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O PT vê chances de Marília Campos virar governadora, mas ela insiste na candidatura ao Senado

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"Reconstrução. Segundo Campos, o eleitorado do estado ainda não esqueceu – Imagem: Redes Sociais/Marília Campos"
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Eleições 2026

Após a desistência do senador Rodrigo Pacheco, do PSD, que preferia uma cadeira vitalícia no Supremo Tribunal Federal, o PT ficou sem um candidato competitivo e um palanque forte para Lula na eleição em Minas Gerais, colégio eleitoral normalmente decisivo na disputa presidencial. Desde então, a cúpula do partido tenta convencer a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos, a trocar a corrida ao Senado pela aposta ao governo estadual. Segundo muitos dirigentes, Campos, caso aceitasse o desafio, teria chances reais de vencer, mas os inúmeros apelos não a comovem. Até o momento.

Em reunião no domingo 28 com o presidente nacional do partido, Edinho Silva, a ex-prefeita foi direta. “Renunciei ao mandato de prefeita do meu município para ser pré-candidata ao Senado por Minas Gerais. É a minha motivação e diria que é a maior viabilidade de o PT ter uma vitória no nosso estado, uma vitória política e eleitoral”, rea­firmou a jornalistas, na terça-feira 30, durante ato de campanha em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte. Campos defende, no caso da ­disputa estadual, a formação de uma frente ampla com MDB, PSB e PDT. “Continuo trabalhando dentro da estratégia que foi definida pelo presidente Lula, que é apostar em uma candidatura de centro ao governo”, emendou.

Nos bastidores, o grupo político da ex-prefeita distribuiu, há uma semana, uma carta analítica a respeito do cenário político. “Marília tem estratégia clara: nossa experiência no governo de Minas não foi bem-sucedida e, por isso mesmo, não devemos ter protagonismo na candidatura a governador. Nosso candidato deve ser de um partido de centro, devemos apostar na constituição de uma frente ampla, e Marília, em cargo legislativo. A estratégia do PT de Minas de ter candidatura própria é, para dizer o mínimo, uma temeridade. No limite será um desastre político”, diz a missiva, sem meias-palavras.

À primeira vista, trata-se de uma decisão individual. Mas, nas atuais circunstâncias, a recusa leva a um contexto mais amplo. Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, mas da confirmação de que o PT ainda não encontrou uma forma segura de disputar em Minas Gerais. A última experiência terminou com a derrota de Fernando Pimentel para Romeu Zema­. Não foi apenas uma alternância de poder, mas a consolidação de uma mudança na linguagem política no estado. O governo Pimentel enfrentou restrições fiscais severas, atrasos salariais no funcionalismo e desgaste administrativo. “O fracasso do governo petista afetou o capital eleitoral da legenda no estado”, avalia o cientista político Rudá Ricci. Segundo ele, “desde então, o PT não conseguiu lançar sequer candidatura própria nas eleições estaduais seguintes”. Até hoje, “o partido em Minas não fez uma autocrítica em relação ao governo Pimentel”, diz o sociólogo e pré-candidato a deputado federal João Batista dos Mares Guia.

Zema percebeu a mudança de humor. Ao longo de sua gestão, o contraste com o governo anterior deixou de ser episódico e passou a estruturar a comunicação. “O antipetismo deixou de ser reação e virou linguagem”, resume um parlamentar petista sob anonimato. Não se trata de dizer que o governo Pimentel é a causa única. A reorganização da direita, a fragmentação do campo progressista e a dinâmica nacional da polarização igualmente moldaram o ambiente político mineiro.

Sob essas circunstâncias se assenta a resistência da ex-prefeita.

A ex-prefeita de Contagem considera temerária uma candidatura da legenda ao governo estadual

“A candidatura ao governo significa a volta radical da polarização, em um estado que está se despolarizando, devido ao estilo prudente e moderado dos mineiros e porque também a polarização inviabiliza um diálogo mais amplo para retirar Minas da falência”, entende Campos. Segundo ela, não se pode subestimar Romeu Zema, presidenciável do Novo, no estado, pois ele deixou o governo com 60% de aprovação. “A candidatura é a volta da polarização, é o sonho da direita e da extrema-direita mineira”, teria dito a Edinho Silva.

A trajetória da ex-prefeita foi construí­da em Contagem, onde consolidou base eleitoral própria e imagem de gestora com forte aprovação local em quatro eleições. Diferentemente de outras lideranças do PT, sua projeção estadual não depende exclusivamente da estrutura partidária. Disputar o governo significaria algo maior do que uma eleição. Significaria entrar novamente no campo simbólico. E significaria outra coisa, menos explícita e mais determinante: ser incorporada a uma estratégia nacional que não garante controle sobre os resultados.

No desenho político do PT, uma candidatura ao governo de Minas teria a função de servir de palanque para Lula e reorganizar o campo progressista no estado. Na prática, representaria transformar sua principal liderança estadual em instrumento de uma engenharia eleitoral nacionalizada. Campos não se dispõe a ocupar esse lugar. Disputar o Senado, por outro lado, preserva sua trajetória individual. É um ambiente mais controlado, menos exposto ao desgaste de uma eleição majoritária. Lula continua forte em Minas Gerais, com cerca de 42% de apoio, mas essa força não se converte automaticamente em competitividade estadual para o PT, que oscila em torno de 23% das intenções de voto. O eleitor mineiro separa com nitidez a figura do presidente da República do desempenho do partido nas disputas locais. Nos bastidores, a leitura é de que o problema não é apenas de candidatura. É de memória política. “Marília Campos não quer apenas disputar uma eleição. Ela recusa ser instrumento de uma estratégia nacional errática”, resume um dirigente petista sob reserva.

Sem avançar nas negociações com Alexandre Kalil, ex-prefeito de Belo Horizonte e pré-candidato do PDT, a opção na mesa é o jovem Gabriel Azevedo, do MDB, ex-presidente da Câmara de ­Vereadores da capital. Próximo ao tucano Aécio ­Neves, Azevedo defendeu o impeachment de Dilma Rousseff e não chega a ser um nome competitivo. Mas, se não surgirem novas alternativas até o prazo final, o PT terá de se apegar a um velho ditado: “Quem não tem cão caça com gato”. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Irredutível’

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