Entrevistas
Os planos de Haddad para avançar no interior de São Paulo em disputa contra Tarcísio
Segundo o pré-candidato do PT, a região paga caro pelo tarifaço de Donald Trump, apoiado por bolsonaristas
O conservadorismo do interior paulista tem sido um obstáculo para o PT em eleições de governador. Na campanha passada, Fernando Haddad venceu Tarcísio de Freitas na capital e em sua região metropolitana, mas o voto interiorano levou o adversário ao poder. E agora, que tipo de argumento o ex-ministro da Fazenda pretende usar para angariar simpatia nessa região em outro duelo com Tarcísio?
“O interior de São Paulo está pagando um preço caro pelo tarifaço do Trump, que tem apoio dos bolsonaristas, e pela falta de apoio na segurança do transporte de mercadorias, que estão cada vez mais caras no estado por causa do custo da segurança nesse transporte”, disse Haddad nesta quarta-feira 8.
O pré-candidato a governador pelo PT concedeu uma entrevista coletiva online organizada pelo Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, da qual CartaCapital participou.
No caso dos produtores rurais, além de lembrar que foram afetados pelo “tarifaço” de Donald Trump, Haddad comentou ter sido no governo Lula que o Plano Safra atingiu valores recordes. Lançado anualmente com empréstimos a juro subsidiado, em especial do Banco do Brasil, o plano tem 610 bilhões de reais neste ano, 16 bilhões a mais do que em 2025. O juro caiu para uma faixa de 9% a 12,5%. Antes, variava de 10% a 14%.
“A produção cresceu todos os anos no atual governo porque os planos são recorde”, anotou Haddad. “Quem abriu 500 mercados para produtos primários brasileiros no mundo? Foi a diplomacia do presidente. Toda viagem, ele abria mercados. O agro cresce com o presidente Lula (…), que nunca se importou com simpatia ou antipatia de setores da economia. Ele sabe que apoiar o agro é apoiar o cidadão.”
Haddad voltou a apontar o surgimento de “milícias” no interior paulista. Motivo: os produtores rurais resolveram contratar segurança privada para transporte, em razão do mau serviço público nessa área. “Isso traz um risco enorme para o começo de operações de milicianos como o bolsonarismo no Rio de Janeiro”, afirmou.
A segurança pública será uma das bandeiras eleitorais do ex-ministro, que promete “abraçar o tema” e colocá-lo na mesa do governador. Ele criticou o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), que por três anos foi secretário de Segurança Pública de Tarcísio, por causa do relatório sobre a lei federal antifacção, aprovada no início deste ano pelo Congresso.
Segundo Haddad, Derrite tirou o crime do “colarinho branco” do alcance da nova legislação. Ele comentou que Daniel Vorcaro, dono do finado banco Master, não será atingido. A versão original da lei, proposta pelo governo Lula, facilitava o confisco judicial de bens oriundos do crime organizado. Esses dispositivos desapareceram no relatório de Derrite.
Ao tratar de serviços públicos, o ex-ministro afirmou que aqueles prestados pelo governo paulista têm piorado por obra de desestatizações. “Está quase tudo privatizado no estado de São Paulo. O serviço funerário da cidade de São Paulo foi privatizado pela direita. Todos os parques estão sendo privatizados, alguns estão virando shopping a céu aberto, perdendo espaço de contemplação. E tudo o que se fala é continuar essa sanha privatista que faz com que os paulistas percam a noção de espaço público, de serviço público.”
Questionado sobre a eventual revisão da venda da Sabesp, principal privatização levada adiante por Tarcísio, Haddad disse que quer “rever” o contrato, pois “a conta de água subiu e o serviço piorou”. O ex-ministro também desconfia da sinceridade do governador, por este ter dito publicamente nos últimos dias ter desistido de repassar a mãos particulares as linhas de Metrô da capital que ainda estão sob controle estatal. A declaração de Tarcísio era dúbia: afirmou que a “tendência” é a empresa pública continuar a operar essas linhas.
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