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Madraças ianques

Republicanos impõem o ensino religioso e avançam na guerra cultural

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Cruzada. Os Dez Mandamentos foram afixados em escolas de vários estados. No Texas, trechos da Bíblia vão virar leitura obrigatória das unidades públicas – Imagem: iStockphoto
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Em um país que se define constitucionalmente como laico, as escolas se tornaram um dos campos mais disputados da batalha entre religião e política. Na sexta-feira 26, a maioria republicana no Conselho de Educação do Texas, estado do Sul que faz fronteira com o México, escancarou esse entrelaçamento ao aprovar a inclusão de passagens da Bíblia entre as leituras obrigatórias. Em um sistema que garante, no papel, a liberdade religiosa e proíbe o estabelecimento de uma fé oficial em detrimento de outra, a escola pública norte-americana tem se tornado, sobretudo na última década, um instrumento para naturalizar uma identidade cristã, branca e conservadora como padrão nacional. O movimento nada fica a dever às madraças mulçumanas, tão criticadas pelo Ocidente.

O presidente Donald Trump conhece bem o poder da diretiva texana. A nova medida, que começa a ser implantada a partir do ano letivo de 2030, tem potencial para funcionar como máquina de formação conservadora em larga escala. A rede pública do Texas abriga mais de 5 milhões de alunos, aproximadamente um em cada dez estudantes do país. Em setembro do ano passado, Trump havia deixado claro o projeto. No encontro da Comissão de Liberdade Religiosa da Casa Branca, o republicano não só celebrou a aproximação entre Estado e religião, mas anunciou que o Departamento de Educação emitiria novas diretrizes “garantindo o direito de oração nas escolas públicas”, numa leitura bastante elástica da neutralidade exigida pela Primeira Emenda.

Meses antes, havia escolhido o vice-governador do Texas, Dan Patrick, para comandar a comissão, sinal de que o laboratório texano e a agenda federal caminham juntos. Quando a decisão no Texas reverberou entre jornalistas durante coletiva no Salão Oval, Patrick tomou a palavra e afirmou que “nenhum presidente em nossa história defendeu mais a Deus” do que Trump. Também atacou o próprio conceito de separação entre Igreja e Estado e disse que o governo federal avalia uma série de medidas para ampliar a proteção da “expressão religiosa” na vida pública.

A decisão texana virou alvo de críticas de diferentes organizações. A ­Americans United for Separation of Church and State, entidade de defesa da liberdade religiosa, classificou a medida como “mais um exemplo de políticos impondo o cristianismo a crianças em escolas públicas”. Em nota à imprensa, a presidente da instituição, Rachel Laser, afirmou que “as escolas públicas não devem obrigar as crianças a ler histórias bíblicas e a aprender desinformação sobre a história do nosso país”.

Há um ataque coordenado ao conceito de Estado laico

O quadro se agrava quando se observa que o Texas não é exceção, mas a ponta de lança de um movimento mais amplo. Em 2024, deputados da Louisiana­ aprovaram uma lei que exigia que todas as salas de aula das escolas estaduais, do jardim de infância à universidade, exibissem cartazes com os Dez Mandamentos em “fonte grande e de fácil leitura”. O regimento foi, no entanto, considerado inconstitucional por violar a Primeira Emenda. Naquele mesmo ano, o presidente da Câmara dos ­Deputados, Mike Johnson, saiu em defesa da lei, afirmando que “os Dez Mandamentos tiveram uma influência profunda e são cruciais para o desenvolvimento da civilização ocidental e, certamente, da nossa nação”. Em sua plataforma digital, a Truth Social, Trump defendeu a legislação afirmando que aquele poderia ser “o primeiro passo importante no reviver da religião, algo desesperadamente necessário em nosso país”. Disse mais: “Me encantam os Dez Mandamentos nas escolas públicas, escolas privadas e muitos outros lugares. Leiam: como podemos, como nação, estar errados???”. Desde então, o caso vive um vaivém judicial: decisões no tribunal de apelações abriram espaço para a vigência parcial da norma enquanto o litígio continua.

Em Oklahoma, a ofensiva vai além dos símbolos na parede. Em 27 de junho de 2024, durante reunião do conselho do Departamento de Educação em ­Oklahoma City, o então superintendente estadual Ryan Walters anunciou que todas as salas de aula do 5º ao 12º ano deveriam ter uma Bíblia, e os professores passariam a “ensinar com a Bíblia” em suas disciplinas. Sindicatos de professores e juristas locais reagiram imediatamente e, após meses de resistência, a obrigatoriedade caiu por terra. A legislação estadual permanece e determina a leitura da Bíblia em escolas públicas, sobretudo nos distritos mais conservadores.

A Flórida, governada pelo republicano Ron DeSantis, oferece uma versão mais sutil e, por isso mesmo, muitas vezes mais eficaz, dessa fusão entre religião e política. Em 2021, durante uma cerimônia na sinagoga Shul of Bal Harbour,­ em Miami, DeSantis sancionou a Lei HB 529, que obriga as escolas públicas do estado a iniciarem o dia com um “momento de silêncio” de um a dois minutos. No papel, trata-se de tempo neutro de reflexão, no qual os professores não podem sugerir que os alunos rezem ou adotem qualquer prática específica, mas, na retórica do governador, é um instrumento para recolocar Deus na rotina escolar. “A ideia de que você pode simplesmente expulsar Deus de todas as instituições e ter sucesso, lamento, os nossos fundadores não acreditavam nisso”, disse ao assinar a lei.

Essa convergência entre religião e política não acontece no vazio. Pesquisas do Pew Research Center e de institutos como o PRRI confirmam que os evangélicos brancos seguem o núcleo mais fiel da coalizão trumpista e explicam por que investir na “cristianização” da escola pública é, ao mesmo tempo, projeto ideológico e cálculo eleitoral. Em 2024, algo em torno de oito em cada dez eleitores do grupo votou em Trump.

Levantamentos do Pew apontam apoio de 81% a 82% entre protestantes evangélicos brancos, com cerca de 60% dos católicos brancos igualmente inclinados ao republicano. Estudos publicados em 2025 e 2026 indicam que esse entusiasmo sofreu uma leve queda, mas continua alto, perto de sete em cada dez evangélicos brancos aprovam o desempenho de Trump na Casa Branca, contra pouco mais de um terço da população em geral, e seguem mais favoráveis às suas políticas do que qualquer outro grande grupo religioso. Nesse contexto, o laboratório texano, as paredes bíblicas da Louisiana, as ordens vacilantes de Oklahoma e o silêncio devocional da Flórida ganham outra espessura. Não são apenas políticas educacionais discutíveis, mas peças de um arranjo no qual a extrema-direita usa a religião para expandir seu público, fidelizar a base e produzir uma cultura em que questionar a fusão entre fé e poder passa a soar como ataque à própria identidade nacional. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Madraças ianques’

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