CartaCapital
O anti-Moro
Tony Garcia promete infernizar a vida do ex-juiz na campanha paranaense
Curitiba, 2005. Quem segue apressado pela calçada dificilmente desconfiaria que, dentro daquele Volkswagen Gol prata estacionado em frente ao Shopping Mueller – uma vaga disputadíssima –, havia um agente secreto à espera de instruções superiores. O chefe da operação, conhecido pelo codinome “Capa Preta”, mandara alugar o veículo em dinheiro vivo, para não deixar rastros. Pouco depois, outro araponga, supostamente a serviço da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), abre a porta, acomoda-se no banco do passageiro e entrega um pacote recheado de arquivos confidenciais, incluindo áudios gravados clandestinamente em um hotel ali pelas redondezas.
Nada de perseguições em alta velocidade ou operações mirabolantes para desarmar bombas nucleares. A missão daquele dia era bem mais modesta: identificar os donos das vozes grampeadas no “aparelho”. É assim que Tony Garcia descreve uma tarde típica em seu antigo ofício. Preso preventivamente em 2004, acusado de fraudes na gestão do extinto Consórcio Nacional Garibaldi, liquidado pelo Banco Central dez anos antes, o empresário afirma ter sido recrutado para atuar como informante da “República de Curitiba” em troca da liberdade.
Para se livrar do “calabouço”, como define a cela que ocupava numa unidade da Polícia Federal, Garcia assinou um acordo de colaboração premiada homologado pelo então juiz Sergio Moro. No entanto, em vez de arrancar detalhes sobre o rombo financeiro ou exigir a delação de comparsas, o magistrado parecia interessado em algo mais ambicioso: investigar um suposto esquema de venda de sentenças judiciais. Para isso, teria encarregado o “colaborador” de coletar provas contra advogados, juízes, desembargadores e até ministros do Superior Tribunal de Justiça.
“Meu único objetivo é escrutiná-lo”, diz o pré-candidato ao governo do Paraná pelo nanico Democracia Cristã
A história não é exatamente inédita. Garcia contou partes dela em diversas entrevistas à imprensa. Muitos detalhes da trama, porém, seguem nebulosos, não por vontade do protagonista deste thriller curitibano. Em 2023, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a PF investigasse as acusações do empresário, mas manteve o caso sob sigilo. A novidade é que o antigo agente secreto decidiu infiltrar-se nas eleições do Paraná para compartilhar algumas pistas com o eleitorado. “O povo paranaense precisa saber do que Moro é capaz. Ele é um serial killer de empregos, um assassino de reputações. Destruiu a indústria civil nacional para abrir espaço para empresas norte-americanas”, dispara Garcia.
Recém-acolhido no PL de Jair Bolsonaro, Moro lidera a corrida pelo governo do Paraná. Segundo pesquisa Quaest divulgada no fim de abril, tem 35% das intenções de voto no primeiro turno. Garcia, filiado ao nanico Democracia Cristã, resolveu entrar na disputa e aparece na mesma sondagem com 1%. Não parece exatamente preocupado em tirar a diferença. Sua campanha tem outro propósito: “Meu único objetivo é escrutiná-lo”.
O empresário diz que será “bem mais do que uma pedra no sapato” e garante guardar revelações “bombásticas” para o horário eleitoral. Pedimos uma pequena amostra, mas o infiltrado demonstra continuar razoavelmente treinado na arte de despistar. “Diferente dessa turma da Lava Jato, eu respeito a Justiça. Por isso ainda não revelei nada. Assim que cair o sigilo, vou poder falar. E guardo provas de tudo.”
Garcia, por sinal, não é propriamente um neófito da política. Em 1990, disputou uma vaga ao Senado pelo PRN, legenda que levou Fernando Collor de Mello ao Palácio do Planalto. Naquele tempo, apresentou-se como uma espécie de “caçador de marajás” e terminou a disputa em segundo lugar, com 25,81% dos votos. Quatro anos depois, voltou a bater na trave. Em 1998, recalculou a rota: candidatou-se à Assembleia Legislativa pelo PPB de Paulo Maluf e conseguiu eleger-se deputado estadual. Ao presidir a CPI da Telefonia, ganhou visibilidade suficiente para reacender antigas ambições senatoriais. O eleitorado parecia, porém, menos impressionado. Garcia terminou a disputa na quinta colocação, com 7,21% dos votos. Foi quando decidiu deixar a vida pública de lado e retornar aos negócios.
O delator afirma que o hoje senadoro forçou a espionar e grampear autoridades clandestinamente. “Guardo provas de tudo”, avisa
A CPI da Telefonia foi criada para apurar práticas abusivas das operadoras, mas logo enveredou pela investigação de escutas ilegais no governo paranaense. Garcia afirma ter convidado o Ministério Público Federal para acompanhar os trabalhos da comissão. Foi quando teve contato, pela primeira vez, com o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, que mais tarde integraria a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. O ex-deputado acredita que foi ele quem soprou seu nome no ouvido de Moro.
“Esse procurador acompanhou meu trabalho na CPI, ficou interessado no meu networking e achou que eu serviria para o que o Moro precisava”, afirma. Garcia faz questão de frisar que “Capa Preta” jamais agiu movido por propósitos republicanos. “Ele usava as informações para chantagear seus alvos. Tudo isso eu vou contar com detalhes.”
Moro ainda não se manifestou sobre a candidatura do desafeto. Quando Toffoli instaurou um inquérito para apurar as denúncias de grampos clandestinos contra autoridades, o senador afirmou na rede social X que não temia qualquer investigação baseada “nas fantasias confusas de um criminoso condenado”.
Garcia, por sua vez, diz esperar que o ex-juiz não fuja dos debates nem tente impugnar sua candidatura. Se isso acontecer, acrescenta o infiltrado, haverá um “acerto de contas histórico” nestas eleições. “Eu sei o que eles fizeram em outros verões.” •
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O anti-Moro’
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