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O anime que nunca existiu: a copa que a torcida consome sem questionar

Criadores de fan-animes em IA viralizam com batalhas épicas entre seleções, mas o fenômeno esconde um importante dilema ético

O anime que nunca existiu: a copa que a torcida consome sem questionar
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A síntese de animes com inteligência artificial virou febre neste período de Copa do Mundo de 2026. O que antes era território exclusivo de estúdios de animação japonesa — e exigia meses de trabalho quadro a quadro — agora é gerado em minutos por algoritmos que misturam traços de Super Campeões com a estética de Dragon Ball e One Piece. O resultado domina os feeds do Instagram e TikTok: Vinicius Júnior com aura de Super Saiyajin, Mbappé como um comandante de exército francês, Haaland liderando uma invasão viking.

Se por um lado, é uma clara demonstração do quanto a cultura da animação japonesa está enraizada no nosso imaginário coletivo, também retoma um debate urgente: a torcida brasileira está consumindo esse conteúdo nas redes sociais sem questionar a origem, o método ou a ética por trás daquilo que está assistindo.

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Narrativas que engajam milhares

O perfil Animeblip (@animeblip_) viralizou com um conceito sofisticado. Seu vídeo sobre Noruega x França — que acumula mais de 614 mil visualizações — não se limitou a recriar lances da partida: ele construiu uma narrativa. Haaland chega como um senhor da guerra viking. Mbappé espera como o comandante do exército francês. Dois monstros. Um campo de batalha. O post vende o confronto como um arco de guerra de anime, com direito a legenda épica e estética cinematográfica. O resultado é um dos conteúdos mais compartilhados desta Copa.

Já o criador de conteúdo brasileiro Leonardo Dewa (@leonrdewa) também viu seu conteúdo ganhar peso nas redes, trazendo os jogadores encarnando auras animalescas, como em Os Cavaleiros do Zodíaco com os signos, ligadas aos seus países, em partidas também em formato de anime.

A repercussão do seu vídeo entre Brasil e Marrocos foi tão grande que o GE publicou uma matéria sobre ele, intitulando Dewa como um “ilustrador”. Só que ao fazê-lo, a comunicação tradicional apaga a diferença fundamental entre o trabalho artesanal e a curadoria algorítmica. Ilustradores de verdade — que passam anos estudando traço, perspectiva e anatomia — veem seu ofício sendo nivelado a uma operação de prompt.

O fantasma de Ghibli e o preço real da febre

Essa discussão não é nova. Em abril de 2025, a #GhibliAesthetic tomou o mundo: milhões de usuários transformaram fotos em arte no estilo do Studio Ghibli usando o ChatGPT. A febre foi tão grande que os servidores da OpenAI “derreteram”. O problema? O Studio Ghibli não autorizou, não participou e não recebeu nada.

Hayao Miyazaki, cofundador do estúdio, já havia declarado em 2016 que a IA é “um insulto à própria vida”. A declaração voltou a circular, mas não impediu o consumo em massa. Um consumo que não para e ignora o debate ético.

Enquanto criadores ocidentais se divertem com os resultados, os profissionais da animação japonesa sentem o impacto no bolso. Pesquisa da Japan Freelance League revelou que 20% dos mangakás e ilustradores relatam queda de renda atribuída à IA. A Japan Illustration Association constatou que 76% dos mangakás e 59% dos ilustradores têm visão negativa da tecnologia.

Vinte por cento pode parecer baixo diante do alarde nas redes. Mas para uma indústria freelance de margens apertadas, perder entre 10% e 50% da renda — como a pesquisa aponta — é o suficiente para empurrar talentos para fora do mercado. A IA não apenas imita estilos, ela já está substituindo contratos reais.

Pra fechar!

O que testemunhamos nesta Copa não é apenas uma febre de conteúdo viral. É a cristalização de um novo produto cultural: o anime que nunca existiu, gerado por máquinas que aprenderam a imitar traços de artistas que não autorizaram, não foram creditados e não serão remunerados.

A provocação da semana: se 600 mil pessoas assistem a uma batalha entre Mbappé e Haaland em formato de anime sem perguntar de onde veio aquele traço, o que estamos celebrando — a criatividade humana ou a eficiência algorítmica da cópia?

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