Ricardo Pieralini

Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.

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Morreu José, vilipendiado, iludido e sem saber que sabia tanto

Teve sorte, porque não viu o filho chorar em seu velório de maneira apressada, postando vídeo em redes sociais e fazendo planos para as economias que sobram agora

Morreu José, vilipendiado, iludido e sem saber que sabia tanto
Morreu José, vilipendiado, iludido e sem saber que sabia tanto
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
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Morreu José. Foi anteontem de madrugada, o coração parou de repente e nem deu tempo de chegar ao hospital aqui da cidade. Eu o conhecia do bairro, cuidava dos jardins, um homem simples, poucos estudos e bom coração. José nunca aprendeu a ler e gostava quando eu narrava umas histórias, batia na porta e pedia um causo novo, faz-favô.

Achou triste demais a saga do burrinho pedrês, chegou mesmo a limpar uma umidade que ameaçava escapar do olho. Bateu com a bota no chão, firme, ao descobrir o fim da hora e vez de Augusto Matraga, esse era bravo, era bravo. José morreu sem saber que sabia quem era João Guimarães Rosa, mas levou o escritor mineiro no coração.

Teve um dia em que José chegou agitado, se eu sabia que a dona da loja tal tinha sido flagrada pelo marido em pleno ato com o melhor amigo dele, e ainda na cama do casal. Fosse na época da fazenda, acabava mal. Falei pra ele que toda cidade tem muito disso, e que a nossa teve inclusive uma moradora ilustre, que inspirou Capitu. Uma mulher real que trocou cartas com o maior escritor que o Brasil já teve, uma mulher cheia de personalidade e que vivia em paixões. Daí narrei a história da Capitu e do Bentinho. Tem coisa aí, falou José, e parece com hoje, parece não? José morreu sem saber que sabia quem era Machado de Assis, mas levou o escritor carioca no coração.

Nos últimos tempos, celular na mão, José andava incomodado, a cabeça cheia por causa das barbaridades do mundo. Se eu sabia dos crimes, da corrupção, das doenças que vinham do oriente, do Brasil virar comunista, da pouca vergonha. Calma, José. Cuidado, José. Mas tá tudo aqui, seu moço, e apontava para a tela do celular, e ainda deu pra todo mundo ficar doente do coração ou do cérebro, será esse tanto de vacina, dizia, pitando seu cigarrinho de palha. 

José não gostou quando o filho parou de acompanhá-lo no trabalho. Quando passou a ver vídeos de um homem todo musculoso e que só falava em dinheiro. Quando passou a frequentar a igreja que nem parecia igreja, cheia de luz colorida, gente perfumada, mulheres de bocas infladas e um pastor que chegava de carrão falando que deus quer é ver os filhos cada vez mais ricos, cada vez mais ricos. José nunca foi bobo e sabia, desde pequeno, que deus quer é que as pessoas sejam boas e justas e rezem para jesus, nunca para dinheiro.

Morreu José, tantas vezes vilipendiado, iludido, sem saber que sabia tanto de João, Machado, Clarice, Érico, Lygia, Graciliano, Rubem ou Cora. E levou-os no coração.

Morreu José. Teve sorte. Porque não viu o filho chorar em seu velório de maneira apressada, postando vídeo em redes sociais e fazendo planos para as economias que sobram agora que o pai finalmente se foi. Um tanto é da igreja, lógico, outro tanto ajuda na prosperidade pessoal que é a vontade de deus, amém.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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