Economia
Sem futuro?
Se não repensarmos a estratégia nacional, muitas gerações morrerão sem viver o sonho de um Brasil desenvolvido
No fim dos anos 1980, um chinês próximo dos 50 anos chamado Chen Yizi acompanhou uma delegação do seu país em visita oficial ao Brasil. Ele era uma pessoa influente e respeitada na China. Assessor especial do primeiro-ministro e do secretário-geral do Partido Comunista, foi protagonista nas reformas econômicas de Deng Xiaoping naquela década.
Em 2013, em exílio após demitir-se em protesto pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, Yizi escreveu um livro de memórias, no qual contou detalhes daquela visita ao Brasil. Segundo ele, a delegação chinesa ficou fascinada com a capital modernista Brasília, as rodovias, os prédios estilosos, as fábricas, as moradias de vanguarda, os carros compactos para as massas. Especulou que o Brasil deveria ter, naquele momento, uma renda per capita dez vezes superior à da China. Não era para tanto, mas a reação é reveladora.
Em 2019, passados apenas cinco anos de sua morte, sua terra natal superou o país que o havia deixado fascinado três décadas atrás. Era questão de tempo. Desde 1990, a renda per capita brasileira cresceu 1,3% ao ano, em média, enquanto a da China, que aprendeu uma coisa ou outra com o Brasil, avançou 8,1%. Não só isso: o fosso brasileiro em relação ao mundo desenvolvido se alargou. As nações consideradas de alta renda cresceram 1,5% ao ano. Tínhamos 36% da renda deles. Agora, temos 34%.
Mantida a tendência, o “país do futuro” não apenas se tornará um sonho cada vez mais distante, como também perdemos a esperança nele. Mas em que magnitude deveríamos repensar a nossa estratégia nacional de desenvolvimento? Dados sugerem que a mudança terá de ser radical.
Se quisermos atingir a renda per capita média dos países ricos, precisamos crescer em patamares muito superiores aos atuais. Para atingi-la em uma geração (25 anos), teremos de acelerar o nosso crescimento de 1,3% para 5,9% ao ano. Para se ter uma ideia, somente uma vez desde 1990 crescemos acima disso – em 2010, após a chamada “Crise do Subprime”, cujos impactos se concentraram nos dois anos anteriores.
Para atingir a renda per capita dos países ricos, precisamos crescer em patamares muito superiores aos atuais
A tarefa não ficará fácil se reduzirmos a ansiedade. Caso aguardemos duas gerações (50 anos), nosso crescimento precisará ser de 3,7%. Nem mesmo na nossa melhor década recente, no auge do boom das commodities entre 2004 e 2013, chegamos nesse patamar (3,1% em média). Quatro gerações (um século) exigirão 2,6% ao ano, o dobro do nosso desempenho atual. Doze gerações (300 anos!) demandarão um crescimento de 1,9% ao ano, ainda assim com uma aceleração de 50% em relação ao ritmo atual.
A intenção não é desanimar quem acredita no Brasil, ainda mais em tempos de Copa do Mundo. Pelo contrário, como no caso da Seleção Brasileira de futebol, nossa própria história nos dá motivos para otimismo.
Recordemos que a alcunha de “País do Futuro” não surgiu do nada. Em 1941, em livro homólogo, o escritor austríaco Stefan Zweig, que chegou ao Brasil fugido do regime nazista na Europa, relatou com entusiasmo as características brasileiras que considerava promissoras. Além das nossas riquezas naturais, “de uma opulência perturbadora”, o autor não deixou de notar o “desenvolvimento nitidamente crescente da indústria, que produz, em proporções cada vez maiores, no próprio país e com material seu, grande parte do que anteriormente tinha de importar”.
Era o início do período conhecido como nacional-desenvolvimentista, tradicionalmente situado entre 1930 e 1980, quando o Brasil adotou sucessivos planos de desenvolvimento liderados pelo Estado, crescentemente capacitado para tal, e que tinha na industrialização o seu objetivo prioritário. Instituições-chave como o BNDES, a Petrobras, a Eletrobras e a Embraer foram criadas. Conhecido pelos ciclos de exploração de commodities, como pau-brasil, açúcar, ouro, borracha e café, o Brasil passou a produzir aço, petroquímicos, máquinas, automóveis e até aviões. Grandes obras de infraestrutura, como rodovias interestaduais, usinas nucleares e a maior hidrelétrica do mundo, foram realizadas.
Foram as entregas desse período que deixaram os chineses fascinados no início dos anos 1980. Durante aquelas cinco décadas, o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu no mundo, a uma taxa per capita de 3,7% ao ano. Naquele ritmo, atingiríamos a renda média dos países ricos em 50 anos. Se fosse mantido aquele ritmo, hoje já teríamos a renda da Itália.
Aquela época não foi livre de contradições e erros. Além de suprimir as liberdades individuais e impedir o exercício da democracia, a ditadura impediu uma reforma agrária profunda, que esteve na base do “milagre econômico” do Leste Asiático, com relativa igualdade. Também em contraste com os casos de sucesso da Ásia, ficamos excessivamente dependentes de capitais estrangeiros, com aumento da vulnerabilidade externa (raiz da década perdida) e o comprometimento da construção de capacidades nacionais e de coalizões de apoio a projetos verdadeiramente nacionais.
O problema é que o período posterior, marcado pela hegemonia neoliberal, pautado pelos interesses de curto prazo do mercado financeiro e, como nos primórdios, refém dos ciclos de commodities, não solucionou essas questões. Pior ainda, alguns governos atuaram deliberadamente para aprofundar esses erros e destruir os legados positivos.
O resultado foi a mais grave desindustrialização precoce do mundo, grande dificuldade de gerar empregos estáveis, de qualidade e com bons salários, crescente dependência externa e a perda das características que um dia nutriram o sonho do “País do Futuro”: liderança, fortalecimento e planejamento estatal, desenvolvimento das capacidades produtivas, ambição e ousadia.
Convém relembrar as palavras de Zweig: “Já não se encontra um brasileiro que deseje voltar para o Velho Mundo… essa ambição de se desenvolver por si só… nada é demasiado ousado… este país aprendeu a pensar de acordo com as dimensões de sua própria vastidão e a contar com suas possibilidades ilimitadas como se fossem uma realidade em breve atingível”. Se provarmos, ainda que tardiamente, que o austríaco não estava errado, talvez a geração que viverá o sonho de um Brasil desenvolvido já esteja entre nós. •
*O autor é servidor público federal e integrante da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, com ampla experiência nas áreas de desenvolvimento industrial, inovação e comércio exterior. Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento pelo Ipea.
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem futuro?’
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