Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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‘Depois de Horas’: Dante, Alice e uma madrugada sem fim

A obra esquecida da filmografia de Scorcese é um verdadeiro exemplo de viagem psicodélica menos óbvia no cinema

‘Depois de Horas’: Dante, Alice e uma madrugada sem fim
‘Depois de Horas’: Dante, Alice e uma madrugada sem fim
Depois de horas (1985) (Foto: Divulgação)
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Quando se fala em cinema psicodélico, alguns títulos vêm imediatamente à cabeça: Easy Rider, The Trip, Medo e Delírio em Las Vegas, Yellow Submarine, Tommy, entre tantos outros.

Mas pouco se fala sobre experiências análogas a uma viagem psicodélica presentes em filmes muito menos óbvios. Um bom exemplo é o Depois de Horas (1985), obra curiosa e frequentemente esquecida da filmografia de Martin Scorsese.

Ambientado no clima urbano sombrio do SoHo nova-iorquino, o filme acompanha Paul Hackett, um homem comum que decide abandonar sua rotina previsível para seguir madrugada adentro atrás de uma mulher que conheceu casualmente em um café.

A transformação começa antes mesmo da jornada. A caneta que falha ao anotar um número de telefone. O garçom performático que gira teatralmente antes de lhe entregar outra caneta. Pequenos detalhes que anunciam que a realidade está começando a se deslocar.

Mas as coisas realmente atravessam para o outro lado quando Paul entra no táxi.

O táxi funciona quase como a embarcação de Caronte, conduzindo-o para um território onde a lógica cotidiana deixa de funcionar. Como Alice seguindo o Coelho Branco até a toca, ele abandona um mundo racional para mergulhar num universo regido por outras regras.

O SoHo de Scorsese deixa de ser apenas um bairro. Transforma-se num submundo, uma espécie de inferno urbano. Nesse sentido, a estrutura do filme lembra mais a jornada de Dante do que uma simples comédia de erros. Cada porta aberta leva Paul para uma camada mais profunda do labirinto. Cada tentativa de voltar para casa apenas o empurra ainda mais para dentro dele.

Logo ao chegar ao apartamento de Marcy, Paul encontra Kiki, artista plástica que trabalha numa enorme escultura de papel machê. A figura grotesca lembra uma versão tridimensional de O Grito, de Munch. O que parece apenas um detalhe cenográfico revela-se uma das imagens centrais da narrativa.

Afinal, ao final da história, o próprio Paul se tornará a escultura.

Como em muitas experiências psicodélicas, o protagonista vai sendo privado de todos os mecanismos que lhe permitem manter o controle. Ele perde dinheiro, perde referências, perde rotas de fuga. A tarifa do metrô aumenta justamente quando consegue algum trocado. Chove sem parar. As ruas parecem mudar de lugar. Não existe saída.

Relógios aparecem constantemente ao longo do filme, lembrando a passagem do tempo. Mas o efeito produzido é o oposto. Quanto mais os relógios aparecem, menos o tempo parece avançar. A madrugada assume uma qualidade estranha, quase onírica.

Em experiências profundas de alteração da consciência, minutos parecem horas e horas parecem dias. O relógio deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma obsessão.

Outro detalhe curioso é a presença constante de símbolos ligados à morte. Caveiras surgem em tatuagens, objetos, chaveiros e detalhes de cena. Quase nunca ocupam o centro da narrativa. Permanecem escondidas nos cantos do enquadramento, como acontece em sonhos.

Pode-se interpretar Depois de Horas como a história de um homem atravessando simbolicamente a própria morte. Ela está presente na culpa, na paranoia, nas perseguições que sofre ao longo da madrugada e na sensação constante de ameaça.

Em diversas tradições iniciáticas, a transformação exige uma morte simbólica antes do renascimento. É exatamente esse processo que Paul atravessa.

A própria galeria de personagens parece saída de um sonho ou de um arquétipo coletivo. Marcy funciona como a guia que abre o portal para o outro mundo. Kiki assume o papel da artista alquímica, transformando matéria em símbolo. Os punks, artistas underground, frequentadores de bares decadentes e figuras excêntricas da madrugada funcionam como guardiões de passagem.

O filme inteiro parece construído sobre travessias. Portões, corredores, becos, clubes privados, apartamentos escondidos e portas que levam a outras portas.

A escultura inspirada em O Grito funciona como um dos símbolos centrais da narrativa. O observador transforma-se no objeto observado. Engessado dentro da escultura, Paul é lançado diante do prédio onde trabalha. A estrutura se quebra. Ele retorna ao escritório exatamente onde tudo começou.

Existe ainda um detalhe curioso. Nos momentos finais, uma figura alta e sombria surge discretamente ao fundo. Pode ser apenas um figurante. Mas muitos espectadores preferem enxergar nela a própria morte observando toda a trajetória.

Se for esse o caso, Paul não venceu a noite.

Apenas sobreviveu a ela.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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