante e tumores como os de fígado, esôfago, endométrio, mama, ovário e próstata.
É preciso, contudo, muita cautela. Esses benefícios não devem ser generalizados para pessoas sem obesidade. Em indivíduos apenas moderadamente acima do peso, especialmente com IMC abaixo de 30 kg/m², os riscos e benefícios precisam ser avaliados caso a caso. Há ainda dúvidas sobre possíveis riscos específicos, como os relacionados a alguns tipos de câncer de tireoide.
Como sempre, o caminho mais seguro passa pelo bom senso, pelo acompanhamento médico e pelo respeito à ciência. Medicamentos inovadores podem transformar vidas, mas não substituem políticas públicas de saúde, alimentação adequada, prevenção, acesso ao cuidado e enfrentamento das desigualdades que adoecem o corpo e a alma. •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Inflamação crônica’
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