Ricardo Pieralini

Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.

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Bruto, animal, eu sou o homem de neandertal do menino Ney e da Paulliny Tort

Milhares de anos se passaram e continuamos como os personagens centrais da história do livro ‘Os Imortais’

Bruto, animal, eu sou o homem de neandertal do menino Ney e da Paulliny Tort
Bruto, animal, eu sou o homem de neandertal do menino Ney e da Paulliny Tort
Divulgação/Editora Fósforo
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Passei quatro anos de minha vida sem comer carne e penso seriamente em voltar ao vegetarianismo. Culpa da Paulliny Tort, escritora que lançou recentemente o romance Os Imortais (Editora Fósforo). O livro narra o dia a dia de um grupo neandertal que, em sua saga de viver-sobreviver, vai se relacionando com o mundo, a natureza, outros animais, incluindo alguns homo sapiens. 

É ficção, mas tudo o que somos está lá. Política, disputas de poder, relações predatórias com o meio, injustiças, crueldades e violências em fraturas expostas. Milhares de anos se passaram e continuamos como os personagens centrais da história, brutalizados e animalescos. 

O texto da Paulliny é tão natural quanto o cheiro de sangue fresco, presente em tantas páginas, e que tirou meu apetite para qualquer carne desde o começo da leitura. Quando como, faço com culpa. Sinto piedade dos bichos daqui e dos que a Paulliny criou e matou. Eu sou o homem de neandertal catando caramujo na beira do rio, certo, menino Ney (Matogrosso)? 

Luto para manter vivo um senso agigantado de piedade, faço isso há cinquenta anos e quase nunca é fácil. Sou como um dos personagens centrais de Os Imortais. Que eu não acabe como ele. 

Comprei a obra da Paulliny Tort na Feira do Livro, que aconteceu recentemente no Pacaembu, em São Paulo. A vendedora falou “ótima escolha, me fez repensar toda a vida”. O depoimento é tão bonito quanto o romance e resume, afinal, o que deve ser literatura. 

Porque um livro pode ser quase tudo. Coisa inútil, como já defendeu de forma sagaz a escritora argentina Camila Sosa Villada, pelo fato de a literatura não ter um objetivo exato ou a obrigação de justificar sua existência. Mas fundamental e transformador, como no caso da moça da Feira do Livro. Não à toa, Milton Hatoum soltou uma frase certeira dias atrás: “Os inúteis perigosos são os que não leem”.

Paulliny, seu Os Imortais continua ecoando aqui, neste momento, enquanto como este belíssimo prato de folhas frescas e vegetais.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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