Do Micro Ao Macro
Por que algumas trends viram negócios milionários e outras desaparecem em duas semanas?
Pesquisa mostra que a maioria dos brasileiros já comprou por indicação de influenciadores, mas especialistas apontam risco para marcas sem planejamento.
Oitenta e três por cento dos brasileiros já compraram produtos acima de R$ 100 por indicação de influenciadores. O dado é de um levantamento da Rakuten Advertising e ajuda a explicar por que trends conseguem transformar produtos em fenômenos de vendas quase da noite para o dia.
A pesquisa aponta ainda que 38% desse público chegou a gastar mais de R$ 500 a partir de uma recomendação. Além disso, 64% dos consumidores descobrem produtos por meio de criadores de conteúdo diariamente ou semanalmente, o que reforça o peso das redes sociais no consumo atual.
Casos como Labubu, Morango do Amor e os cadernos Bobbie Goods ilustram esse movimento. Enquanto algumas marcas conseguem converter o hype em faturamento, outras entram na onda sem planejamento e veem o interesse do público sumir tão rápido quanto surgiu.
Para especialistas, no entanto, acompanhar uma trend não significa aderir a qualquer viral. A diferença entre um fenômeno passageiro e um resultado consistente está na capacidade de avaliar se aquela tendência conversa com a identidade da marca, o público e a proposta de valor do negócio.
Trends exigem coerência com a marca
Thiago Muniz, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e CEO da Receita Previsível e da B2B Stack, avalia que seguir uma tendência não significa abandonar quem a empresa é. “É fácil se perder no hype e lançar produtos ou campanhas sem conexão com a identidade da empresa. O risco é conquistar atenção momentânea e perder credibilidade no longo prazo”, afirma.
Segundo Stefani Pereira, jornalista e fundadora da Temma, agência boutique de relações públicas voltada a marcas femininas, o desafio ultrapassa a visibilidade. “As redes sociais deixaram de ser vitrines de produtos e viraram espaços de diálogo. Quando uma marca entra em uma trend, precisa pensar em visibilidade e também em como essa comunicação constrói narrativa e reputação ao longo do tempo”, pondera.
Outro dado da mesma pesquisa reforça essa exigência de coerência. Entre os consumidores ouvidos, 84% deixam de seguir influenciadores quando percebem falta de autenticidade. Para Muniz, a mesma lógica vale para as marcas.
Planejamento separa hype de resultado
“O segredo é observar o que faz sentido para o negócio e, ao decidir entrar em uma trend, montar uma estratégia que ultrapasse o imediatismo. Isso envolve medir resultados, planejar a comunicação e manter coerência com a proposta de valor da empresa”, explica Muniz.
Assim, o planejamento aparece como o principal diferencial entre marcas que convertem uma tendência em crescimento e as que apenas acompanham um movimento passageiro. “É preciso se preparar para decisões rápidas, observar o interesse do público ao longo do tempo e avaliar se o mercado é viável para o produto que viralizou”, diz o especialista.
Ele recomenda que empreendedores acompanhem o comportamento do consumidor de forma constante e questionem o valor entregue pelo próprio negócio. “Vale perguntar sempre por que o cliente escolheu a marca. Essa reflexão ajuda a identificar quais tendências fazem sentido para cada empresa”, orienta Muniz.
Formato de vídeo impulsiona trends
Entender como o consumidor consome conteúdo também pesa nessa equação. Segundo a Rakuten Advertising, 55% dos brasileiros preferem vídeos curtos, como Reels, formato que puxa boa parte das tendências atuais.
Mesmo diante de grande repercussão, Muniz destaca a importância de avaliar se os resultados foram efetivos. “Muitas empresas se limitam a acompanhar comentários ou impressões durante a interação, mas isso nem sempre reflete a experiência real do cliente. O ideal é fazer pesquisas depois, quando o consumidor já concluiu o contato com a marca, para entender se os objetivos foram atingidos”, explica.
Em um ambiente onde tendências nascem e somem em poucos dias, especialistas avaliam que velocidade sozinha não garante resultado. A combinação de agilidade, planejamento e coerência com a identidade da marca separa quem apenas acompanha um viral de quem consegue crescer a partir dele. “Em um ambiente digital onde trends nascem e morrem em poucos dias, apenas as marcas que combinam agilidade com planejamento conseguem converter virais em resultado duradouro”, reforça Muniz.
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