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Várzea: o futebol, da Liberdade ao Paraíso
A Netflix apresentou um documentário sobre o futebol de várzea. Essa apresentação bateu no fundo de minha alma futeboleira e varzeana
Nos anos 50 e 60, São Paulo de Piratininga transformava-se de capital da província em metrópole. Terminou por seguir os descaminhos da megalópole cosmopolita periférica. Dizem que suas formas – feias, desconjuntadas, híbridas – são o avesso da urbanidade e do urbanismo. Deixo o julgamento para os especialistas.
Meu olhar de menino e adolescente, fanático pelo dito esporte bretão, via São Paulo como um imenso campo de futebol, interrompido por impertinentes avenidas e arranha-céus. Jogava-se futebol nas ruas, nos becos, nos terrenos baldios, nos quintais, em todos os cantos. No vale que iria receber a Avenida 23 de Maio – entre a Liberdade e o Paraíso – eu assistia, nos fins de semana, sentado nos barrancos, à bola dos adultos correr solta. Nos dias úteis, a molecada cabulava aula e se juntava nos terrões que simulavam campos de futebol. Os gazeteiros ora celebravam os gols marcados, ora se estapeavam por conta de faltas controvertidas. Socos e pontapés eram desferidos com lealdade e até com amizade. Tudo acabava bem, descontadas as fraturas de crânio e de nariz.
Sábados e domingos, pela manhã ou à tarde, os craques da várzea exibiam suas habilidades nos times organizados. No Glicério, na Liberdade, no Carmo, na Mooca, no Bom Retiro, na Lapa, às margens do Pinheiros e do Tietê, no Parque da Aclimação, celebravam-se incríveis porfias entre times de todos os bairros, tamanhos e reputações. Quem era do meio sabia distinguir os grandes dos pequenos nesse imenso campeonato informal. Nos anos 60, eu batia minha bolinha no modesto, mas não menos vitorioso Buscapé F.C.: camisa grená, calções brancos, meias variadas. Meu maior troféu foi um hematoma na perna esquerda produzido por um tarugo de 2 metros, zagueirão da metalúrgica Lanzara, que não gostou da minha “caneta”, ou seja, da bola entre as pernas. “Não vem que não tem. Lugar de palhaço é no circo”, justificou o bate-estaca.
Os gramados, quando existiam, eram ralos, o que exigia habilidade apurada para dominar a bola, acertar o passe, fazer ou receber o lançamento. As bolas de couro, duras, pesavam toneladas quando chovia. As chuteiras eram instrumentos de tortura, tanto para o usuário quanto para o infeliz que sofria o impacto na canela. Os cravos de couro pregados na sola espetavam os pés do algoz e lanhavam as canelas da vítima.
Fora os torneios amadores patrocinados pela Federação Paulista e disputados entre os “grandes” da várzea, não havia contagem de pontos ganhos nem perdidos. Valiam as séries invictas, alardeadas de boca em boca, suscitando a inveja e a rivalidade, que, não raro, terminavam em pancadaria. Mas, é bom que se diga: quase sempre as desavenças eram resolvidas no braço. Tiros e facadas, só em doses moderadas. Quando o pau quebrava, os visitantes, minoritários, escapavam para os caminhões – já preparados para a fuga – com o uniforme de jogo. Os trajes civis e os pertences, quando não faziam parte da grana do mês, eram abandonados no vestiário ou em local semelhante.
Os temerários que apitavam os jogos sofriam espancamentos de praxe, quando não eram expulsos por jogadores do time local, insatisfeitos com a arbitragem. Visitantes eram, em geral, assaltados por mediadores caseiros. Não tugiam nem mugiam. Galo no terreiro do vizinho é galinha.
As partidas e os torneios – os chamados festivais- eram combinados durante a semana. Nas escalações, estampadas nas tabuletas afixadas nos bares mais frequentados de cada região, os nomes próprios não davam conta dos apelidos. Como histórias de pescador, corriam as lendas sobre as proezas de craques varzeanos famosos. Narrativas sobre os virtuoses de campos despelados “quase” contratados pelos times profissionais da capital. Na maioria das vezes, o peixe não era tão grande a ponto de merecer o anzol de um pescador profissional. Eram muitos os chamados, poucos os escolhidos.
Lembro de alguns que passaram do “quase” e se tornaram ídolos nos gramados do futebol oficial, com direito a nome no jornal e esperança de chegar à seleção brasileira. Julio Botelho, o Julinho, Djalma Santos, Carbone, Idário, Waldemar Carabina, Rubens, Homero.
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