CartaCapital
Soberania/ Proposta indecorosa
O PT protocola ações contra Flávio Bolsonaro após carta de Marco Rubio
O PT protocolou, na terça-feira 30, duas ações judiciais contra Flávio Bolsonaro e o PL, legenda pela qual o senador pretende disputar a Presidência da República. Nas representações encaminhadas à Procuradoria-Geral da República e ao Ministério Público Eleitoral, o partido do presidente Lula sustenta que a troca de correspondências entre o parlamentar e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, viola a soberania brasileira.
Após a péssima repercussão das tarifas impostas pelos EUA aos produtos brasileiros, um dos desdobramentos da recente visita de Flávio ao presidente Donald Trump, o senador apressou-se em enviar uma carta a Rubio, na qual pede o relaxamento da sanção. Em resposta, divulgada pelo jornal O Globo, o secretário de Estado rejeitou a solicitação, sob a alegação de que o Brasil adota práticas comerciais desleais. Rubio agradeceu, porém, uma espantosa proposta feita pelo pré-candidato do PL: “Observamos seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e sua oferta generosa de colocar uma equipe de transição à nossa disposição, caso o senhor seja eleito”.
O PT pediu à PGR a instauração de um inquérito policial contra o parlamentar. Ao oferecer a Washington acesso à sua “equipe de transição”, caso seja eleito presidente, o senador pode ter cometido crimes contra a soberania nacional, corrupção passiva e violação de sigilo funcional, argumenta a legenda. “O conteúdo expõe, com clareza, que houve tratativa direta entre um parlamentar brasileiro e uma potência estrangeira, na qual o agente público nacional parece ter oferecido, como contrapartida ou gesto de aproximação e auxílio em campanha eleitoral por Estado estrangeiro, dados e informações tratadas como sigilosas pelo Estado brasileiro”, afirma a representação.
A Rouanet dos bolsonaristas
O diretório nacional do PL destinou 600 mil reais do fundo partidário à ONG Passos da Liberdade, presidida pelo pré-candidato a deputado estadual Rodrigo Cassol Lima. Segundo a Folha de S.Paulo, a entidade recebeu repasses mensais de 150 mil reais, de janeiro a abril, para prestar “assessoria de comunicação” ao partido em Minas Gerais. Um dos principais projetos da organização, no entanto, é a produção do documentário Nós com recursos de emendas parlamentares, a modalidade de financiamento favorita dos críticos da Lei Rouanet. Antes intitulado Genocidas, o filme se propõe a denunciar regimes autoritários comunistas e recebeu 860 mil reais dos deputados Eduardo Bolsonaro, Mario Frias e Marcos Pollon, todos do PL.
EUA/ Trump não pode tudo
A Suprema Corte decide que filhos de imigrantes têm direito à cidadania
O presidente ainda tenta restringir esse direito no Congresso – Imagem: Saul Loeb/AFP
Em novo revés para Donald Trump, a Suprema Corte dos EUA decidiu, na terça-feira 30, que todas as crianças nascidas em território norte-americano têm direito à cidadania. Ao retornar à Casa Branca, em janeiro de 2025, o republicano editou um decreto para encerrar a concessão automática desse direito a filhos de imigrantes em situação irregular, dando início a uma intensa batalha judicial. Dos nove magistrados que participaram do julgamento, seis entenderam que a medida viola a 14ª Emenda da Constituição dos EUA.
O governo Trump argumentava que a 14ª Emenda foi aprovada para proteger pessoas escravizadas e seus descendentes, mas estaria sendo aplicada de forma indevida a filhos de imigrantes ilegais. Em abril, o presidente chegou a dizer que os EUA eram “o único país do mundo estúpido o bastante para permitir a cidadania por direito de nascimento”.
Trata-se de mais uma fake news disseminada pelo republicano. Um levantamento do Pew Research Center mostra que ao menos 33 países, entre eles Brasil, Canadá e México, concedem cidadania automática a quem nasce em seu território. Outros 26 adotam critérios mais restritivos, como a exigência de que um dos pais tenha nascido no país.
Agora, Trump apela ao Legislativo. “Não é necessária uma emenda constitucional longa e complicada! O Congresso deve começar hoje a trabalhar para acabar com a cidadania por nascimento”, escreveu na Truth Social.
Colapso humanitário
Os dois terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho deixaram ao menos 2.295 mortos, segundo o último balanço divulgado pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez. Em pronunciamento na tevê estatal, ele afirmou ainda que 11.267 habitantes ficaram feridos em decorrência dos abalos sísmicos. As autoridades estimam que quase 59 mil edifícios tenham sido danificados ou destruídos, enquanto dezenas de milhares de cidadãos seguem desaparecidos. A Agência da ONU para Refugiados alerta que a situação humanitária nas áreas atingidas se deteriorou rapidamente nos últimos dias. Segundo a Acnur, há grave escassez de alimentos, colapso de serviços básicos e aumento dos riscos enfrentados pela população deslocada.
África do Sul/ Surto de xenofobia
Violentos protestos exigem a expulsão de imigrantes irregulares
A sociedade que enfrentou o drama do Apartheid encontrou novo alvo – Imagem: Emmanuel Croset/AFP
Envoltos em bandeiras e armados com porretes de madeira, milhares de manifestantes ocuparam as ruas das principais cidades da África do Sul, na terça 30, para defender a expulsão de imigrantes em situação irregular. Os violentos protestos coincidem com o fim do prazo concedido pelo governo para que estrangeiros sem documentação deixassem voluntariamente o país.
Os tumultos resultaram em ao menos quatro mortes. Centenas de imigrantes tiveram casas e negócios vandalizados. O movimento anti-imigração “March and March”, sediado em Durban, prometeu organizar atos semanais contra os estrangeiros. “Nos próximos seis meses, pedimos que nossos recursos nacionais sejam utilizados para expulsar os imigrantes ilegais. De prédio em prédio, eles precisam ir embora”, disse Jacinta Ngobese, líder do grupo.
Muitos sul-africanos acusam imigrantes de outros países da África Subsaariana de roubar empregos e sobrecarregar os serviços de proteção social. Especialistas alertam, porém, que as conclusões carecem de evidências sólidas. O país, que viveu o drama do Apartheid, enfrenta hoje uma crise marcada por desemprego elevado, com perto de um terço da população economicamente ativa fora do mercado de trabalho.
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’
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